sábado, 10 de dezembro de 2016

Falsos cognatos

Rainha 'h6' na cabeça!
No estudo de línguas estrangeiras, precisamos estar atentos para não cair nas armadilhas dos falsos cognatos, palavras de grafia parecida, às vezes de mesma origem, mas na língua materna tem um significado e na língua estrangeira tem outro muito diferente.

Há muitos exemplos famosos de falsos cognatos entre os idiomas português e espanhol, diversos comerciais de TV exploram com bom humor possíveis confusões.

No xadrez pode acontecer um fenômeno parecido, quando alguém confunde padrões táticos. Por exemplo, há posições com uma configuração muito semelhante de peças chave, porém com pequenos detalhes que fazem toda a diferença. Não raramente, o jogador é enganado pela semelhança, uma vez que os circuitos neurais para reconhecimento de padrões são muito mais rápidos que os circuitos de análise convencional de jogadas e, nem bem começa a pensar, já está com a mão na peça, movendo no puro instinto, pela semelhança com um padrão tático conhecido.

Aconteceu esses dias com Isaias, numa partida rápida. Ele havia acompanhado o desfecho do match pelo campeonato mundial Carlsern × Karjakin e estava maravilhado com o lance final do campeão:

Carlsen x Karjakin WCC2016 m16. Posição após 49. ... Rh7.

Carlsen jogou 50. Dh6!, com xeque mate na próxima jogada, não importa a resposta de Karjakin, que abandonou.

Terminar um campeonato mundial com sacrifício de Dama foi um incentivo e tanto para os aficionados do mundo inteiro, inclusive para Isaias que estava há um tempo parado e resolveu jogar umas partidas rápidas no clube.

Ele estava com fome de xadrez, lembrando os velhos reflexos, sobretudo inspirado pelos lances do campeonato mundial. Numa das partidas, apareceu a posição abaixo, Isaias, com as peças brancas, tinha a vez de jogar, pode dar mate em duas jogadas!

Brancas jogam e dão mate em 2. Se pretas jogam, dão mate em 2.
Isaias arregalou os olhos e, num rápido disparo neural, percebeu semelhança absoluta com a posição final do campeonato do mundo (Torre na oitava, peão branco em h5, Rei preto indefeso em h7, Dama mirando h6), e jogou sem nem sentir: 1. D×h6?? ao qual o adversário, feliz, respondeu com 1. … g×h6. Isaias, contrariado, ainda tentou 2. Cg6, mas foi surpreendido com o fatal contra-ataque preto 2. … Th3+! 3. B×h3 Dh2#.

A audiência começou logo a brincadeira, dizendo que Dh6 não é pra qualquer um! Mas pior foi quando ele descobriu que tinha mate simplesmente com 1. Dg6+! f×g6 2. h×g6#. Fora enganado pelo falso cognato tático!

No caminho de casa, Isaias pensou: “Agora eu sei como Karjakin se sentiu quando não viu 20. … C×f2 na 10ª partida...”. E acabou por se consolar: “Até grandes mestres têm seu dia de capivara"!


domingo, 4 de dezembro de 2016

O jogador que só queria perder


- Vocês viram, David foi campeão mundial!?
- Que coisa, não é!? E pensar que todos aqui ganhamos dele!

Alguns anos antes...

Naquele tempo, as crianças ainda se juntavam para brincar, havia as brincadeiras de temporada. Primeiro eram os jogos de correr e pegar, depois de bola, até que alguém ganhava um jogo novo de tabuleiro, como WAR ou Banco Imobiliário. A meninada, principalmente os meninos, ficava numa rivalidade acirrada, verdadeiras rixas, que, às vezes, chegava perto da disputa física.

Foi o Luizinho quem trouxe a grande novidade daquele ano, presente de aniversário: uma caixa de madeira toda cheia de quadros claros e escuros, dentro dela uma peças miúdas de madeira, também claras e escuras. Formaram uma roda para ver aquilo. Como é esse jogo? Essa peça anda para trás? Como que come? Por sorte havia no fundo da caixa uma papeleta com as regras.

O que os meninos não sabiam é que pela primeira vez tinham contato com um jogo perigoso, que fazia cada um encarar o que trazia dentro de si, seus medos, suas vontades, seus anseios, sua visão de mundo (e naquela tenra idade lá se tem noção que temos uma visão de mundo!?). Eles partiram para os confrontos, sempre dois jogando e uma dezena assistindo, curiosos e ansiosos pela vez de tomarem o canto de quem perdeu. Cada um jogava com muita vontade de ganhar, pois quem perdia ia para o final da fila e esperava a tarde inteira até ter outra chance.

Na escola, alguns descobriram que havia livros sobre aquele jogo, com táticas, jogadas estudadas e repetidas muitas vezes, com desfecho já conhecido. Era como abrir um baú cheio de ouro, e logo perceberam que conhecimento era poder e precisava ser protegido.

