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sábado, 13 de abril de 2019

Topalov e as imortais... dos outros


Veselin  Topalov (Bulgária, 1975 -- ) é um jogador de estilo criativo que não teme complicações. Coube a ele ser o adversário de Kasparov na última partida oficial jogada pelo ex-campeão do mundo em Linares 2005, e ele venceu! Alguns meses depois, Topalov sagrava-se campeão mundial pela FIDE ao vencer o Torneio de San Luis, Argentina, terminando à frente de nomes como Anand, Svidler, Morozevich, Leko e Judit Polgar. Aquele ano de 2005 foi um espetacular para o jovem Topalov!

Além de todo o sucesso como jogador, existe uma curiosidade raramente falada: ele foi derrotado por quatro grandes nomes da história do jogo, Kasparov, Karpov, Bareev e Shirov, naquelas que se tornaram conhecidas como 'as imortais' de cada um desses jogadores. Vejamos a seguir:

Kasparov, G. × Topalov, V. (Wijk aan Zee, 1999)
Posição após 23. ... Dd6
Aqui, Kasparov inicia um combinação de longo prazo, dessas impossíveis de calcular todas as variantes até o final por um ser humano, que tornou esta partida talvez a melhor partida da carreira do 'Ogro de Baku'. 24.T×d4! (Kasparov) ... c×d4? Melhor teria sido manter a igualdade recusando o sacrifício. Mas qual grande obra sobre o tabuleiro não precisa de uma ajudinha do adversário? Só um jogador destemido como Topalov para entrar na linha principal do sacrifício! 25.Te7!! (Kasparov). O segundo sacrifício é ainda mais difícil e espetacular que o primeiro! Mas ambos precisaram ser calculados juntos, pois o primeiro não teria sentido sem o segundo. Toda a partida pode ser vista aqui.

Karpov, A. × Topalov, V. (Linares, 1994)
Posição após 17. ... h×g6
Alguns anos antes, no torneio de Linares de 1994, enfrentando Anatoly Karpov, Topalov novamente dá uma chance de imortalidade a outro grande ex-campeão mundial: 18.Cc5! "Forte jogada, que abre espaço para um agudo jogo tático" (Karpov) ... d×c5 19.D×d7 Tc8 20.T×e6! "Este sacrifício de qualidade escapou aos cálculos de meu adversário, que chegou muito perto de salvar a partida" (Karpov). Novamente, dois sacrifícios combinados (cavalo em c5 e torre em e6) que tornam a combinação uma das mais famosas dentre as jogadas por Karpov. A partida completa pode ser vista aqui. Vale lembrar que Karpov venceu aquele torneio naquela que foi talvez a maior performance individual de um jogador em todos os tempos (11 pontos em 13 partidas, +9 -0 =4; 2,5 pontos à frente de Kasparov e Shirov).

Topalov, V. × Bareev, E. (Linares, 1994)
Posição após 16. De4
No mesmo Torneio de Linares de 1994, Topalov, desta vez de brancas, sofreu uma derrota do tipo miniatura para o grande mestre Evgeny Bareev numa partida que ganhou o prêmio de beleza do torneio. O diagrama acima ocorreu após um primeiro sacrifício de Bareev no 13º lance (13.... C×f4) sabiamente recusado por Topalov, que pensou que após 16. De4 haveria a troca de damas com igualdade material e uma ligeira vantagem posicional para as brancas, mas ele não contava com as inspiradas ideais de Bareev naquele dia: 16. ... Te8!! (Román Torán) 17.D×e8 Bf5! "Completando a manobra que nos recorda 'A imortal', com seu duplo sacrifício de torres" (Román Torán). Mais uma vez a combinação envolve múltiplos e belíssimos sacrifícios! 18.D×a8 ... e, a partir de agora, temos mate em 10 jogadas que deixo como exercício aos leitores. Toda a partida pode ser vista aqui. Duas derrotas imortais em um mesmo torneio, definitivamente 'Linares 1994' foi uma competição difícil para Topalov.

Para finalizar, uma brilhante jogada que arrematou um final de bispos de cores opostas, potencialmente empatado:

Topalov, V. × Shirov, A. (Linares, 1998)
Posição após 47. Rg1
Shirov, temido por colocar fogo no tabuleiro em quase todas as suas partidas, é menos conhecido por sua técnica de finais de partida, porém, quem disse que nos finais de poucas peças não existe mais tática? 47. ... Bh3!! Este brilhante sacrifício tem sido citado como um dos lances mais fantásticos da história do xadrez! Mais do que ficar "na prática" com 4 peões contra 1 (por causa dos peões dobrados brancos na coluna h) as pretas abrem caminho via f5 até as casas críticas que garantirão a coroação de um de seus peões, de a ou d. 48.g×h3 Rf5 49.Rf2 Re4 50.B×f6 d4 51.Be7 Rd3 52.Bc5 Rc4 53.Be7 Rb3 e Topalov abandona (0-1). Veja a partida completa aqui.

