domingo, 3 de julho de 2016

O Xadrez e a dissonância cognitiva

Passamos por um momento difícil no Brasil. Existem grupos com ideologias díspares que exageram suas diferenças de forma a incitar uma divisão na população, o tal do ‘nós x eles’. Cada lado feliz em conferir ao outro o título de ‘Idiota’ (com I maiúsculo mesmo).

Pensava nisso após escutar o episódio Dissonância Cognitiva, do podcast Café Brasil, de autoria do escritor Luciano Pires. Neste episódio ele nos fala, entre outros pontos, da importância de se manter atento e não correr o risco de ficar petrificado numa posição ao evitar, até mesmo, ler certos autores ou se permitir escutar opiniões divergentes da sua própria.

O Xadrez é um campo de atuação humana onde a convivência com a dissonância cognitiva faz parte da rotina.

O enxadrista não pode bater o pé e dizer: agora só jogo com as brancas, ou só com as negras. Ele pode até fazer birra e nunca jogar nenhuma abertura do Peão do Rei, ou nunca usar a Defesa Siciliana, mas essa atitude jamais fará dele um grande mestre, sequer um mero candidato a mestre.

Por que não? Estranharão alguns. Porque na riqueza e diversidade de posições possíveis, na experiência em combater cada uma delas, ora de brancas, ora de negras, ora atacando, ora defendendo, é que o enxadrista tem a oportunidade de criar sua própria cultura sobre o jogo. É isso que lhe permite aguçar seu estilo ao buscar nos elementos diversos do jogo aqueles que mais se adaptam ao seu temperamento.

Se observamos esta característica do Xadrez, que é a mesma da vida, quando gira o tabuleiro, troca-se de lado, muda-se a perspectiva, é preciso jogar com as peças que pouco antes eram nossas adversárias, defender posições nas quais há instantes liderávamos um ataque. O Xadrez é a luta para provar a cada lance que o idiota é o outro, apenas para, na outra partida, mudar de lado, e quiçá admitir que o idiota é você mesmo.

Há casos famosos de jogadores que deliberadamente não usam determinadas linhas de abertura de partida por questões, digamos, ideológicas. Um caso interessante era o recentemente falecido GM Viktor Korchnoi.

Korchnoi teve uma vida difícil, órfão na União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, depois dissidente do regime e desertor soviético. Em sua trajetória acumulou algumas inimizades famosas no ciclo enxadrístico, uma das mais notórias foi com o GM e ex-campeão do mundo Tigran Petrosian.

Petrosian, Korchnoi e Vasyukov (1961) - só o Xadrez os unia
O cisma entre eles merece uma postagem exclusiva, mas o que faz a ligação com o assunto em questão é que Korchnoi jamais jogava lances teóricos introduzidos na prática magistral por Petrosian. Lembro duma ocasião em que li uma partida comentada por Korchnoi que, de negras, enfrentava o então promissor GM espanhol Pablo San Segundo. Era uma Defesa Índia da Dama (DID) e, na quarta jogada, a branca escolheu seguir com 4. a3: “Este lance introduz o Sistema Petrosian da DID. Eu jamais joguei esta posição de brancas, pois seu propositor foi um inimigo de minha vida”.

Acredito que, tecnicamente, o grande Korchnoi percebia o valor da contribuição teórica de seu antagônico confrade, porém, por uma forte razão pessoal, conscientemente boicotava o rival. A raiva era tanta que o pobre San Segundo (25 anos de idade na época) transformou-se, momentaneamente, no antigo desafeto de Korchnoi (então com 64 anos de idade) e foi exemplarmente punido no tabuleiro.

Apesar de sua carreira tremendamente vitoriosa, talvez por esse tipo de licença técnica é que Korchnoi jamais tenha sido Campeão do Mundo.

Há de se ter cuidado com a dissonância cognitiva. A armadilha de simplesmente negar o lado dissonante pode nos tornar o ‘Idiota’ da história, e quem sabe até seja o que nos atrapalhe a enxergar e chegar mais longe.

domingo, 19 de junho de 2016

Quando éramos reis: o princípio do fim da hegemonia humana no Xadrez

Computador de Xadrez Belle (ChessGames.com)
Algumas vezes, temos a fortuita junção de tempo e disposição para rever velhos livros ou revistas de xadrez. Tenho aqui uma antiga edição de New in Chess de 1992, com uma rica reportagem sobre o Torneio Internacional Ciudad de Linares daquele ano.

