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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Xadrez x Futebol em tempos de Copa do Mundo na Rússia!


Nos grupos de discussão sobre xadrez é tolerado que apenas um assunto se intrometa algumas vezes: o futebol! Ainda mais agora, durante a Copa do Mundo da Rússia, a terra do xadrez!

Assim, não é de se estranhar que, em meio a comentários de torneios, problemas de mate em três e outros assuntos típicos do meio enxadrístico, apareçam provocações futebolísticas (ainda que rapidamente censuradas pelo administrador do grupo, que levanta um cartão amarelo).

Num dos grupos, apareceu um jogador que também é árbitro tanto de xadrez como de futebol! Foi o suficiente para aparecer uma pergunta sobre a eterna polêmica entre "mão na bola" × "bola na mão". Ao ler a excelente explicação do colega, pensei numa analogia com o xadrez:  "mão na bola" é "peça tocada, peça jogada", mas "bola na mão" é "j'adoube"!

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Relembranças, ou um passeio até o centro de Fortaleza

http://relembrancasdemiltondias.blogspot.com.br/

Há um autor cearense, já falecido, de cujos textos gosto muito: Milton Dias. Conheci suas crônicas na época dos estudos para o vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC), que incluíra o livro Relembranças na lista de leitura obrigatória. Milton havia sido professor da UFC.

O estilo dele logo me cativou. Falava muito da cidade de Fortaleza, uma Fortaleza antiga para mim, mas que parecia tão próxima. Talvez por causa das ruas da cidade pelas quais andava sempre, sobretudo quando fui aluno do Colégio Militar de Fortaleza e costumava ir a pé até o centro em trajetos muitas vezes cobertos pelas crônicas daquele mestre do relembrar.

A nostalgia dos textos também contribuiu para a minha identificação; de algum modo eu me sentia presente ao ler as passagens em que contava seu amor a Fortaleza, suas reminiscências de estudante, de professor e de homem solitário: foi um cronista da saudade.

Para mim, era tempo de vestibular, e parecia que todas as decisões para a vida eram tão urgentes e definitivas, e era tão forte a sensação de divergência com a vida que levara até então, que ler os relatos tão bem escritos e sinceros de alguém que havia passado por tanto do que viria depois serviu como um farol, a iluminar o caminho a frente. Ajudou a colocar em perspectiva o presente como ele era de fato e reduziu enormemente a carga da ansiedade.

Creio que foi naquela época que a paixão pela leitura se tornou mais forte.

Um de seus textos, Viagem à Praça do Ferreira, conta como ele fizera, num certo sábado anos antes, quase o mesmo trajeto que eu fazia sempre. Saiu na Av. St Dumont, já na altura do Colégio Justiniano de Serpa (sua casa ficava na Rua Cel. Ferraz), em direção à praça. O motivo do passeio? Ir até uma livraria. Foram tantas as distrações e interrupções no caminho, que quando chegou ao destino já era meio dia, hora do almoço, e ele teve que voltar com a promessa de sair mais cedo de casa na próxima vez. 

Fiz muitas vezes, como disse, um trajeto que consistia em voltar pela Av. St Dumont, saindo do Colégio Militar, em direção ao centro, passando defronte aos colégios da Imaculada Conceição e Justiniano de Serpa (que ficam frente a frente). Depois, continuava pelo calçadão C. Rolim até chegar na Praça do Ferreira. Lembro do corredor de vento que se formava quando me aproximava da Rua Gov. Sampaio, certamente um refresco para quem andava por ali naquela horário calamitoso de uma da tarde. Chegava à praça e corria para a Livraria ao Livro Técnico que havia no Ed. Sulamérica, ainda lembro do cheiro dentro dela, de livro novo, de conhecimento ao alcance das mãos. Havia um subsolo onde estavam os tesouros quase inalcançáveis para mim na época: os livros de xadrez da Colección Escaques.

Quando “conheci” Milton Dias, também para mim o Colégio Militar e aqueles passeios pelo centro já eram coisa do passado, guardavam certa nostalgia. Guardam até hoje. O mestre cronista tinha toda razão, jamais achei um erro em suas afirmações. E hoje, quando lembro de tudo isso, é uma frase dele que não me sai da cabeça: “E tudo dói, quando vira saudade”. 

 Compartilhe: bit.ly/MiltonDias

domingo, 18 de junho de 2017

Tempo e Xadrez

Créditos da imagem

O relógio de pulso do árbitro marca exatamente 14:00. Ele olha o amplo salão onde os jogadores sentam impacientes, limpa a garganta e declara na melhor voz possível: “Relógio das brancas em funcionamento!”. Assim começa uma rodada num torneio de xadrez.

Uma frase estranha. Não se diz, por exemplo: “As brancas podem mover!” ou “Que comece a batalha!”. Não, simplesmente mandam acionar o relógio do jogador de brancas. Depois de acionado, começa a partida, ou pelo menos é melhor que seja feita uma jogada, senão o tempo acaba, e o outro vence sem precisar sequer mover um peão.