Grandes jogadores quase sempre têm seus altos e baixos, Topalov foi crescendo com essas derrotas contra grandes nomes da década de 1990 para, além de ser campeão pela FIDE e número 1 do mundo, tornar-se um dos maiores jogadores da década seguinte. Sua grande qualidade, e talvez por isso tantas derrotas extraordinárias, é seu lema que tão bem faz ao xadrez: jogue e deixe jogar!

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Os ogros também envelhecem (*)


Há muitos anos, muito mais do que minha memória afetiva parece contar, eu começava a perceber a real dimensão que o xadrez tinha. Deixava de ser um jogo entre parentes e amigos e mostrava sua faceta esportiva, com torneios, federação internacional e, claro, campeão mundial! Busquei saber o nome dele: Garry Kasparov!

Kasparov foi o homem a ser batido no mundo das 64 casas durante mais de vinte anos, boa parte deles como campeão mundial. Aposentou-se da prática competitiva clássica em 2005 (ainda com nº 1 do mundo) e só a partir de 2015 voltou a jogar competições rápida não oficiais, a título de exibição: as pessoas adoram ver os ídolos voltando à atividade que os consagrou!

Mas, o que o velho ‘Ogro de Baku’ esteve fazendo por todo esse tempo?

Ah, ele fez coisas não menos difíceis que se manter no topo do xadrez: tornou-se ativista político e opositor de Putin na Rússia; passou a promover o xadrez como ferramenta de apoio à tomada de decisões e ao aprimoramento pessoal; escreveu livros, o mais recente deles sobre o impacto da evolução das máquinas e da inteligência artificial (em seu sentido amplo) na vida humana, hoje e nos anos que virão. Os novos desafios que abraçou ampliaram o alcance de suas ideias e ainda levaram o xadrez junto; por mais que quisesse, não há como dissociar sua imagem à do jogo.

Após tantos anos sem competir oficialmente, Kasparov aceitou o convite para participar das etapas rápida e blitz do Grand Chess Tour, que se encerraram recentemente. Um ato de coragem, é necessário admitir, pois se enfrentar a elite atual, com nomes como Aronian, Caruana, Karjakin e Nakmura, mete medo em qualquer jogador ativo, imaginem num veterano aposentado há 12 anos!

“Mas esperem, o veterano em questão é Garry Kasparov!”.

Sempre se espera muito dele, como antes foi esperado de outros mestres que se ausentaram das competições por longos períodos. O mais famoso deles, Bobby Fischer, abandonou quase que completamente o jogo no instante seguinte à conquista do título mundial em 1972 e, até sua morte em 2008, sua aura de invencibilidade permaneceu incólume.

Talvez a história de Fischer ainda ronde a mente do velho Ogro, que era fã do norte-americano, e por isso mesmo ele tenha aceitado o convite, colocado sua cara a tapas, como se diz, ou mais propriamente, colocando seu rei a mates!

Kasparov não passou vergonha, mostrou vontade de vencer, ideias e jogadas aguçadas, mas deixou o peso do tempo agir de forma irrevogável! Não o peso de seus 54 anos, ou da longa inatividade, mas o tempo do relógio da partida, que é inexorável! Quando a seta cai, ou o mostrador começa a piscar, é o fim. Assim, apurado de tempo em quase todas as partidas, estragou posições vantajosas e defendeu-se mal noutras em que podia ter salvo o meio ponto.

O espetáculo, porém, foi garantido. Milhares de pessoas seguiram as transmissões online do evento, que era coisa rara quando Kasparov ainda era campeão do mundo. Então, ainda mais que as jogadas no tabuleiro, valeu para rever os trejeitos da lenda, suas famosas caretas, seu olhar intimidador. Por um momento, pareceu que ele nunca esteve ausente.

Quando aparecerá novamente? Quem sabe? O velho Ogro levantou-se afinal, recolocou o relógio no pulso, pegou seu paletó e seguiu pensando nos lances que fervilhavam na ainda poderosa mente. Não nos deixe esperando demais, Garry. Os velhos e jovens aficionados precisam ver mais da intensa paixão que emana em cada gesto teu perante o tabuleiro. O resultado aqui é o que menos importa: em termos de xadrez, você não tem mais nada a nos provar!



(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa

sábado, 7 de janeiro de 2017

Não deveria estar ali... mas foi e venceu!

A longa tradição de torneios regulares de xadrez remonta a meados do século XIX, quando aparecem clubes nas principais cidades europeias reunindo amadores e semi-profissionais. Houve, então, um número crescente de competições e isso gerou reconhecimento público para um grupo de jogadores cuja técnica era superior, traduzindo-se em muitas vitórias, eram chamados de mestres do jogo.

Não havia um ranking mundial ou pontuação estatística que refletisse a força de cada jogador, nada disso. Cada um trazia simplesmente seu nome e histórico de resultados: colocação nas principais competições, vitórias em disputa com outro mestre (que se conhece como match) etc. Era muito parecido com o que acontecera até alguns séculos antes para torneios entre cavaleiros medievais . Além disso, havia grande respeito pelos jogadores que publicavam obras sobre o jogo.