O certame foi jogado pouco antes da fase semifinal do Torneio de Candidatos e contava com a presença dos quatro semifinalistas (Karpov, Short, Yusupov e Timman) além do magnífico campeão do mundo à época, Garry Kasparov. O ano de 1992 foi marcante para a história do Xadrez, pois, pela primeira vez, Karpov não foi finalista da competição de Candidatos e, assim, perdeu a chance de desafiar novamente Kasparov pela coroa mundial.

Folheando a extensa reportagem, chamou-me a atenção uma partida analisada pelo GM Jan Timman, na qual ele venceu o GM inglês Jon Speelman. A princípio, fiquei interessado pela abertura, um Gambito da Dama recusado que acabou na Estrutura de Peões de Carlsbard e uma clássica luta de ataque das minorias vs. contra-ataque na ala do Rei.

A partida é muito interessante. As negras certamente perderam oportunidades táticas de finalizar seu oponente e acabaram por cair num final inferior: branca com par de bispos e rei, contra rei e cavalo das negras.

Na época, ainda se interrompiam as partidas após cinco horas de jogo e só a retomavam no dia seguinte. Timman menciona em seus comentários que lembrou que o computador enxadrista chamado Belle (construído por Ken Thompson, o mesmo criador do sistema operacional UNIX)  havia provado em 1983 (!) que esse tipo de final era sempre ganho para o bando mais forte, uma informação que seu adversário também conhecia. Ele, então, recorreu a análises sobre o final fornecidas via FAX (!) por um colaborador, enquanto Speelman não conseguiu obter o mesmo material. Timman afirma que conhecer o teor das análises ajudou bastante para obter a vitória (mas nega que tenha vencido com a ajuda do computador). Apesar da revisão, Timman ainda admite ter cometido imprecisões que, houvesse Speelman jogado melhor, poderia ter sido impossível vencer dentro do limite de 75 lances (na época) antes de ser declarado empate.

Proposição original de Kling & Horwitz (Chess Studies, 1851)
O final de dois bispos contra cavalo foi estudado por dois mestres do século XIX, Kling e Horwitz, que haviam demonstrado em 1851 que o bando mais fraco alcançava empate através da construção de uma “fortaleza” posicionando o cavalo em uma das casas b2, b7, g2 ou g7.  A descoberta de Belle, no entanto, era que, a partir da posição mostrada acima, havia um método destruir esta fortaleza, e portanto o bando forte venceria sempre.

O xadrez é tão rico que mesmo um dos maiores jogadores do Mundo, em seu auge, reconhece nos comentários da partida que há muitas posições que são um completo mistério, mesmo para Grandes Mestres: “[…] qual jogador de Xadrez entende esse tipo de final?”.

Os cérebros eletrônicos já começavam a ensinar os mestres humanos e a corrigir antigos conceitos e verdades do nosso jogo tidas como absolutas ao longo dos séculos.

Por causa dos computadores, desde 1996 não se pratica mais o adiamento de partidas. Em 1997, Kasparov inclinava seu rei contra Deep Blue (um sucessor direto de Belle), a primeira derrota em match do 'Ogro de Baku'. Hoje, reinam absolutos os cérebros de silício, que se tornaram professores dos Grandes Mestres, o que tem tornado o xadrez humano muito mais profundo que antigamente.

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segunda-feira, 6 de junho de 2016

O Xadrez do reencontro

Fonte: http://www.themarysue.com/names-of-chess-pawns/ 

Encontrar velhos amigos, pessoas do nosso passado que por algum motivo ficamos anos sem rever, reaviva antigas sensações e emoções. Por alguns instantes esquecemos que o tempo, assim como os peões no xadrez, só tem um sentido, e parece que temos ainda toda a vida pela frente, todos os peões em suas casas iniciais.

O tempo se move conforme as escolhas que fazemos, se jogamos um peão uma ou duas casas, ele jamais retrocede. Uma escolha na vida raramente tem volta.

Hoje, nossas vidas tomaram seus rumos, os rostos de todos guardam semelhanças inconfundíveis com as crianças que fomos. No reencontro, discutimos nosso presente, lembramos do passado, somos todos enxadristas mostrando como jogamos a partida da nossa vida até aqui, expondo nossos planos, orgulhosos dos acertos, críticos com os erros, esperançosos com os lances a frente.

Jogamos o xadrez da vida como quem aprendeu agora mesmo os rudimentos do jogo, somos experientes iniciantes que, por um momento belo de confraternização, se sentem recomeçando, capazes de tudo novamente, por algum breve lapso, uma doce ilusão.