As pessoas imaginam uma competição de xadrez com várias mesas, cada uma com dois adversários e um tabuleiro sobre o qual andam (na verdade são empurradas) peças brancas e pretas. Quase ninguém se lembra do relógio. Um artefato pouco usual, exceto no meio enxadrístico, com dois marcadores, um para cada jogador. Durante uma partida, há sempre um parado e outro funcionando (o tempo nunca para, não é mesmo?). Se o tempo termina, a partida acaba. Vence quem ainda tem tempo. É um martírio para alguns!

Os jogadores iniciantes, então, ficam apavorados com o relógio. São capazes de jogar muito bem sem aquele trambolho do lado, mas quando ele é posto em marcha, subitamente os valores das peças se invertem, primeiro apertam no relógio para depois jogar, derrubam o monstrengo, afoitos, ou, então, simplesmente ficam paralisados, a cabeça em repetição das mesmas jogadas, até que voltam ao mundo dos vivos quando o adversário, feliz, anuncia que o tempo acabou.

Sim, o xadrez de competição não é uma luta tridimensional, mas quadridimensional! O xadrez de torneio não se resume a dar xeque-mate, mas também exaurir o tempo do outro!

Engana-se quem pensa que os jogadores ficam lá, sentados, testando a paciência e a aptidão ergonômica do adversário, enquanto tentam livremente encontrar a jogada absoluta. Não, eles precisam usar bem o tempo! Precisam transformar cada posição do tabuleiro numa charada, num quebra-cabeças, que dê trabalho e tome tempo para ser resolvido.

Mas nem todos tomam esse cuidado.

Uma vez, num torneio, dois jogadores apertaram as mãos, amistosamente, e aguardaram o anúncio do árbitro. Quando foi dada a ordem de acionamento, ambos se esforçaram ao máximo para usar pouquíssimo tempo, tanto que era difícil seguir o ritmo das jogadas! Poucos minutos depois, enquanto as outras partidas do torneio mal tinham quatro ou cinco jogadas, eles se viram na embaraçosa posição de rei contra rei, empate! Na mente de cada um, a constatação útil no xadrez tanto quanto na vida: “eu preciso aprender a usar melhor meu tempo”.

Assim, o xadrez de torneio não se trata somente de dominar o centro do tabuleiro, colunas e linhas abertas, atacar e defender, é sobretudo uma luta pelo tempo; não o tempo do relógio de pulso, o tempo do calendário, este fica como que parado, suspenso. É um tempo dentro desse outro tempo, um tempo que lhe toma o lugar, e torna-se o único tempo que importa, pois enquanto o relógio de xadrez estiver em marcha, haverá sempre um lance a ser feito!


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domingo, 25 de setembro de 2016

Peça tocada...


Sempre vou lembrar da história do Isaías.

Ele era um jogador esforçado, mas pouco hábil, que mantinha a persistência tão somente pelo enorme amor pelo jogo, além de ter no convívio com os outros jogadores a ilusão de uma vida social.

Jogadores são tipos cruéis, brincam com a inabilidade alheia, nunca com a própria. Isaías apenas olhava, à margem, as discussões principais, as rodinhas nas mesas onde os melhores jogadores explicavam os porquês de suas jogadas.

Engraçado perceber como aqueles que se julgavam melhores que os demais se comportavam na mesa de jogo, ao explicar suas ideias: tinham um ar orgulhoso e firme para disfarçar o puro blefe e se empenhavam em ignorar as perguntas pertinentes, mas inoportunas, daqueles aos quais escapavam seus brilhantismos postiços. Capivaras, era como eles chamavam aqueles menos hábeis com as peças, talvez em analogia à simplória mansidão do grande mamífero nacional.

Acontece que todo capivara tem um dia de mestre, seja por inspiração, descuido ou prepotência do adversário, pura sorte ou mandinga. Há dias em que, ao alinhar os Peões na segunda fileira, alinham-se também os astros na conformação exata, com o sol na Casa da Fortuna do jogador menos laureado. Isaías não foi exceção, e seu caso é lembrado até hoje, nas rodas de conversas, em torno das mesas onde se jogam partidas rápidas.

Era a primeira rodada do torneio, que é normalmente quando acontecem os confrontos mais discrepantes, e os capivaras têm sua chance de enfrentar os favoritos. Isaías saiu do trabalho direto para o local dos jogos. No ônibus, ele deu uma espiada numa revista que mostrava a mais recente novidade da defesa Siciliana, sua predileta. Como diria um campeão local, se capivara tivesse estilo, Isaías seria um jogador de ataque!

Ao chegar no salão, correu até o quadro onde já estava pregada uma folha com o emparceiramento do dia, fora pareado justamente contra o atual campeão estadual, um adversário difícil no tabuleiro e fora dele, pela forma pândega de tratar os derrotados após as partidas. Para completar, Isaías jogaria com as peças pretas.

Na hora marcada, dezenove horas, Isaías apertou seu relógio e aguardou a chegada do adversário, que chegou cinco minutos depois e não disfarçou o meio sorriso de satisfação ao saber contra quem jogaria.

