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domingo, 21 de abril de 2019

Xadrez brasileiro no Youtube


A comunidade enxadrística brasileira na internet tem migrado de conteúdos quase que exclusivamente baseados em blogs e fanpages no Facebook para o formato audiovisual, que permite maior dinamismo, maior envolvimento com o público e traz o potencial de atrair milhares de pessoas para o xadrez. Há tempos que se sentia a carência de grandes canais de partidas, táticas, finais etc, que são abundantes em espanhol e inglês, feito por brasileiros.

Com efeito, já temos hoje canais como o Xadrez Brasil, do Rafael Leite, que superam em números de inscritos um canal internacional famoso como o Power Play Chess, do GM Daniel King. Não vai demorar até alcançarmos no país canais com mais inscritos que o MatoJelic (+150 mil) ou até mesmo o aparentemente inalcançável canal do Agadmator (+400 mil).

O interessante nesse espaço no YouTube é que mesmo os grandes mestres brasileiros como Krikor Mekhitarian (+22 mil) Evandro Barbosa (+17 mil) e Rafael Leitão (+7 mil) disputam a audiência com nomes que sustentam menor ELO FIDE, mas que têm conseguido boa presença online, como o Rafael Leite, citado acima, e o Renan Araújo (+48 mil). Apesar de ainda ser um canal relativamente pequeno, vale a pena citar o trabalho da jovem Beatriz Ibrahim, (+ 1 mil) que com certeza é enorme estímulo para a prática do xadrez por cada vez mais mulheres.

Enquanto que os grandes nomes são conhecidos por muitos de nós, é interessante saber mais sobre aqueles antes pouco conhecidos que agora galgam seu espaço falando com muita propriedade e zelo do nosso querido jogo.

Entrei em contato com alguns dos canais citados acima convidando os responsáveis para uma entrevista curta, de modo a divulgar um pouco mais sobre eles e seus canais no YouTube. Alguns já responderam e em breve as entrevistas serão publicadas aqui conforme as respostas cheguem.

Será que esqueci de algum canal interessante? Deixe sua sugestão nos comentários.

sábado, 13 de abril de 2019

Topalov e as imortais... dos outros


Veselin  Topalov (Bulgária, 1975 -- ) é um jogador de estilo criativo que não teme complicações. Coube a ele ser o adversário de Kasparov na última partida oficial jogada pelo ex-campeão do mundo em Linares 2005, e ele venceu! Alguns meses depois, Topalov sagrava-se campeão mundial pela FIDE ao vencer o Torneio de San Luis, Argentina, terminando à frente de nomes como Anand, Svidler, Morozevich, Leko e Judit Polgar. Aquele ano de 2005 foi um espetacular para o jovem Topalov!

Além de todo o sucesso como jogador, existe uma curiosidade raramente falada: ele foi derrotado por quatro grandes nomes da história do jogo, Kasparov, Karpov, Bareev e Shirov, naquelas que se tornaram conhecidas como 'as imortais' de cada um desses jogadores. Vejamos a seguir:

Kasparov, G. × Topalov, V. (Wijk aan Zee, 1999)
Posição após 23. ... Dd6
Aqui, Kasparov inicia um combinação de longo prazo, dessas impossíveis de calcular todas as variantes até o final por um ser humano, que tornou esta partida talvez a melhor partida da carreira do 'Ogro de Baku'. 24.T×d4! (Kasparov) ... c×d4? Melhor teria sido manter a igualdade recusando o sacrifício. Mas qual grande obra sobre o tabuleiro não precisa de uma ajudinha do adversário? Só um jogador destemido como Topalov para entrar na linha principal do sacrifício! 25.Te7!! (Kasparov). O segundo sacrifício é ainda mais difícil e espetacular que o primeiro! Mas ambos precisaram ser calculados juntos, pois o primeiro não teria sentido sem o segundo. Toda a partida pode ser vista aqui.