Na despedida, tudo retorna ao ponto atual, peões avançados, escolhas tomadas, dias vividos. Já ansiamos o novo reencontro, uma nova trégua, quando poderemos novamente brincar de retornar os peões, e repetir todos os lances, uma vez mais.


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domingo, 15 de maio de 2016

Aprendendo com os clássicos


As maravilhas do Xadrez estão ao alcance de todos aqueles que quebram aquela primeira imagem de jogo hermético, ou de jogo feito apenas para pessoas com inteligência acima do normal.

Foi há muitos anos, no colégio, que eu pela primeira vez, um tabuleiro montado com quelas figuras de madeira. Olhei aquilo e senti algo como uma antiga lembrança recuperada, estranho, já que era só  um menino que não sabia sequer as regras.

Recentemente, retomei contato com vários amigos da época de escola, e muitos deles me perguntam sobre xadrez, alguns demonstrando o sincero desejo de mergulhar nos mistérios do jogo.

Apesar de muitas formas modernas de aprender o jogo, acredito nos clássicos. Então, sugeri a um dos meus amigos, o mais interessado, que buscasse o lendário Xadrez Básico (XB).

Aprender xadrez por um livro antigo pode apresentar alguns desafios, o primeiro é a notação.

Notação é a codificação que os enxadristas usam para preservar suas partidas. É por meio desta simples invenção, que podemos ter hoje em dia o registro de confrontos desde o século XV.

A notação usada no XB é chamada notação descritiva, hoje em desuso prático, mas que ainda está presente no imaginário dos enxadristas, que muitas vezes a usam em conversas: “joguei Peão 4 do Rei”. O livro ensina a notação moderna, a algébrica, mas não a utiliza no texto.

Outro desafio é priorizar o que é mais importante na leitura.

O XB tem uma seção logo no início que analisa lance a lance 4 partidas magistrais. Nelas, a densidade de conhecimento para iniciantes é enorme. Foram as primeiras lições de muitos mestres, bem como de muitos e muitos capivaras, claro.

Para quem tiver curiosidade, coloco abaixo links do ChessGames.com para as 3 primeiras partidas:
A quarta partida comentada, que mostra um rápido ataque, foi jogada por um jogador pouco conhecido, M. Aspa, de brancas contra outro jogador não identificado (N.N.) [3] com as peças pretas. Segue abaixo no visor do GameKnot.com:

Play online chess


No ChessGames, também existe uma compilação de quase todas as partidas completas que estão no XB. Agora, mãos à obra, vamos aprender Xadrez!


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Notas:
  1. Campeão Mundial de Xadrez entre 1921 e 1927
  2. Primeiro oficialmente reconhecido como Campeão Mundial de Xadrez entre 1866 a 1894 (28 nos, ainda um recorde)
  3. No passado, era comum preservar o nome de alguns derrotados ao se publicarem suas partidas, especialmente derrotas mais vergonhosas.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Xeque-mate no preconceito

O destino muitas vezes nos traz oportunidades inusitadas de provarmos a nós mesmos que somos menos sabidos do que imaginávamos.

A esta inexorável mecânica da vida, nem mesmo o inglês e Grande Mestre Internacional de Xadrez, Nigel Short, foi capaz de escapar.

Causou controvérsia, revolta e fúria um artigo publicado por Short, há alguns meses, no qual o GM dizia literalmente que o cérebro das mulheres era de tal modo construído que as tornava naturalmente menos aptas ao jogo de Xadrez que os homens. Antes deste desastroso artigo, Short era mais conhecido por ter sido o vice-campeão mundial do jogo em 1993, derrotado pelo lendário Kasparov.

Fico pensando o que teria levado um homem culto como ele a falar, ou melhor, escrever, tamanha bobagem. Talvez tenham sido as incontáveis horas desvendando a Abertura dos 4 Cavalos ou o Gioco Piano, que lhe diminuíram a capacidade para outros temas.

Os ânimos arrefeceram e o tempo passou, o assunto estava quase esquecido. Então, como que por mero acaso, foi dada à jovem GM indiana Harika Dronavalli, 12ª do ranking mundial feminino, a oportunidade de fazer Short engolir suas palavras.


Início da partida.
Short, visivelmente desconfortável,  podia estar pensando: "Eu e minha boca..."
(Fonte: Chessbase.com)
A partida aconteceu há poucos dias, na terceira rodada do Torneio Internacional de Gibraltar. Jogando com as peças pretas, o que dificulta um pouco a vitória, Dronavalli, magistralmente, forçou Short a inclinar seu Rei. Não sei se a jovem mestra indiana buscou algum tipo de revanche contra o falastrão inglês, mas o certo é que sua atuação foi impecável, com lances fortíssimos, como o da posição abaixo, que selou a partida.