Depois, vieram os tempos da organização de ligas, federações, títulos oficiais de mestre e grande mestre e, por fim, a pontuação Elo
(popularmente conhecido como rating FIDE) que permitiu comparar a força entre dois jogadores que nunca sequer se enfrentaram. A mística se perdeu, apesar de mesmo hoje em dia, jogadores como Ivanchuk, Anand e Topalov são sempre respeitados, não importa em que posição estejam na listagem Elo.

Para os padrões atuais, pode parecer estranho imaginar que uma competição de elite possa negar a participação de um jogador pouco conhecido, que não tenha o “merecimento” para estar ali. Afinal, basta ver sua pontuação internacional. Mas nem sempre foi assim.

Alguns participantes de San Sebastian 1911 (Capablanca sentado ao lado da senhora)
Em 1911, seria realizado um dos maiores torneios da história, em San Sebastian, ao qual foram convidados os principais mestres da época, apenas aqueles que tivessem no curriculum pelo menos dois segundos lugares em torneios de elite. Ali estariam, por exemplo, Rubinstein, possivelmente o mais forte do mundo naquele ano, Janowski e Schelechter, últimos desafiantes de Lasker ao título mundial, além de outros respeitados mestres. Um dos inscritos foi o jovem cubano José Raul Capablanca, de apenas 22 anos de idade, cujo histórico internacional basicamente se resumia à vitória em match contra o campeão dos Estados Unidos Frank Marshall (que também jogaria em San Sebastian). Alguns foram veementemente contra a participação do cubano (o maior opositor, Ossip Bernstein, haveria de se arrepender em breve), mas por fim ele foi aceito na disputa. Capablanca venceu o torneio de forma convincente, concedendo apenas uma derrota a Rubinstein. Dez anos depois, Capablanca derrotaria Lasker para se tornar terceiro campeão mundial da história.

Sultan Khan em 1932 (Campeão Britânico)
Um dos casos mais curiosos aconteceu em 1929, quando Sultan Khan, o melhor jogador de xadrez da India (na época um país sem expressão no jogo, apesar de ser a terra natal do xadrez), veio a Londres acompanhando seu senhor, um Coronel do Império indiano (sim, ele era um simples servo) e foi acolhido pela comunidade enxadrística local que reconheceu sua habilidade e ajudou com alguma teoria sobre o jogo (ele não era alfabetizado em inglês e não sabia ler os livros disponíveis). Para surpresa geral, Khan venceu o campeonato britânico daquele ano e logo depois retornou à India! No ano seguinte, seu senhor o trouxe de volta a Londres, e Sultan Khan repetiu as conquistas do título britânico em 1932 e 1933. Teve boa participação em torneios neste período entre 1930 e 1933, com vitórias sobre os principais mestres da época como Capablanca, Rubinstein, Tartakower e Flohr, além de defender a equipe britânica em três Olimpíadas de xadrez . Retornou à sua terra natal em 1933 e, com exceção de um match contra o indiano V. K. Khadilkar em 1935 (9 vitórias e 1 empate), não se tem notícia que jamais tenha voltado a jogar xadrez. Em 1950, quando a FIDE criou a titulação de Mestre e Grande Mestre Internacional e outorgou esses títulos a jogadores do passado, já fora das competições como Rubinstein e Carlos Torre, Sultan Khan foi deixado de fora, de forma injusta.

Um jovem Anatoly Karpov em 1967
Em 1966, já havia a titulação internacional, mas não a pontuação Elo. A Federação de Xadrez da URSS recebeu um convite da Federação da Tchecoslováquia para enviar dois Grandes Mestres para um torneio de elite a ser realizado na cidade de Trinec. A URSS enviou dois juvenis, um deles com 15 anos de idade chamado Anatoly Karpov (o outro era Viktor Kupreychik com 17 anos de idade). Os organizadores ficam contrariados, certamente os soviéticos haviam cometido um engano, mas não havia mais tempo de fazer alterações. A aposta valeu a pena, e Karpov venceu o torneio com 1,5 pontos de vantagem sobre os dois segundos colocados (um deles seu colega Kupreychik, a quem venceu em partida belíssima). Em 1975 Karpov foi declarado Campeão Mundial de Xadrez após a desistência de Bobby Fischer. Ele foi um dos campeões mais vitoriosos do jogo e permaneceu com o título por 10 anos.
Garry Weinstein em 1978
Passaram alguns anos, e já estavam bem estabelecidos o sistema de pontuação Elo e o sistema de títulação internacional de jogadores. Como acontecera em 1966, a Federação soviética recebe um convite para enviar dois Grandes Mestres para participar em um torneio na cidade de Banja Luka, então Iugoslávia. Desta vez, os soviéticos enviam Tigran Petrosian (ex-campeão mundial) e um jovem de apenas 16 anos de idade, sem títulos e sem rating internacional, chamado Garry Weinstein. Novamente, os organizadores ficaram contrariados, mas o jovem foi inscrito na competição, sob forte protesto de alguns participantes como o Grande Mestre Milan Vukic que, assim como Bernstein, haveria de se arrepender. Weinstein venceu o torneio sem derrotas e com 2 pontos de vantagem sobre o vice-campeão. Seu compatriota Petrosian foi apenas o quarto colocado. Weinstein  passou a utilizar o sobrenome Kasparov e foi campeão mundial ao derrotar Karpov em 1985. É considerado por muitos o maior jogador da história. Ele se retirou das competições em 2005 após vencer o Torneio de Linares daquele ano e estar praticamente solitário como número 1 do mundo por mais de 20 anos.