Karpov, A. × Topalov, V. (Linares, 1994)
Posição após 17. ... h×g6
Alguns anos antes, no torneio de Linares de 1994, enfrentando Anatoly Karpov, Topalov novamente dá uma chance de imortalidade a outro grande ex-campeão mundial: 18.Cc5! "Forte jogada, que abre espaço para um agudo jogo tático" (Karpov) ... d×c5 19.D×d7 Tc8 20.T×e6! "Este sacrifício de qualidade escapou aos cálculos de meu adversário, que chegou muito perto de salvar a partida" (Karpov). Novamente, dois sacrifícios combinados (cavalo em c5 e torre em e6) que tornam a combinação uma das mais famosas dentre as jogadas por Karpov. A partida completa pode ser vista aqui. Vale lembrar que Karpov venceu aquele torneio naquela que foi talvez a maior performance individual de um jogador em todos os tempos (11 pontos em 13 partidas, +9 -0 =4; 2,5 pontos à frente de Kasparov e Shirov).

Topalov, V. × Bareev, E. (Linares, 1994)
Posição após 16. De4
No mesmo Torneio de Linares de 1994, Topalov, desta vez de brancas, sofreu uma derrota do tipo miniatura para o grande mestre Evgeny Bareev numa partida que ganhou o prêmio de beleza do torneio. O diagrama acima ocorreu após um primeiro sacrifício de Bareev no 13º lance (13.... C×f4) sabiamente recusado por Topalov, que pensou que após 16. De4 haveria a troca de damas com igualdade material e uma ligeira vantagem posicional para as brancas, mas ele não contava com as inspiradas ideais de Bareev naquele dia: 16. ... Te8!! (Román Torán) 17.D×e8 Bf5! "Completando a manobra que nos recorda 'A imortal', com seu duplo sacrifício de torres" (Román Torán). Mais uma vez a combinação envolve múltiplos e belíssimos sacrifícios! 18.D×a8 ... e, a partir de agora, temos mate em 10 jogadas que deixo como exercício aos leitores. Toda a partida pode ser vista aqui. Duas derrotas imortais em um mesmo torneio, definitivamente 'Linares 1994' foi uma competição difícil para Topalov.

Para finalizar, uma brilhante jogada que arrematou um final de bispos de cores opostas, potencialmente empatado:

Topalov, V. × Shirov, A. (Linares, 1998)
Posição após 47. Rg1
Shirov, temido por colocar fogo no tabuleiro em quase todas as suas partidas, é menos conhecido por sua técnica de finais de partida, porém, quem disse que nos finais de poucas peças não existe mais tática? 47. ... Bh3!! Este brilhante sacrifício tem sido citado como um dos lances mais fantásticos da história do xadrez! Mais do que ficar "na prática" com 4 peões contra 1 (por causa dos peões dobrados brancos na coluna h) as pretas abrem caminho via f5 até as casas críticas que garantirão a coroação de um de seus peões, de a ou d. 48.g×h3 Rf5 49.Rf2 Re4 50.B×f6 d4 51.Be7 Rd3 52.Bc5 Rc4 53.Be7 Rb3 e Topalov abandona (0-1). Veja a partida completa aqui.

Grandes jogadores quase sempre têm seus altos e baixos, Topalov foi crescendo com essas derrotas contra grandes nomes da década de 1990 para, além de ser campeão pela FIDE e número 1 do mundo, tornar-se um dos maiores jogadores da década seguinte. Sua grande qualidade, e talvez por isso tantas derrotas extraordinárias, é seu lema que tão bem faz ao xadrez: jogue e deixe jogar!

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Xadrez Fascinante


Há alguns anos (como passam rápido), pensei em fazer uma série de postagens para este blog a fim de apresentar aos leitores aquelas posições de maior importância para a história do xadrez. Como eram postagens curtas, e eu não tinha nada a acrescentar nas análises técnicas das partidas completas em relação às magistrais obras publicadas ao longo dos anos, decidi focar na posição chave de cada partida famosa e contribuir no sentido de unir informações soltas, quase nenhuma delas disponível em língua portuguesa, sobre o contexto da partida, quem eram os adversários, o que tornou aquela posição tão célebre etc. O objetivo era trazer um conjunto de informações mínimas, essenciais, que todo aquele que passa pela vida precisa saber sobre o xadrez.