Posição após 31. Dxd5 ... . Pretas jogam e ganham.
No mesmo dia, as mestras Anna Muzychuk (Ucrânia) e Aleksandra Goryachkina (Rússia) também venceram convincentemente seus adversários do sexo oposto, apesar de ambos estarem mais bem colocados do que elas no ranking internacional.


Ao pensar no acontecido, lembrei da famosa frase do ex-campeão do mundo, Emanuel Lasker, "No tabuleiro, mentiras e hipocrisia não duram muito tempo". Se faltava acrescentar algo a esta afirmação, a GM Harika e suas colegas certamente o fizeram, ao mostrar que nas 64 casas, não há espaço para o préconceito.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Campeonato Brasileiro de Xadrez - Final

Está em andamento a final do 82º Campeonato Brasileiro de Xadrez, sob organização da CBX. O torneio se realiza nas dependências do Clube de Xadrez Guanabara (mapa aqui).

Entre os 12 finalistas, temos 2 Grandes Mestres: Rafael Leitão e Krikor Mekhitarian, além de 5 MI´s e 4 MF´s. O único não titulado é Rafael de Souza, de Pernambuco, que vem com bom desempenho após 5 rodadas (Rp = 2408). O representante potiguar é o Mestre Internacional Iack Macedo, que está em sua sexta final de brasileiro.

Abaixo a tabela cruzada com classificação após 5 rodadas:


As partidas podem ser seguidas ao vivo pelo servidor Chessbase. Mais detalhes na página da CBX.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Será o fim dos livros de Xadrez? (II)

Há alguns meses, escrevi aqui sobre o fim dos livros de Xadrez. O mote foi a percepção que tive da escassez crescente de títulos sobre nosso amado jogo nas maiores, e menores, livrarias das cidades por onde tenho andado. Infelizmente, daquele texto para cá, a situação só piora.

Desta vez, acredito que o sinal de decadência é claro e irreversível. Vejam só o que descobri na seção de Xadrez de uma grande livraria de um grande shopping no Rio de Janeiro:

Seção de Xadrez numa das maiores redes do País.

Chegamos ao ponto de a seção de Xadrez ser composta basicamente de livros sobre o jogo de Pocker (que tem atraído muito enxadristas, pelas similaridades analíticas e pelo potencial financeiro bem maior). Até aí, o susto estava moderado. Peguei, então, um dos poucos livros de Xadrez na seção e me deparei com mais um disparate:

Um guia "definitivo" com dois erros grosseiros logo na capa.
Como pode a editora deixar passar uma capa dessas? Com dois erros crassos!? Uma que salta aos olhos: os cavalos e os bispos com a posição trocada (o outro erro, deixo como desafio ao leitor).

A desilusão estava grande, e fui caminhando para a saída da loja, onde estavam títulos com grande desconto, a maioria por R$ 9,90. Fiquei ali remexendo nos livros em oferta e tive a maior surpresa do dia:

Um clássico, jogado ali, entre as pechinchas.
O volume I da coleção predecessores do Kasparov (que, aliás, é o último dos grandes campeões do mundo cuja obra literária é digna de nota), em inglês (a original), em capa dura, ali, jogado no meio de livros sobre esoterismo e auto-ajuda. Um insulto sem tamanho! Lembro que, não tem nem um ano, eu vi o mesmo volume noutro local por mais de R$ 100.

Reduzida a indignação, fiz a única coisa decente para a ocasião: comprei o livro e saí limpando os pés na soleira da loja.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Ao Cavalo, com carinho

'Saudades da Ilha de Lewis'. Foto de Rewbenio Frota

Uma vez, na casa de um tio avô, eu vi uma pecinha de madeira em forma de cavalo. Não era um cavalo inteiro, apenas cabeça e pescoço sobre uma base arredondada. Meu tio me explicou que era um Cavalo, uma peça de um jogo chamado Xadrez, que se movia formando um L. Não imaginava, mas eu acabava de conhecer a peça mais famosa do Xadrez, para muitos, como eu até uns cinco anos depois, a única que conhecem!

O Xadrez é composto por dois exércitos, cada um deles com seis tipos de peças. O Cavalo é só uma delas, não é a mais importante, nem a mais poderosa, mas é a mais conhecida.

Não é de se estranhar que seja assim, pois o cavalo é um símbolo bastante difundido em nossa cultura. Ele está presente em marcas de carros (Ferrari, Porsche, Mustang) na mitologia (unicórnios, cavalos alados, o Cavalo de Tróia etc), além de ser, talvez depois dos cachorros, o animal ao qual o ser humano mais se afeiçoa.