Kramnik em Manila (1992)
Outro caso interessante aconteceu em 1992, nas Olimpíadas de Xadrez de Manila. Com o fim da URSS, os Russos tinham a difícil tarefa de manter a hegemonia nos tabuleiros após a saída de fortes mestres para países como Ucrânia e Armênia. Na ocasião, Kasparov sugeriu que um dos membros da equipe deveria ser o jovem Vladmir Kramnik, 16 anos de idade e “apenas” mestre da FIDE, em detrimento de outros fortes Grandes Mestres russos em melhor posição no ranking mundial. Apesar de ter sido uma decisão apertada, a Federação Russa confirmou o jovem na equipe. Kramnik foi o jogador com melhor desempenho individual da competição com 8 vitórias e 1 empate (94,4% dos pontos possíveis) ajudando a Rússia a vencer a primeira olimpíada após a era soviética e recebeu também Medalha de Ouro por seu desempenho individual. Por este desempenho, Kramnik obteve diretamente o título de Grande Mestre Internacional de xadrez. Em 2000, ele foi o primeiro humano a derrotar Kasparov em um match pelo Campeonato Mundial, e manteve o título até 2007.

Os talentos atuais são conhecidos desde tenra idade, como Carlsen e Karjakin, e têm seus passos avidamente seguidos pelos fãs do jogo. Sabe-se que é apenas questão de tempo para que brilhem nas mais altas esferas. Surpresas como as descritas acima são hoje muito difíceis de acontecer, mas histórias como a de Sultan Khan continuarão para sempre a inspirar muitas gerações de jogadores.


sábado, 26 de novembro de 2016

O Xadrez na Era Supervisonada




O xadrez mudou muito após o pleno desenvolvimento de computadores capazes de vencer os melhores jogadores do mundo. A partir dos anos 1980, as máquinas começaram timidamente a vencer grandes mestres, depois apareceu uma ou outra vitória isolada contra o campeão do mundo, até a definitiva derrota em 1997, quando Garry Kasparov inclinou seu rei na sexta partida do match contra Deep Blue.

Desde então, a questão não é mais se o homem pode bater a máquina, mas sim quão bem poderia jogar a máquina, e como ela ajudaria o homem a compreender melhor este jogo milenar que nos tem fascinado por tantos séculos. Foi o fim da ‘era não supervisionada” do xadrez.

Por muitos anos, nós humanos jogamos um xadrez misterioso, instigante. Não havia uma “resposta certa” sobre as mais variadas posições, especialmente alguns finais de partida. Aberturas precisavam ser analisadas exaustivamente em sessões de treinamento que duravam dias. Enganos eram frequentes, por várias vezes mestres prepararam em casa surpresas de abertura que foram simplesmente refutadas no tabuleiro, no calor da partida. Por isso, podemos chamar este tempo de era não supervisionada do xadrez.

Foi a época de Fischer, cuja formação como jogador foi inteiramente baseada em livros, revistas especializadas, pura prática e aconselhamento com outros grandes mestres (enquanto pôde encontrar jogadores no ocidente que ainda podiam lhe ensinar algo sobre o jogo). As comunicações ainda não estavam tão bem desenvolvidas, e as partidas dos adversários soviéticos e europeus chegavam com dificuldade, coletadas por amigos e colaboradores ao redor do mundo. Quando lhe ocorria uma ideia nova, ele não podia pensar “deixa eu saber aqui neste livro, ou com este grande mestre superior se esta jogada serve”. Não, ele mesmo respirava fundo, se colocava no outro lado do tabuleiro e ia atrás dos recursos possíveis para as peças contrárias.

Contra Fischer, e contra todo o resto do Mundo, havia a forte Escola Soviética de xadrez, detentora de todos os campeões mundias após 1948 (exceto Fischer). Era uma estrutura muito bem azeitada para formação serial talentos que, uma vez na elite, eram forçados a cooperar uns com os outros para o crescimento do xadrez soviético como um todo. Apesar de ainda não existir uma “resposta certa” para as questões do jogo, sempre era possível contar com a opinião de um ex-campeão do mundo, como Botvinnik ou Tal, senão lançar mão do enorme arsenal teórico disponível em língua russa, bem guardadas pelos melhores grandes mestres do mundo. Era o que mais se aproximava do que temos hoje, quando praticamente alcançamos a 'era supervisionada' do jogo.