Para o blog, apenas cerca de uma dúzia de textos foi produzida, a maioria bem curtos, limitados ao formato do canal, mas foram uma semente.

Quando pensei em retomar a série, minhas ambições já estavam mais aprofundadas, era necessário rever o que já tinha feito, ampliar, enriquecer, trocar algumas das posições escolhidas por outras mais relevantes (aprender xadrez é um processo) e completar o projeto: seriam 64 posições críticas de 64 partidas famosas. Mas como escolher?

Um dos critérios: não poderia ser uma posição de abertura, do tipo armadilha, tão comuns em livros para iniciantes. Outro critério, seriam candidatas naturais posições presentes em livros de referência como a fantástica coletânea Meus Grandes Predecessores de Garry Kasparov, Zurich International Chess Tournament de David Bronstein ou 500 Master Games de Tartakower & DuMont. Esses gigantes já haviam feito a triagem natural, mas apenas na intersecção de várias dessas magistrais fontes eu encontraria meus 64 tesouros. Mas a cada dia são criadas partidas que podem se tornar antológicas! Então, o trabalho não poderia se prender somente aos clássicos.

Algumas páginas de internet, como ChessHistory.com, Chessbase.com, Chess.com e ChessGames.com foram levadas em conta, em especial está última, que conta com uma área de comentários de usuários da página que é um verdadeiro manancial de referências!

Para dados sobre jogadores e outras personalidades citadas no livro, usei a Wikipédia como fonte principal (em geral a versão em inglês, que costuma ser mais completa) e outras fontes citadas oportunamente no texto.

Escolhidas as partidas, pesquisados os assuntos, amarradas as pontas soltas, verifiquei que o trabalho seria hercúleo! Então decidi dividir o livro em dois volumes.

Neste primeiro volume que ora entrego, cubro um período que vai desde a primeira partida do xadrez moderno, jogada em 1475, até o marcante Torneio de Candidatos de 1953. O segundo volume tratará dos anos seguintes, até a era atual, em que nomes como Kasparov e Carlsen estão ofuscados pela assombrosa perfeição técnica dos algoritmos computacionais!

Agradeço aos leitores do blog, aos amigos enxadristas e não enxadristas pelo interesse demonstrado pelo assunto ao longo dos anos. Agradeço especialmente à minha amiga Jacqueline Amorim, que corajosamente se voluntariou para revisar o texto. Finalmente, à minha família pelo apoio e paciência nos períodos de dedicação ao livro, sem os quais eu não teria o equilíbrio para realizar nenhuma tarefa de valor.

Que a leitura seja agradável e o objetivo alcançado. A repercussão desse primeiro volume vai me acompanhar e animar na conclusão do segundo, que espero lançar brevemente.


quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um erro calculado?

Spassky, B. X Fischer, B. ( Reykjavik, 1972)
Posição após 29. b5 …
FEN: 5k2/pp4pp/3bpp2/1P6/8/P2KP3/5PPP/2B5 b - - 0 29

Para alguns, pode parecer estranho que esta posição tão simplificada, até levemente desinteressante, possa, ao mesmo tempo, ser tão famosa.

Em 1972, o mundo inteiro (e não somente os enxadristas) acompanhou avidamente a disputa pelo título mundial de xadrez (que, à época, era disputado a cada 3 anos). O motivo para tanto interesse foi que, desde a criação do ciclo do campeonato mundial pela FIDE (após a morte de Alekhine em 1946), aquela seria a primeira vez que os contendentes (campeão vigente e desafiante) não seriam ambos soviéticos. Mais que isso, em plena Guerra Fria, emergira como desafiante o norte-americano Bobby Fischer!

sábado, 19 de novembro de 2016

Rubinstein, um lance, duas vitórias

A série sobre posições famosas demanda muitas pesquisas em livros, revistas antigas, fóruns de discussão, que trazem muitas descobertas interessantes, além das diversas sugestões de colegas enxadristas. Tais curiosidades, que talvez não estejam exatamente dentro da proposta da série, com frequência dão origem a uma postagem só para elas.