Apesar de sua forma e seu nome (na língua portuguesa), no Xadrez, a peça não representa um cavalo, mas sim um Cavaleiro. Alguns teóricos da origem do Xadrez, que derivou de um jogo chamado Chatrang ou Chaturanga, o que significaria o jogo das quatro partes, dos quatro 'humores' do homem, ou dos quatro elementos, associaram ao Cavalo o elemento água, pela fluidez de seu movimento.

O movimento de Cavalo (que descreve no tabuleiro um L da casa inicial à casa final) tem certas características que o tornam especial, por exemplo, ele pode saltar outras peças! O cavalo sempre pula de uma casa branca para uma casa preta, e essa alternância obrigatória de cores já virou o resultado de muitas partidas na história do jogo.

Muitas vezes, fico imaginando uma forma de explicar por que o Cavalo tem um movimento assim tão extravagante. Talvez seja porque um cavalo, ao trotar, toca patas alternadas no solo: dianteira direita e traseira esquerda, e vice-versa. Em seu "Libro del Acedrex", Don Alfonso, o Sábio, explicou assim a causa do movimento do Cavalo:
"Os cavalos saltam movendo-se uma casa em linha reta e uma em diagonal (afastando-se da casa de origem). Tal como os bons oficiais que capitaneiam as linhas de combate dirigindo o cavalo para a direita e para a esquerda para defender os seus e vencer os inimigos."
O movimento do Cavalo inspirou, por exemplo, um dos problemas mais famosos da matemática: O Passeio do Cavalo. Este problema é conhecido desde o século IX e consiste em encontrar uma forma de passar com o Cavalo por todas as casas do tabuleiro uma única vez a partir de qualquer casa inicial. Um problema que intrigou grandes matemáticos, dentre eles Leonhard Euler! Don Alfonso também menciona este problema, quando fala:
"O Cavalo tem mais vantagens que todas as outras peças, exceção feita à Torre*, pois quem souber bem jogar o Cavalo, poderá movê-lo de um canto do tabuleiro tomando peças em qualquer das outras 63 casas: tal é seu movimento que não falha em tomar." *O livro de Don Alfonso é de 1283 D.C., portanto antes das alterações nos movimentos de Dama e Bispo (que eram limitados em quantidade de casas por jogada, já a Torre não tinha essa limitação).
Em seu livro, "O Xadrez na Idade Média" (de onde extraí as citações ao livro de Don Alfonso), do Prof. Luiz Jean Lauand, comenta a passagem acima com este tabuleiro onde se mostra uma solução para o problema do Passeio do Cavalo, adicionando uma interessante observação: "Na ilustração (abaixo) - extraída do 100 Classics...* - o cavalo pode mover-se sequencialmente também pelos números quadrados perfeitos (1,4, 9, ...64) ou cubos perfeitos (1, 8, 27, 64)." *100 Classics of the Chessboard:


Passeio do Cavalo como um caminho por quadrados perfeitos
ou cubos perfeitos.

Apesar das vantagens citadas por Don Alfonso, por uma irônica questão geométrica, o Cavalo tem uma fraqueza, pois um rei e dois Cavalos atacando o rei adversário solitário não conseguem dar xeque-mate (exceto se o rei defensor ajudar muito). Antes do xeque-mate, ocorre uma situação conhecida como “afogamento”, que é quando um dos bandos não tem como fazer uma jogada válida e o seu rei não está em xeque.

Pesquisando em partidas magistrais nas quais os Cavalos foram decisivos, há casos curiosos. Por exemplo, o ex-campeão do Mundo Anand efetuou 13 jogadas seguidas com seus cavalos (talvez tentando resolver o problema do Passeio do Cavalo!). Noutra ocasião, o ex-campeão mundial Mikhail Tal efetuou 10 lances seguidos com o mesmo cavalo, numa partida contra Mikhail Botvinnik. Porém, a que mais me impressionou foi o desfecho duma partida de mais um ex-campeão mundial, talvez o maior deles, Garry Kasparov, que com 5 lances consecutivos do mesmo Cavalo, leva seu rival, Peter Leko, ao abandono da partida.



Que possam muitas outras crianças se encantar por este nobre jogo de Xadrez por causa desta amável e perigosa peça (como demonstrou Kasparov): nosso querido Cavalo.