A era supervisionada é muito diferente. Para começar, antes mesmo de ser desenvolvido o poder de cálculo de variantes e avaliação de posições no tabuleiro, o simples fato de os computadores terem possibilitado a criação de bases digitais gigantes de partidas já foi uma revolução. Isso já facilitou enormemente o acesso à teoria do jogo, construída ao longo de pelo menos dois séculos de partidas entre mestres preservadas. Mas não foi só isso.

Os algoritmos de xadrez ainda estão em plena adolescência, e estamos longe de ter a ‘solução’ do jogo, como já aconteceu ao primo distante jogo de Damas. Apesar disso, os computadores já estão muito próximos de fornecer a ‘resposta certa’ em cada posição possível. Há momentos em que eles eles calculam tão bem, produzem lances tão belos, que dão a impressão de que estão a pensar!

Ao acompanhar os comentários de grandes mestres que dão cobertura às partidas do match pelo Campeonato Mundial entre Magnus Carlsen e o desafiante Sergey Karjakin (ambos crias da época computacional do xadrez), é notório como o computador fornece os lances mais fortes, sugere ideias por vezes brilhantes que não são acessíveis à mente humana no espaço de tempo limitado de uma partida de torneio. Tampouco ocorrem ao comentarista que não tem pressão nem limitação de tempo para suas elucubrações. Aliás, os dois maiores trunfos do computador são justamente o tempo de resposta (segundos) e a profundidade de cálculo, que pode chegar a dezenas de jogadas à frente, enquanto a média alcançada por grandes mestres da elite é de “somente” cinco a dez jogadas.

Nesse momento, porém surge um incômodo. O comentarista  faz uma análise, diz sua ideia sobre uma determinada posição de partida (o que antes seria tomado como uma verdade), e o jogador médio que está acompanhando sente o ímpeto de “checar” com seu aplicativo de análises se o grande mestre está mesmo certo. É uma grande inversão de valores que pode trazer uma ilusória sensação de entendimento, já que tanto o computador quanto o grande mestre têm uma base sólida para lançar uma jogada, mesmo sem ser a melhor, mas o amador que segue as avaliações do computador sem questionar criticamente é como a casa construída sobre a areia. Há muitos perigos nessa crença cega.

O computador ainda não “compreende” tão bem o jogo, apesar dos avanços técnicos que permitem transformar em objetivos parâmetros numéricos os conceitos humanos para avaliar o jogo: quantidade, qualidade e mobilidade de peças, segurança do rei, controle de espaço, estrutura de peões etc. Um exemplo foi visto na quarta partida do match Carlsen x Karjakin, quando o russo (que se defendia em posição inferior) organizou sua peças num tipo de fortaleza e impossibilitou qualquer avanço do exército inimigo, enquanto o computador continuava a fornecer avaliações favoráreis a Carlsen, numa posição claramente igualada.

Karjiakin x Carlsen, NY 2016 WCC m4. Posição após 94. Rf2 (empate).
Isso nos ajuda a recolocar o boi na frente do carro, lembrar que são os homens e suas ideias maravilhosas de xadrez e de computação que tornaram possível a evolução que vemos hoje. Não esqueçamos que por muitos anos os esforços foram para fazer o computador jogar como um humano, e não convém agora querer que as pessoas joguem como um computador. Se um dia as pessoas não forem mais capazes de julgar o que diz um cálculo frio da máquina, quem estará trabalhando para quem?

Uma vez, o ex-campeâo mundial Mikhail Tal estava para jogar uma exibição de partidas simultâneas contra vários jovens talentos soviéticos e confidenciou a um colega temer as agudas preparações de abertura dos jovens, já que ele próprio não estava mais a par das últimas novidades, era final da década de 1970. O colega tranquilizou o campeão: “não se preocupe, quando acabar a teoria que memorizaram, então serão apenas eles mesmos jogando com as próprias ideias”. Tal venceu a maior parte das partidas. Será que a legião de jogadores que busca somente assimilar as agudas descobertas computacionais não estaria somente repetindo o que fizeram os jovens que enfrentaram Tal? O que acontecerá quando tiverem que jogar com suas próprias ideias? Haverá alguma?

A era supervisionada pode matar o xadrez? Ela está ainda no começo, mas seus efeitos já são notórios e crescentes. O risco é que no lugar da evolução do conhecimento enxadrístico, ela traga uma visão dogmática e superficial (que era um temor de Fischer, quando percebeu o peso das preparações de abertura em sua época). Podemos nos precaver, há uma coisa que está em nosso poder: desligar um pouco a máquina e pensar com nossos próprios meios. Afinal, o melhor computador já criado está dentro do crânio de cada um de nós.


domingo, 9 de outubro de 2016

A realidade, o xadrez e a matrix

- Isso não é real?
- O que é “real”? Como você define “real”? Se você está se referindo ao que você pode sentir, cheirar, provar e ver, então “real” não passa da interpretação de sinais elétricos pelo cérebro. Esse é o mundo que você conhece. O mundo como ele era no século XX. Ele agora existe apenas como uma simulação neurointerativa que nós chamamos MATRIX. Você vivia em um mundo de sonho, Neo.
(The Matrix, 1999. Diálogo entre Morpheus e Neo, tradução livre)
Vivemos todos no mesmo planeta, me parece razoável afirmar. Porém, este mundo real em que vivemos é percebido de forma diferente por cada um de nós. A realidade objetiva seria então como uma tela que contemplamos na parede de um museu, e voltamos para casa cada um com uma versão da obra, interpretada com base no que vimos e sentimos.