Num antigo livro com 50 partidas seletas, duas me impressionaram em especial. Em ambas, jogava de brancas o grande mestre Akiba Rubinstein e seus adversários eram (ou seriam) campeões mundiais: Lasker e Capablanca, respectivamente. Rubinstein ganhou dos dois usando uma mesma jogada, embora as posições sejam distintas! Seria um método secreto para vencer campeões do mundo?


Rubinstein nasceu na Polônia (então parte do Império Russo) e foi contemporâneo de Lasker, Capablanca, Alekhine, Tarrasch e Marshall, para falar apenas dos famosos cinco grandes mestres originais. A forte concorrência no período em que esteve no auge de sua força enxadrística pode ajudar a entender porque Rubinstein jamais foi campeão mundial. Outros fatores foram sua condição financeira desfavorecida e a eclosão da I Guerra Mundial, quando Rubinstein estava no ápice de sua forma.

Um match com Lasker estava pré-firmado para 1914, quando começou a guerra, e, depois dela, a penível condição econômica europeia impediu que Rubinstein conseguisse levantar os valores pedidos por Lasker como bolsa mínima para a disputa do título (o mesmo aconteceria depois, quando o campeão já era Capablanca).

Segundo os ratings históricos, Rubinstein esteve pelo menos o entre os quatro melhores do mundo no período entre 1905 e 1915 e foi provavelmente o mais forte enxadrista do mundo entre 1912 e 1914. Justamente neste período áureo foram jogadas as partidas contra Lasker e Capablanca, nas quais Rubinstein usa o mesmo lance para obter a vantagem.

Nas posições acima, as partidas se encontram em seu momento crítico. Contra Lasker, era primeiro confronto entre eles, e Rubinstein precisa encontrar uma forma de retomar a torre sem cair num final desfavorável. Contra Capablanca, também o primeiro confronto entre os dois, o grande mestre polonês preparou uma linha aguda de abertura e precisava achar o único lance que não só evitaria ficar mal de imediato, mas deixa as brancas com posição superior!

Na primeira posição, Rubinstein jogou 18. Dc1!, exatamente o mesmo lance (com outras ideias) que fez na segunda, 17. Dc1!!, obtendo em ambas as partidas vantagens de longo prazo que conseguiu converter em vitória algumas jogadas depois.

O xadrez está cheio de coincidências, mas, como vimos, nem todas as coincidências na vida de Rubinstein foram tão felizes como o 'Dc1'. O mestre sempre teve uma saude mental frágil e passou boa parte de seus últimos anos em instituições psiquiátricas, especialmente após a morte da esposa em 1954.

Esses traços da personalidade de Rubinstein chamaram a atenção do escritor russo Vladimir Nabokov, que se inspirou nele (como em outros jogadores do início do século XX) para moldar seu personagem principal no livro A Defesa Luzhin, que depois deu origem a um excelente filme homônimo.

Rubinstein pode não ter passado para a história como um campeão mundial, mas suas combinações terão sempre um lugar cativo nos tabuleiros e no imaginário de gerações e gerações de enxadristas. Na próxima vez que puder fazer o lance 'Dc1', lembrarei do mestre e pensarei com cuidado, pode ser uma arma poderosa, principalmente se meu adversário for um Campeão do Mundo!

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os Bispos de Lasker

Dr. Em. Lasker x J. H. Bauer, Amsterdam 1889
Posição após 13. ... a6
FEN: r4rk1/1b2bppp/ppq1pn2/2ppB3/5P2/1P1BP1N1/P1PPQ1PP/R4RK1 w - - 0 14

Algumas partidas se tornam famosas por belas combinações, por seu peso para o resultado de um torneio ou por mudar a vida de alguém. Em 1889, o então promissor aspirante ao título de Campeão Mundial, Dr. Emanuel Lasker jogou contra Johan Bauer (forte mestre austríaco à época) uma partida que se celebrizou por ter popularizado um novo tema tático, belo e poderoso. Se a Partida Imortal se eternizou pelo duplo sacrifício de torres, esta entrou para a história por causa de um sacrifício duplo de bispos.