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segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Spassky, Fischer, sonhos e Xadrez

Spassky x Fischer, 1972 (o match do século).
Na semana passada, li um dos textos mais emocionantes sobre o Xadrez que já encontrei. Bem, na verdade, a beleza do texto não é devida ao Xadrez, propriamente, mas ao destino de dois de seus maiores campeões: Boris Spassky e Robert (Bobby) Fischer.

Leontxo Garcia, que há muitos anos nos brinda com incontáveis análises e textos sobre torneios e outros acontecimentos do mundo enxadrístico, escreveu para o periódico EL PAÍS uma crônica baseada na última aparição pública do ex-capeão mundial e Grande Mestre Boris Spassky, hoje com 77 anos de idade.

Spassky foi convidado de honra da Federação Internacional de Xadrez durante a abertura da disputa pelo título mundial entre Magnus Carlsen (atual campeão) e Vishwanathan Anand (desafiante). Na ocasião, Spassky disse que ainda sonha com Bobby Fischer (morto em 2008), e nesses sonhos conversam sobre Xadrez.

Rivalidades históricas por vezes criam uma atmosfera de ódio que beira o exato oposto. Vejamos, por exemplo, Kasparov e Karpov na década de 1980, quando eles jogaram 5 matches e 144 partidas. Após o último match entre eles pelo título mundial, o de Lyon – New York em 1990, ambos declararam que sem o outro não teriam energia e motivação para seguir se dedicando a evoluir nos segredos do jogo. Quando Kasparov foi preso pelo regime de Putin em 2007, um dos poucos a visitá-lo na cadeia foi justamente Karpov.

Já dizia Lasker “mentiras não sobrevivem muito tempo sobre o tabuleiro”, nossas jogadas são o mais legítimo retrato de nossa personalidade. No alto nível, para derrotar um campeão do mundo e tomar-lhe a coroa, é necessário entender sua mente, conhecê-lo a fundo. Talvez daí surja essa amizade entre rivais, do sentimento de ser entendido, ser compreendido, de não haver mais segredos a esconder, nem mentiras a contar.

Em 1972, no auge da Guerra Fria, Spassky e Fischer eram os maiores jogadores de Xadrez do planeta. Spassky representava a União Soviética, mas intimamente não era um defensor do regime. Fischer, norte-americano, que tampouco nutria grande orgulho por sua nacionalidade, era um profundo admirador da Escola Soviética de Xadrez. Sua mãe era comunista, e ele conhecia a língua russa o suficiente para ler os livros e revistas sobre xadrez publicadas por trás da 'Cortina de Ferro'. Ironicamente, se pode dizer que Fischer era filosoficamente mais fiel à Escola Soviética de Xadrez do que o próprio Spassky.

O match de 1972, o “match do século”, foi notícia em todo o mundo, elevou o Xadrez ao mesmo status da política e da economia. Spassky, que nunca havia perdido para Fischer até então, saiu derrotado, tratado como traidor do regime, não conseguiu voltar à disputa em 1975 (foi derrotado pelo novo prodígio soviético da época, Karpov) e acabou se exilando na França. Fischer, triunfou e desgraçou-se ao mesmo tempo. O título tinha sido sua obsessão por longos anos, e a conquista mergulhou o gênio sombrio num vazio. Atormentado pelo medo de um dia inevitavelmente perder seu título, optou por jamais jogar Xadrez novamente. Ficou 20 anos ausente, retornando em 1992 mais uma vez para vencer Spassky e, depois, sumir novamente. Terminou sua vida num estado mental deplorável, proferindo terríveis declarações.

Spassky - Fischer, 1992 (match revanche não-oficial)
O match do século, de certa forma, deixou o Xadrez órfão de um campeão do mundo e selou a desgraça de dois homens. Dois homens desgraçados que acabaram se tornando amigos, amigos que não se viam, nem se falavam. Quando Fischer foi preso em 2004, Spassky pediu para ser preso também.

Em 2008, Fischer morreu, ironicamente, com 64 anos de idade, como se a Deusa Caïssa só lhe permitisse um ano completo de vida para cada casa do tabuleiro em troca de revelar-lhe os mistérios do Xadrez.

Em 2010, Spassky teve um derrame que fez-lhe perder os movimentos do lado esquerdo do corpo. Ao invés de afastar-se do jogo, Spassky tem aumentado sua presença em eventos, acaba de publicar um livro e não dá sinais de desânimo. Hoje o mundo do Xadrez parece devolver a ele o respeito que ele jamais merecia ter perdido quando foi derrotado em 1972.