Aquilo trouxe uma grande discrepância de desempenho, e aconteceu a natural separação entre os que viam algum sentido em empurrar aquelas peças e os demais que já perdiam o interesse, pois não suportavam as derrotas em série, nem tinham vontade de aprender mais; era só um jogo, não é?

Permaneceu, então, uma pequena confraria, com alguns meninos de nível equilibrado, exceto David, o que mais perdia. Apesar de demonstrar criatividade e bom raciocínio, ele não era páreo para os colegas que já tinham lido os manuais de aberturas, sabiam notação e resolviam problemas do tipo ‘Brancas jogam e ganham’. Perder tanto não era um desmérito em si, de certo modo até demonstrava como o jogo era valioso para ele.

Um dia, Miguel, o maioral daquele grupo, deu um xeque-mate elegante em David, um daqueles que aprendera nos manuais. Não teria sido nada demais, se não fosse o comentário do vencedor:

- Desista deste jogo, David, você não serve nem para perder de todos.

Os outros riram, e David saiu cabisbaixo. Naquele momento, ele percebeu como o jogo era capaz de dilacerar o ego de alguém.

David passou os meses seguintes afastado do tabuleiro, mas quando menos esperava estava pensando no movimento das peças, nas armadilhas em que tinha caído, mas que agora percebia como deveria fazer para escapar. Quando voltava a si, repelia fortemente aquelas ideias, o jogo não era para ele, a prática havia demonstrado.

‘Você não serve nem para perder para todos’. Essa frase martelava David todo dia. Que tolice! Claro que, se quisesse, poderia sentar e jogar com qualquer pessoa e perder, era apenas questão de iniciar a partida e fazer jogadas ruins. Mas aquilo ficou tão marcado para ele que o assunto foi ficando sério, e ele foi descobrindo algumas dificuldades práticas para refutar a “profecia” do amigo. Para perder de todos, era preciso primeiro conseguir jogar com todos.

David, então, já havia descoberto os livros, tinha lido alguns. Mas ficou mesmo maravilhado quando, ao passar numa banca de jornais, viu ali uma revista estrangeira que trazia na capa dois homens de terno, olhar sério, jogando uma partida. Cada um tinha a bandeira de seu país ao seu lado, além de uma caixa de madeira onde parecia haver dois mostradores de despertador. Pediu ao dono da banca para olhar melhor, passou as páginas e viu muitas partidas com explicações, fotos de jogadores famosos, campeões do mundo. Afinal, aquilo não era só uma brincadeira de meninos.

Ficou ainda mais pensativo, como conseguiria provar que seu antigo carrasco estava errado? Ele poderia sim servir ao menos para perder de todo mundo! Mas como ele faria para sentar no tabuleiro com o campeão mundial?

Um estalo: precisaria aprender a jogar muito bem para poder enfrentar, e perder para, os grandes jogadores do mundo. Desta forma, conseguiria provar que seu amigo era um grande idiota.

Assim, começou a vida de David como jogador profissional. Ainda menino passou a fazer o mínimo na escola e a devotar seu tempo quase inteiramente ao jogo. Tomava parte nos torneios, nos quais, apesar da notória evolução técnica e conhecimento, sempre dava um jeito de perder o primeiro confronto contra qualquer que fosse o adversário. Perdia rápido, muitas vezes vergonhosamente para alguém daquele nível.

Por causa desta singular estratégia, demorou um pouco mais para acumular os títulos: campeão escolar, campeão estadual juvenil, campeão nacional juvenil, campeão nacional adulto…

David tinha um estilo criativo, por vezes excêntrico, que usava como “explicação” para suas derrotas inciais contra um novo adversário. No fundo, nunca deixara de ser aquele menino curioso e maravilhado ante as possibilidades do jogo, ainda profundamente magoado com a ofensa passada. Fizera aquilo tudo para provar que servia para alguma coisa, mas, em sua cabeça, ainda não conseguira.

O campeão mundial, Mikhail (coincidentemente Miguel em sua língua), não participava de torneios comuns, apenas disputas do título. Aguardava que os melhores do mundo se digladiassem pelo direito de disputar com ele a distinção de ser o melhor do planeta. Mas ele observava com interesse a ascensão daquele estranho jogador que despontava no cenário mundial. A forma que jogava não lhe parecia digna, era por demais instável, jogadas ridículas em uma partida para depois ser brilhante nas outras… aquilo não fazia o menor sentido. Começou a desejar que ele fosse seu desafiante, pois queria ensinar-lhe uma lição, para que jamais sentasse novamente perante um tabuleiro em sua vida!

Não se sabe se a “torcida” do campeão teve efeito, mas a teimosia de David fez com que ele superasse os demais candidatos em duríssimos torneios, até que somente ele restou. Apenas ele, dentre todos os jogadores do Mundo, poderia desafiar o campeão mundial.

Os jornais começaram a noticiar aquele confronto tão inusitado, Mikhail era claro favorito, afinal reinava por muitos anos e se poupava somente para aquele momento. O que ninguém sabia era que David estava a uma partida de realizar o que tanto sonhava.