Campeão Mundial por 27 anos (de 1894 a 1921, um recorde), Lasker foi um dos mais fortes enxadristas da história. Além disso, foi um dos últimos campeões com múltiplos talentos, sendo doutor em matemática, filósofo e grande mestre de xadrez. Lasker, aliás, estava no grupo de cinco jogadores aos quais o Czar russo Nicolau II se referiu ao cunhar o termo ‘Grande Mestre’, quando se dirigia aos cinco melhores colocados no Torneio de São Petesburgo de 1914. Um título que se tornou tão significativo que foi oficialmente adotado pela federação  internacional anos depois. Johan Hermann Bauer deixou pouca informação a seu respeito e, no xadrez, foi mais um a seguir a triste sina de Kieseritzky, passando à posteridade como o derrotado de uma partida fantástica.

Na posição acima, as brancas possuem vantagem de espaço e mobilidade plena de suas peças. Especialmente o par de bispos, que exerce forte pressão sobre o esconderijo do rei negro, tal dois canhões contra uma muralha indefesa. Porém, sem uma rápida providência, as negras podem avançar seu peão da dama, já com forte ação na grande diagonal branca, equilibrando a posição.

Lasker encontrou uma continuação avassaladora: 14. Ch5! Cxh5 (se 14 … d4 15. Bxf6 Bxf6 16. Dg4 Rh8 17. Tf3 e5 18. Bxh7 … com forte ataque) 15. Bxh7+! Rxh7 (se não tomar o bispo, fica como desafio descobrir, é mate em 4 jogadas) 16. Dxh5+ Rg8 17. Bxg7 Rxg7 (novamente, não tomar o bispo leva a um mate forçado em… 8 jogadas!) 19. Dg4 + Rh7 20. Tf3 … As pretas são forçadas a entregar material de volta para não levar mate e a partida se decide facilmente para as brancas. 20. … e5 (única) 21. Th3+ Dh6 22. Txh6 Rxh6 22. Dd7 … (retomando um dos bispos) 22. … Bf6 Dxb7 e as pretas abandonaram 14 lances depois.

Depois desta partida, o sacrifício do par de bispos contra o roque se tornou um tema muito conhecido  (inclusive, há um livro a respeito) que deve fazer parte do repertório tático de todo jogador, sob risco de ser pego desprevenido, como já se viu até mesmo em outros embates magistrais: Alekhine x Drewitt (1923) e Nimzowitsch x Tarrasch (1914). Este último, aliás, recebeu Prêmio de Beleza no Torneio de São Petesburgo (já citado acima). Conta-se que, quando foi votado o prêmio, Dr. Tarrasch (que nutria  por Lasker um profundo desafeto) perguntou se ele votaria por sua partida, ao que Lasker (em 1914 já Campeão do Mundo) teria respondido: “Claro que sim, sem dúvidas! Afinal uma partida assim só se vê a cada… 25 anos!”. 


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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Quando (e como) Fischer se revelou Fischer

D. Byrne x R.J. Fischer
New York, 1956
Posição após 17. Rf1
Meninos prodígio sempre chamam bastante atenção, seja na música, matemática ou xadrez. Em 1956, Robert James (Bobby) Fischer ainda era somente um garoto de 13 anos de idade quando começou a ser conhecido mundo afora por causa do seu talento enxadrístico. Donald Byrne foi campeão norte-americano em 1953 e mestre internacional de xadrez. Quando se sentou para enfrentar Fischer, o campeão juvenil norte-americano em 1956, Byrne dificilmente poderia imaginar a dimensão que aquela partida tomaria.

A posição acima está prestes a revelar o ápice duma brilhante série de jogadas que se iniciou com 11. ... Ca4!, a partir da qual já se escreveu: “As próximas 7 jogadas geraram uma das mais fantásticas sequências já registradas em toda a história do xadrez.” (J. Nunn e W.H. Cozens, em The king hunt, 1996).