Como nos diz Leontxo, hoje Spassky olha o mundo em cadeiras de roda. Mas no corpo semi-paralisado habita a ativa mente do Mestre. Graças ao Xadrez, aos diálogos imaginários e sonhos com seu antigo rival, ele tem conseguido viver uma velhice feliz.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Quando (e como) Fischer se revelou Fischer

D. Byrne x R.J. Fischer
New York, 1956
Posição após 17. Rf1
Meninos prodígio sempre chamam bastante atenção, seja na música, matemática ou xadrez. Em 1956, Robert James (Bobby) Fischer ainda era somente um garoto de 13 anos de idade quando começou a ser conhecido mundo afora por causa do seu talento enxadrístico. Donald Byrne foi campeão norte-americano em 1953 e mestre internacional de xadrez. Quando se sentou para enfrentar Fischer, o campeão juvenil norte-americano em 1956, Byrne dificilmente poderia imaginar a dimensão que aquela partida tomaria.

A posição acima está prestes a revelar o ápice duma brilhante série de jogadas que se iniciou com 11. ... Ca4!, a partir da qual já se escreveu: “As próximas 7 jogadas geraram uma das mais fantásticas sequências já registradas em toda a história do xadrez.” (J. Nunn e W.H. Cozens, em The king hunt, 1996).

A partir do diagrama, o ponto alto é a entrega da Dama com 17. ... Be6!!. A Dama é uma peça tão poderosa no xadrez, que é sempre interessante ver quando ela é sacrificada. Principalmente quando a vitória do bando que oferta o sacrifício só vem muitos lances depois. Neste caso, Fischer trocou sua Dama por 2 Bispos, 1 Torre e 1 Peão, o que é materialmente suficiente para vencer, mas exige uma técnica apurada.

A mágica cena dum menino vencendo um experimentado mestre com tamanha técnica e visão, aliada à beleza dos lances, fez com que esta partida fosse rapidamente aclamada como 'A partida do século'. Curiosamente, ela não aparece no famoso livro My 60 memorable games, a obra prima escrita por Fischer em 1969.

Uma linha interessante resultaria a partir do sacrifício da Dama, caso fosse recusado, pois poderia surgir um belo mate de Philidor em caso de 18. Bxe6? Db5 19. Bc4 Dxc4+ 20. Rg1 Ce2 21. Rf1 Cg3+ 22. Rg1 Df1+ 23. Txf1 Ce2#.

Toda a combinação que começa no 11º lance negro envolve o sacrifício de um cavalo em a4 (recusado), o sacrifício da qualidade em f8 (recusado) e, enfim, o sacrifício da Dama em b6 que, pela linha mostrada acima, o Branco foi forçado a aceitar.

A partida continuou por mais 24 lances. O menino Fischer não deu mais nenhuma chance. O mestre Byrne, talvez intuindo que naquele momento entrava para a história do xadrez (infelizmente da mesma forma que Kieseritzky), não exerceu seu direito de abandonar a partida e permitiu que ela seguisse até o mate com 41. … Tc2#.

Posição final após 41. ... Tc2#.

domingo, 6 de julho de 2014

Um lance nada inocente

Lewitsky,S.M. - Marshall, F.J.
Breslau, 1912
Posição após 23. Tc5.
“... o mais belo lance já jogado.” - Horowitz
Frank Marshall foi o melhor enxadrista dos Estados Unidos da América no início do século XX e desafiante pelo título mundial contra Emanuel Lasker em 1907. Um jogador de ataque, considerado um dos últimos do antigo estilo romântico, que na época já vinha perdendo espaço para o xadrez mais científico. O que talvez tenha ofuscado um pouco a brilhante carreira de Marshall tenha sido o fato de ser contemporâneo de Capablanca, Lasker e Rubinstein, mesmo assim, ainda foi capaz de vitórias isoladas contra todos estes três gigantes do tabuleiro. Stepan Lewitsky foi um dos mais fortes mestres russos do período pré-soviético e tem seu nome na teoria enxadrística com o Ataque Lewitsky (1. d4 d5 2. Bg5). Porém, a exemplo de Kieseritzky, é mais lembrado por ter sido derrotado nesta partida de desfecho brilhante, jogada no torneio de Breslau em 1912.

A posição acima mostra o ponto crítico da partida, quando Marshall tem sua Dama e uma de suas Torres atacadas e aparentemente deve ceder material ao adversário. Mas o mestre norte americano surpreendeu a todos com uma jogada que poucos são capazes de sequer imaginar. Um lance que já foi chamado de brilhante e paradoxal, um caso de realismo fantástico aplicado ao Xadrez!