Mesmo em cenários mais simples que a vida, a realidade não consegue se impor de forma absoluta ao crivo dos sentidos, das crenças, do conhecimento acumulado, ou da falta dele. Um desses cenários pode ser o jogo de xadrez.

Façamos um experimento: tomemos os dois melhores jogadores de xadrez do mundo, coloquemos os dois perante um tabuleiro onde as peças já se encontram numa dada configuração, a que chamamos de posição. Neste caso, a posição faz o papel da realidade objetiva. O que eles diriam sobre ela? Eles concordariam?

Felizmente, podemos usar um caso real de uma partida do Campeonato Mundial de Xadrez de 1990, entre dois dos maiores enxadristas de todos os tempos, Garry Kasparov e Anatoly Karpov. Somos tão afortunados, que existe um documentário sobre esta disputa, no qual os dois grandes mestres explicam suas ideias em cada partida.

A vigésima partida daquele encontro foi decisiva para o desfecho do mundial. O ponto crucial é mostrado no diagrama abaixo, que mostra a posição após o vigésimo quinto lance das brancas:

Kasparov x Karpov (Lyon, 1990. P20): após 25. Cg4.
Vejamos o que eles disseram sobre a posição e sobre a jogada seguinte de Karpov (que tinha a vez e conduzia as peças pretas): 
  • Kasparov (aprox. 1:24:23): “Aqui o único lance é 25. ... Cd3 (...) Karpov jogou um lance natural 25. ... De8, que parece ser muito bom... prega meu cavalo, protege as casas brancas... (...), mas aqui a posição exigia o melhor lance (...) agora (após 25. ... De8) as brancas tem vantagem decisiva.” 
  • Karpov (aprox. 1:26:20): “Aqui, eu me sentia com posição muito boa, inclusive já considerava como eu poderia até mesmo vencer, mas eu deveria ter sido mais cuidadoso, como foi demonstrado na partida (...) eu deveria ter jogado 25. ... Cd3.”
Assim, durante a partida, os mestres divergiram sobre a natureza da posição e seu resultado provável: Kasparov via a posição como equilibrada, porém demandava cuidados por parte das pretas; Karpov já se sentia muito confortável, pensando que estava prestes a vencer.

Somente a posteriori, no dia que foram entrevistados para o documentário, ambos concordaram sobre a natureza da posição e sobre qual deveria ter sido a jogada correta das pretas. Foi como se o artista aparecesse na galeria e explicasse o que ele havia pintado: tudo ficou claro. 

É impressionante como dois especialistas podem divergir tanto quanto a um aspecto objetivo de sua área de expertise. Este exemplo nos mostra que as divergências de percepção e julgamento nas situações mais complexas da vida são inevitáveis. 

Vale lembrar ainda, no caso dos mestres de xadrez, que a realidade da posição pode ainda ser diferente do veredito final fornecido por ambos (um provável empate após 25. … Cd3). Um dia os computadores resolverão o jogo, e só então saberemos a resposta. A vida, felizmente, é mais complexa que o xadrez, mesmo (e especialmente) para os computadores.
A MATRIX não pode te dizer quem você é. (The Matrix, 1999. De Trinity para Neo, tradução livre)
Para nós resta compreender o pouco que nos é dado a desvendar da realidade e saber conviver com (e em certos casos, sobreviver a) a versão dos outros que participam conosco deste grande jogo da vida.

Compartilhe: http://bit.ly/XadrezMatrix

domingo, 18 de setembro de 2016

O sonho de Deep Blue

“Acabou, Deep Blue venceu a última partida e derrotou o campeão mundial! A máquina bate o homem no Xadrez!” 11/05/1997

“Não haverá outro confronto, Deep Blue e IBM concentrarão seus esforços agora na genética.” Comunicado da IBM após a vitória
Wikipedia

Dois anos haviam passado...

Numa sala gélida, um enorme super computador calcula combinações de nucleotídeos de DNA. Dois supervisores aguardam o momento de ir para casa, numa mesa próxima, repousa o jornal do dia, já inútil, aberto na seção de jogos, com palavras-cruzadas já preenchidas e um problema de Xadrez intocado. Antes de ir embora, um dos técnicos decide checar a saída dos cálculos da máquina.