A partir do diagrama, o ponto alto é a entrega da Dama com 17. ... Be6!!. A Dama é uma peça tão poderosa no xadrez, que é sempre interessante ver quando ela é sacrificada. Principalmente quando a vitória do bando que oferta o sacrifício só vem muitos lances depois. Neste caso, Fischer trocou sua Dama por 2 Bispos, 1 Torre e 1 Peão, o que é materialmente suficiente para vencer, mas exige uma técnica apurada.

A mágica cena dum menino vencendo um experimentado mestre com tamanha técnica e visão, aliada à beleza dos lances, fez com que esta partida fosse rapidamente aclamada como 'A partida do século'. Curiosamente, ela não aparece no famoso livro My 60 memorable games, a obra prima escrita por Fischer em 1969.

Uma linha interessante resultaria a partir do sacrifício da Dama, caso fosse recusado, pois poderia surgir um belo mate de Philidor em caso de 18. Bxe6? Db5 19. Bc4 Dxc4+ 20. Rg1 Ce2 21. Rf1 Cg3+ 22. Rg1 Df1+ 23. Txf1 Ce2#.

Toda a combinação que começa no 11º lance negro envolve o sacrifício de um cavalo em a4 (recusado), o sacrifício da qualidade em f8 (recusado) e, enfim, o sacrifício da Dama em b6 que, pela linha mostrada acima, o Branco foi forçado a aceitar.

A partida continuou por mais 24 lances. O menino Fischer não deu mais nenhuma chance. O mestre Byrne, talvez intuindo que naquele momento entrava para a história do xadrez (infelizmente da mesma forma que Kieseritzky), não exerceu seu direito de abandonar a partida e permitiu que ela seguisse até o mate com 41. … Tc2#.

Posição final após 41. ... Tc2#.

domingo, 6 de julho de 2014

Um lance nada inocente

Lewitsky,S.M. - Marshall, F.J.
Breslau, 1912
Posição após 23. Tc5.
“... o mais belo lance já jogado.” - Horowitz
Frank Marshall foi o melhor enxadrista dos Estados Unidos da América no início do século XX e desafiante pelo título mundial contra Emanuel Lasker em 1907. Um jogador de ataque, considerado um dos últimos do antigo estilo romântico, que na época já vinha perdendo espaço para o xadrez mais científico. O que talvez tenha ofuscado um pouco a brilhante carreira de Marshall tenha sido o fato de ser contemporâneo de Capablanca, Lasker e Rubinstein, mesmo assim, ainda foi capaz de vitórias isoladas contra todos estes três gigantes do tabuleiro. Stepan Lewitsky foi um dos mais fortes mestres russos do período pré-soviético e tem seu nome na teoria enxadrística com o Ataque Lewitsky (1. d4 d5 2. Bg5). Porém, a exemplo de Kieseritzky, é mais lembrado por ter sido derrotado nesta partida de desfecho brilhante, jogada no torneio de Breslau em 1912.

A posição acima mostra o ponto crítico da partida, quando Marshall tem sua Dama e uma de suas Torres atacadas e aparentemente deve ceder material ao adversário. Mas o mestre norte americano surpreendeu a todos com uma jogada que poucos são capazes de sequer imaginar. Um lance que já foi chamado de brilhante e paradoxal, um caso de realismo fantástico aplicado ao Xadrez!

A partir do diagrama, as negras jogaram 23. ... Dg3!! (alguns analistas já atribuíram !!! para este lance). A dama não pode ser tomada pelos peões por causa de ameaças de mate, por exemplo, se 24. fxg3?? Ce2+ 25. Rh1 Txf1#, ou se 24. hxg3?? Ce2#. As brancas poderiam seguir com 24. Dxg3 Ce2+ 25. Rh1 Cxg3+ 26. Rg1 Ce2+ 27. Rh1 Tc3 mas ficariam com uma peça a menos. Em face de suas pobres opções, as brancas abandonaram sem tentar nenhuma das continuações comentadas, o que ajudou a eternizar a posição final.