A partir do diagrama, as negras jogaram 23. ... Dg3!! (alguns analistas já atribuíram !!! para este lance). A dama não pode ser tomada pelos peões por causa de ameaças de mate, por exemplo, se 24. fxg3?? Ce2+ 25. Rh1 Txf1#, ou se 24. hxg3?? Ce2#. As brancas poderiam seguir com 24. Dxg3 Ce2+ 25. Rh1 Cxg3+ 26. Rg1 Ce2+ 27. Rh1 Tc3 mas ficariam com uma peça a menos. Em face de suas pobres opções, as brancas abandonaram sem tentar nenhuma das continuações comentadas, o que ajudou a eternizar a posição final.

Posição final (0-1)

Existe uma lenda (confirmada pelo próprio Marshall) de que alguns dos presentes no salão de jogos teriam jogado moedas de ouro sobre a mesa, tamanha a euforia causada pelo sacrifício proibido da Dama frente aos peões brancos.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Outra jóia de Anderssen

Anderssen, A. - Dufresne, J.
Berlim, 1852
Partida Sempre Viva, posição após 18. … Tg8.

Após ter assegurado seu lugar na posteridade com a Partida Imortal, já bastante popular na própria época em que foi jogada, Anderssen não se deu por satisfeito e honrou o xadrez com outra obra-prima.

Jean Dufresne não era um jogador tão forte como Kieseritzky, mas teve o privilégio de ser pupilo do próprio Anderssen, um dos motivos de o histórico entre os dois ser tão favorável para este último (+25 –5 =2, incluindo esta partida Sempre Viva). Além de ser o perdedor da partida Sempre Viva, Dufresne voltou-se mais para o ensino e divulgação do jogo e passou para a posteridade enxadrística como o autor de um dos mais famosos livros de xadrez do século XIX Kleines Lehrbuchder Schachspiels , que segue sendo editado até os dias de hoje!

Após uma disputa equilibrada, no mais puro estilo romântico de ataque, Anderssen sacrifica seu cavalo, que foi erroneamente aceito, trazendo à luz um das mais belas combinações de mate da história do jogo: 19. Tad1! Dxf3 (19. … Dh3 ainda permitiria às negras se defender). 20. Txe7 Cxe7 21. Dxd7! Rxd7 22. Bf5+ (duplo) Re8 23. Bd7 Rf8 24. Bxe7++.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A mais famosa posição da história do Xadrez

Anderssen, A. x Kieseritzky, L.
Londres, 21-6-1851
Partida Imortal, posição após 18. ... Bg1.
(FEN: rnb1k1nr/p2p1ppp/3B4/1p1N1N1P/4P1P1/3P1Q2/PqP5/R4Kb1 w kq - 0 19)

A posição acima é talvez a mais famosa da história do Xadrez. As brancas estão prestes a sacrificar sua segunda torre em troca de um ataque finalizador. Adolf Anderssen, que justamente neste ano de 1851 seria afamado como "Campeão do Mundo" (não existia a FIDE na época), ao vencer o forte torneio internacional de Londres, jogou esta partida durante um recesso daquele evento. Lionel Kieseritzky, que morava em Paris no Café de La Régence, era um dos mais fortes mestres europeus naquela época, inclusive tendo vantagem no confronto direto contra Anderssen (+7 -5 =2, excluindo-se esta Partida Imortal). Tristemente, para Kieseitsky, esta derrota parece ter selado o início de sua decadência, agravada por problemas financeiros. Passou para a história como o 'Perdedor Imortal' e morreu apenas dois anos após esta partida.

O encanto desta partida é a brilhante sequência de sacrifícios de peças em troca de tempos de desenvolvimento utilizados no ataque direto a um rei não rocado, no centro do tabuleiro.

A partida continuou assim: 19. e5! Dxa1 20. Re2 ... Segundo Kieseritzky, num artigo para o seu periódico La Régence, ele abandonou após este lance. Porém, outra versão informa que ele ainda teria jogado 20.  ... Ca6, após o qual Andersen teria anunciado xeque-mate em 3 lances, e, só então Kieseritzky teria abandonado. Essa pequena imprecisão sobre o desfecho é típica de confrontos informais, sem registro em súmula, mas em nada reduz o brilho desta partida. Provavelmente, os lances finais com a bela combinação de mate não chegaram a ser feitos no tabuleiro pelos protagonistas, mas tem sido realizados muitas vezes desde então! Ainda serão repetidos incontáveis vezes, enquanto existirem resquícios do Xadrez, este belo jogo, na face do planeta: 21. Cxg7+ Rd8 22. Df6!! Cxf6 22. Be7#. 


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