--> AGTC CTTG AAG... %$**#@!... <ch> 'c' ng1f3 d5 Guessing g3
--> Bc8g4 nf3e5 Bg4e6 bf1g2 Pg7g6 o-o

- Veja John, o computador está apresentando flutuações estranhas, não são sequências de genes.

- Não deve ser nada, vamos reiniciar esse bloco de simulação e checamos o resultado pela manhã.

Os programadores estavam tomando a decisão mais correta, afinal, após 1997, o hardware do Deep Blue foi usado como base para o Blue Gene, vários novos componentes foram inseridos e todo a programação era nova, apesar de usar algoritmos desenvolvidos originalmente para os desafios do Xadrez. Tudo, agora, a serviço da genética.

O feito do Deep Blue havia sido tremendo, uma mente artificial, um computador, havia vencido no Xadrez a melhor mente humana da época, Garry Kasparov. O Xadrez é uma das poucas áreas em que as duas naturezas, humana e artificial, podiam ser comparadas de forma justa: intuição, experiência e senso comum contra velocidade, cálculo preciso e uma confiável base de dados.

Novamente, a máquina estava solitária, calculando terabytes de informação genética numa simulação noturna, mas algo não está indo bem...

--> GATG CCTT A... $%$_#@
--> ping www.altavista.com
--> search “kasparov” email address
--> mailto gkasparov@chesschampion.com 1. e4 … your move
--> <ch> 'c' Pe4 Guessing c5
--> ng1f3 Nb8c6 nb1c3 Ng8f6 bf1b5 Nc6d4 bb5a4 Qd8a5

Na manhã seguinte, a equipe do Blue Gene percebeu a anomalia e não conseguia acreditar no que via no arquivo de log, contendo toda a atividade do computador durante a noite. Simplesmente a máquina havia parado a simulação, buscado pelo email de Kasparov, o campeão derrotado em 1997, enviado a ele um email com um desafio a uma nova partida e permaneceu aguardando a resposta, calculando jogadas a frente.

Felizmente, o email do campeão estava incorreto, e o embaraço público foi poupado.

Como podia um programa que havia sido completamente apagado, substituído, passar a tomar conta da máquina durante as simulações genéticas?

O super computador foi colocado em análise, o código fonte foi cuidadosamente revisado, e o especialista em programação para xadrez foi convidado a contribuir.

A máquina foi reinicializada, o programa todo recompilado e reinstalado, uma nova simulação disparada:

--> TAAG TCCA TATG GGCA TTTC ...

Nada aconteceu, nada anormal. Atribuiu-se a falha anterior a flutuações de tensão elétrica na alimentação das máquinas. O especialista em Xadrez para computadores brincou:

- Foi só um sonho da máquina! Vamos coloca-la para trabalhar!

Alguns dias se passaram, o fato foi esquecido.

A filosofia decerto tremeu em 1997, quando a mente artificial venceu a mente humana. Afinal, a mente de silício não passa de uma imitação, impulsos elétricos ordenados, em ciclos rapidíssimos, geram números que são interpretados como ideias. E não seria quase isso a mente humana? Impulsos nervosos passam sem parar por nossas células cerebrais, e nisso aprendemos, brincamos, sofremos, amamos, pensamos haver algo mais... sonhamos!

--> AATG GCA ... %%$$#-*¬ ... c5 Cf3 d6 d4 cd4 Cd4... end of book - last game played in database: Karpov-Kasparov 1996 ½-½   
--> new game
--> <ch> 'c' e4 c6 ... c4 Guessing bxc4
--> qd3c4P Nd5b4 ra1e1 <ch> 'score game 6’; Deep Blue 1 – 0 Kasparov
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A máquina parou durante a noite. Os especialistas voltaram a se debruçar sobre a ela, que não voltou a funcionar: um dos processadores principais, ainda remanescente do Deep Blue, superaqueceu, derreteu parcialmente, deixando o logotipo da fabricante sobre ele distorcido, quase formando uma figura conhecida, vejamos, um Rei do jogo de Xadrez!

Decidiram mandar o que ainda restava do velho Deep Blue para um museu da computação, só a carcaça e as placas, sem o programa, sua “alma”. Não era mais capaz de sonhar. 

domingo, 19 de junho de 2016

Quando éramos reis: o princípio do fim da hegemonia humana no Xadrez

Computador de Xadrez Belle (ChessGames.com)
Algumas vezes, temos a fortuita junção de tempo e disposição para rever velhos livros ou revistas de xadrez. Tenho aqui uma antiga edição de New in Chess de 1992, com uma rica reportagem sobre o Torneio Internacional Ciudad de Linares daquele ano.

O certame foi jogado pouco antes da fase semifinal do Torneio de Candidatos e contava com a presença dos quatro semifinalistas (Karpov, Short, Yusupov e Timman) além do magnífico campeão do mundo à época, Garry Kasparov. O ano de 1992 foi marcante para a história do Xadrez, pois, pela primeira vez, Karpov não foi finalista da competição de Candidatos e, assim, perdeu a chance de desafiar novamente Kasparov pela coroa mundial.