Posição final (0-1)

Existe uma lenda (confirmada pelo próprio Marshall) de que alguns dos presentes no salão de jogos teriam jogado moedas de ouro sobre a mesa, tamanha a euforia causada pelo sacrifício proibido da Dama frente aos peões brancos.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Outra jóia de Anderssen

Anderssen, A. - Dufresne, J.
Berlim, 1852
Partida Sempre Viva, posição após 18. … Tg8.

Após ter assegurado seu lugar na posteridade com a Partida Imortal, já bastante popular na própria época em que foi jogada, Anderssen não se deu por satisfeito e honrou o xadrez com outra obra-prima.

Jean Dufresne não era um jogador tão forte como Kieseritzky, mas teve o privilégio de ser pupilo do próprio Anderssen, um dos motivos de o histórico entre os dois ser tão favorável para este último (+25 –5 =2, incluindo esta partida Sempre Viva). Além de ser o perdedor da partida Sempre Viva, Dufresne voltou-se mais para o ensino e divulgação do jogo e passou para a posteridade enxadrística como o autor de um dos mais famosos livros de xadrez do século XIX Kleines Lehrbuchder Schachspiels , que segue sendo editado até os dias de hoje!

Após uma disputa equilibrada, no mais puro estilo romântico de ataque, Anderssen sacrifica seu cavalo, que foi erroneamente aceito, trazendo à luz um das mais belas combinações de mate da história do jogo: 19. Tad1! Dxf3 (19. … Dh3 ainda permitiria às negras se defender). 20. Txe7 Cxe7 21. Dxd7! Rxd7 22. Bf5+ (duplo) Re8 23. Bd7 Rf8 24. Bxe7++.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A mais famosa posição da história do Xadrez

Anderssen, A. x Kieseritzky, L.
Londres, 21-6-1851
Partida Imortal, posição após 18. ... Bg1.
(FEN: rnb1k1nr/p2p1ppp/3B4/1p1N1N1P/4P1P1/3P1Q2/PqP5/R4Kb1 w kq - 0 19)

A posição acima é talvez a mais famosa da história do Xadrez. As brancas estão prestes a sacrificar sua segunda torre em troca de um ataque finalizador. Adolf Anderssen, que justamente neste ano de 1851 seria afamado como "Campeão do Mundo" (não existia a FIDE na época), ao vencer o forte torneio internacional de Londres, jogou esta partida durante um recesso daquele evento. Lionel Kieseritzky, que morava em Paris no Café de La Régence, era um dos mais fortes mestres europeus naquela época, inclusive tendo vantagem no confronto direto contra Anderssen (+7 -5 =2, excluindo-se esta Partida Imortal). Tristemente, para Kieseitsky, esta derrota parece ter selado o início de sua decadência, agravada por problemas financeiros. Passou para a história como o 'Perdedor Imortal' e morreu apenas dois anos após esta partida.

O encanto desta partida é a brilhante sequência de sacrifícios de peças em troca de tempos de desenvolvimento utilizados no ataque direto a um rei não rocado, no centro do tabuleiro.

A partida continuou assim: 19. e5! Dxa1 20. Re2 ... Segundo Kieseritzky, num artigo para o seu periódico La Régence, ele abandonou após este lance. Porém, outra versão informa que ele ainda teria jogado 20.  ... Ca6, após o qual Andersen teria anunciado xeque-mate em 3 lances, e, só então Kieseritzky teria abandonado. Essa pequena imprecisão sobre o desfecho é típica de confrontos informais, sem registro em súmula, mas em nada reduz o brilho desta partida. Provavelmente, os lances finais com a bela combinação de mate não chegaram a ser feitos no tabuleiro pelos protagonistas, mas tem sido realizados muitas vezes desde então! Ainda serão repetidos incontáveis vezes, enquanto existirem resquícios do Xadrez, este belo jogo, na face do planeta: 21. Cxg7+ Rd8 22. Df6!! Cxf6 22. Be7#. 


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