Entraram na mesma linha de jogo que Isaías vira na revista e, como quem não tem nada a perder, ele fez a jogada nova sem ter ao menos revisado as principais continuações possíveis. Seu adversário, que mal jogava já se levantava para passear pelo salão e olhar outros tabuleiros, voltou ao ver que lhe tocava jogar. Ignorou qualquer mudança considerável ao que estava acostumado, jogou o óbvio roque, pressionou o relógio, anotou a jogada na súmula e levantou novamente.

Isaías ficou olhando para o tabuleiro, o coração acelerou, a revista dizia que aquela jogada era um erro, mas ele não lembrava o porquê. Ficou se maldizendo mentalmente enquanto se esforçava para encontrar o furo. O tic-tac do relógio analógico parou de ser ouvido, e Isaías entrou num raro estado de concentração, imaginando peças se movendo, eram muitas as variantes possíveis... Já se passavam quinze minutos, seu adversário vez por outra passava pela mesa para checar se já era sua vez. Na rua passou um carro de som tocando aquela música do Chico Buarque, Mulheres de Atenas, daí veio à mente a Guerra de Tróia, Cavalo de Tróia... uma oferta de um Cavalo para se infiltrar na posição inimiga... De repente, ele lembrou do que dizia a revista: “com este elegante sacrifício de Cavalo, as pretas expõem o Rei inimigo de forma irrevogável”. Pegou seu Cavalo e comeu o Peão imediatamente à frente do Rei inimigo.

O adversário voltou e arregalou os olhos ao ver seu Rei sendo peitado por um Cavalo preto. Desta vez sentou com semblante mais sério, olhou para Isaías, que ainda escrevia sua jogada na súmula da partida, e pôs-se a pensar pela primeira vez naquele jogo.

A partir daí, acabou-se o sossego de Isaías; é uma dificuldade vencer as partidas ganhas, porque se tem a impressão que o adversário vai ver tudo, vai se defender da melhor forma e, cada vez que se tem a vez, é difícil afastar a sensação de que não se vê a melhor jogada.

As outras partidas do torneio foram acabando, e os outros jogadores foram se amontoando em torno da mesa de Isaías, o que aumentava seu nervosismo. Mas a audiência seguia o ancestral hábito de torcer pelo mais fraco e se contorcia ao ver alguns erros de Isaías, que podia arrematar de vez a questão e não o fazia!

No Xadrez, como na vida, uma grande vantagem permite margem a jogadas menos exatas, que vão reduzindo as opções vencedoras, vai ficando mais raro o direito ao lance menos forte, até que chega um momento em que só existe uma jogada para ganhar, as outras todas perdem. Um desses casos estava ali posto diante da audiência e dos dois jogadores. Isaías suava frio e pensava, tinha menos de cinco minutos para acabar seu tempo, escolheu uma jogada de Bispo, não era a correta. A mão foi se dirigindo ao Bispo e a audiência, já que sempre é mais fácil ganhar as partidas dos outros, se retorceu a ver que ele ia mover a peça errada. No meio do caminho, porém, pela pressa, a mão de Isaías roçou uma Torre, que estava mais afastada do foco do ataque, e parecia menos ameaçadora.

- Peça tocada é peça jogada! - Gritou o oponente, sabendo que aquilo certamente abalaria Isaías.

Isaías olhou em volta e viu o árbitro assentindo com a cabeça, ele teria que mover a Torre.

O ânimo acabou, viu-se perdido, quase sem tempo, precisando pensar do zero uma jogada de Torre. Sentiu que não havia jeito, olhou a súmula e pensou em abandonar a partida. O peso se foi, sentiu-se livre.

Olhou a Torre de novo, podia dar um xeque, depois outro… espere um pouco, só depois o Bispo vai… Tem xeque-mate!

Com um minuto no relógio, Isaías deu xeque com a Torre e anunciou:

- Mate em três jogadas.

A torcida continha a custo os comentários e a euforia. O adversário arregalou novamente os olhos, pensou um pouco, já que tinha muito tempo ainda a seu dispor, mas não viu jeito. Tem horas no Xadrez que, depois que a posição já está posta sobre o tabuleiro, as coisas são como 1 + 1.

Inclinou o Rei, apertou a mão de Isaías e saiu mal humorado.

Foi a glória, todos parabenizando Isaías, que negou-se a entregar a súmula original ao árbitro e naquela noite mal pregou os olhos de alegria. No restante do torneio, voltou a ser o capivara de sempre, em modesta posição ao final da tabela. Mas não havia do que se entristecer.

A súmula da partida épica virou um quadro na casa de Isaías. Hoje, ele já nem joga mais, fica só acompanhando as notícias pelos conhecidos.

Quanto ao adversário derrotado, recuperou-se bem, e quase vence a competição. Com o tempo, porém, perdeu muito da força de jogo, sendo derrotado com cada vez maior frequência. Nas rodas de Xadrez e nos bares que frequenta, não tem uma vez que chegue que não lhe recebam calorosamente com um: “Peça tocada...”.


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LancesQI

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