Folheando a extensa reportagem, chamou-me a atenção uma partida analisada pelo GM Jan Timman, na qual ele venceu o GM inglês Jon Speelman. A princípio, fiquei interessado pela abertura, um Gambito da Dama recusado que acabou na Estrutura de Peões de Carlsbard e uma clássica luta de ataque das minorias vs. contra-ataque na ala do Rei.

A partida é muito interessante. As negras certamente perderam oportunidades táticas de finalizar seu oponente e acabaram por cair num final inferior: branca com par de bispos e rei, contra rei e cavalo das negras.

Na época, ainda se interrompiam as partidas após cinco horas de jogo e só a retomavam no dia seguinte. Timman menciona em seus comentários que lembrou que o computador enxadrista chamado Belle (construído por Ken Thompson, o mesmo criador do sistema operacional UNIX)  havia provado em 1983 (!) que esse tipo de final era sempre ganho para o bando mais forte, uma informação que seu adversário também conhecia. Ele, então, recorreu a análises sobre o final fornecidas via FAX (!) por um colaborador, enquanto Speelman não conseguiu obter o mesmo material. Timman afirma que conhecer o teor das análises ajudou bastante para obter a vitória (mas nega que tenha vencido com a ajuda do computador). Apesar da revisão, Timman ainda admite ter cometido imprecisões que, houvesse Speelman jogado melhor, poderia ter sido impossível vencer dentro do limite de 75 lances (na época) antes de ser declarado empate.

Proposição original de Kling & Horwitz (Chess Studies, 1851)
O final de dois bispos contra cavalo foi estudado por dois mestres do século XIX, Kling e Horwitz, que haviam demonstrado em 1851 que o bando mais fraco alcançava empate através da construção de uma “fortaleza” posicionando o cavalo em uma das casas b2, b7, g2 ou g7.  A descoberta de Belle, no entanto, era que, a partir da posição mostrada acima, havia um método destruir esta fortaleza, e portanto o bando forte venceria sempre.

O xadrez é tão rico que mesmo um dos maiores jogadores do Mundo, em seu auge, reconhece nos comentários da partida que há muitas posições que são um completo mistério, mesmo para Grandes Mestres: “[…] qual jogador de Xadrez entende esse tipo de final?”.

Os cérebros eletrônicos já começavam a ensinar os mestres humanos e a corrigir antigos conceitos e verdades do nosso jogo tidas como absolutas ao longo dos séculos.

Por causa dos computadores, desde 1996 não se pratica mais o adiamento de partidas. Em 1997, Kasparov inclinava seu rei contra Deep Blue (um sucessor direto de Belle), a primeira derrota em match do 'Ogro de Baku'. Hoje, reinam absolutos os cérebros de silício, que se tornaram professores dos Grandes Mestres, o que tem tornado o xadrez humano muito mais profundo que antigamente.

Compartihe: http://bit.ly/ReisXadrez

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Será o fim dos livros de Xadrez? (II)

Há alguns meses, escrevi aqui sobre o fim dos livros de Xadrez. O mote foi a percepção que tive da escassez crescente de títulos sobre nosso amado jogo nas maiores, e menores, livrarias das cidades por onde tenho andado. Infelizmente, daquele texto para cá, a situação só piora.

Desta vez, acredito que o sinal de decadência é claro e irreversível. Vejam só o que descobri na seção de Xadrez de uma grande livraria de um grande shopping no Rio de Janeiro:

Seção de Xadrez numa das maiores redes do País.

Chegamos ao ponto de a seção de Xadrez ser composta basicamente de livros sobre o jogo de Pocker (que tem atraído muito enxadristas, pelas similaridades analíticas e pelo potencial financeiro bem maior). Até aí, o susto estava moderado. Peguei, então, um dos poucos livros de Xadrez na seção e me deparei com mais um disparate:

Um guia "definitivo" com dois erros grosseiros logo na capa.
Como pode a editora deixar passar uma capa dessas? Com dois erros crassos!? Uma que salta aos olhos: os cavalos e os bispos com a posição trocada (o outro erro, deixo como desafio ao leitor).

A desilusão estava grande, e fui caminhando para a saída da loja, onde estavam títulos com grande desconto, a maioria por R$ 9,90. Fiquei ali remexendo nos livros em oferta e tive a maior surpresa do dia:

Um clássico, jogado ali, entre as pechinchas.
O volume I da coleção predecessores do Kasparov (que, aliás, é o último dos grandes campeões do mundo cuja obra literária é digna de nota), em inglês (a original), em capa dura, ali, jogado no meio de livros sobre esoterismo e auto-ajuda. Um insulto sem tamanho! Lembro que, não tem nem um ano, eu vi o mesmo volume noutro local por mais de R$ 100.

Reduzida a indignação, fiz a única coisa decente para a ocasião: comprei o livro e saí limpando os pés na soleira da loja.

LancesQI

O blog foi mudado para: www.LancesQI.com.br