Seriam vinte e quatro partidas, o primeiro a vencer seis delas seria o campeão, empates não contavam. Em caso de mesma pontuação ao final do confronto, o título permanecia com Mikhail. As regras pouco importavam para David, para ele bastava uma partida. Ele não fez tudo aquilo para ser campeão, muito pelo contrário. Estar ali naquela disputa era apenas uma estranha condição para seu real objetivo.

Chegou o grande dia, os jogadores se sentaram frente a frente, apertaram as mãos, Mikhail fitou o adversário com profundo desprezo, não era digno de estar ali a sua frente, mas, já que estava, deveria sentir a força de seu jogo.

David faria a primeira jogada e estava calmo, não ligou para aquele olhar, pensava em terminar aquilo rápido. Começou a partida com as duas piores jogadas possíveis de se fazer uma depois da outra, xeque-mate em somente duas jogadas do adversário. Mikhail, atônito, sequer sorriu pela vitória. Na verdade, ficou irritadíssimo ao perceber o semblante de dever cumprido que o derrotado apresentava.

David já não pensava no jogo, era uma página virada, estava assinando a súmula e planejava em instantes declarar perante todos os presentes, inclusive ao árbitro da competição, que renunciaria ao duelo. Não percebeu que esse aparente desprezo aumentou a ira do campeão que se levantou, foi até perto dele e falou próximo ao seu ouvido:

- Você é uma vergonha para este jogo e para si mesmo, só serve para isto, perder!

Mikhail não sabia, mas acabava de fazer a pior jogada de sua vida.


sábado, 26 de novembro de 2016

O Xadrez na Era Supervisonada




O xadrez mudou muito após o pleno desenvolvimento de computadores capazes de vencer os melhores jogadores do mundo. A partir dos anos 1980, as máquinas começaram timidamente a vencer grandes mestres, depois apareceu uma ou outra vitória isolada contra o campeão do mundo, até a definitiva derrota em 1997, quando Garry Kasparov inclinou seu rei na sexta partida do match contra Deep Blue.

Desde então, a questão não é mais se o homem pode bater a máquina, mas sim quão bem poderia jogar a máquina, e como ela ajudaria o homem a compreender melhor este jogo milenar que nos tem fascinado por tantos séculos. Foi o fim da ‘era não supervisionada” do xadrez.

Por muitos anos, nós humanos jogamos um xadrez misterioso, instigante. Não havia uma “resposta certa” sobre as mais variadas posições, especialmente alguns finais de partida. Aberturas precisavam ser analisadas exaustivamente em sessões de treinamento que duravam dias. Enganos eram frequentes, por várias vezes mestres prepararam em casa surpresas de abertura que foram simplesmente refutadas no tabuleiro, no calor da partida. Por isso, podemos chamar este tempo de era não supervisionada do xadrez.

Foi a época de Fischer, cuja formação como jogador foi inteiramente baseada em livros, revistas especializadas, pura prática e aconselhamento com outros grandes mestres (enquanto pôde encontrar jogadores no ocidente que ainda podiam lhe ensinar algo sobre o jogo). As comunicações ainda não estavam tão bem desenvolvidas, e as partidas dos adversários soviéticos e europeus chegavam com dificuldade, coletadas por amigos e colaboradores ao redor do mundo. Quando lhe ocorria uma ideia nova, ele não podia pensar “deixa eu saber aqui neste livro, ou com este grande mestre superior se esta jogada serve”. Não, ele mesmo respirava fundo, se colocava no outro lado do tabuleiro e ia atrás dos recursos possíveis para as peças contrárias.

Contra Fischer, e contra todo o resto do Mundo, havia a forte Escola Soviética de xadrez, detentora de todos os campeões mundias após 1948 (exceto Fischer). Era uma estrutura muito bem azeitada para formação serial talentos que, uma vez na elite, eram forçados a cooperar uns com os outros para o crescimento do xadrez soviético como um todo. Apesar de ainda não existir uma “resposta certa” para as questões do jogo, sempre era possível contar com a opinião de um ex-campeão do mundo, como Botvinnik ou Tal, senão lançar mão do enorme arsenal teórico disponível em língua russa, bem guardadas pelos melhores grandes mestres do mundo. Era o que mais se aproximava do que temos hoje, quando praticamente alcançamos a 'era supervisionada' do jogo.

A era supervisionada é muito diferente. Para começar, antes mesmo de ser desenvolvido o poder de cálculo de variantes e avaliação de posições no tabuleiro, o simples fato de os computadores terem possibilitado a criação de bases digitais gigantes de partidas já foi uma revolução. Isso já facilitou enormemente o acesso à teoria do jogo, construída ao longo de pelo menos dois séculos de partidas entre mestres preservadas. Mas não foi só isso.

Os algoritmos de xadrez ainda estão em plena adolescência, e estamos longe de ter a ‘solução’ do jogo, como já aconteceu ao primo distante jogo de Damas. Apesar disso, os computadores já estão muito próximos de fornecer a ‘resposta certa’ em cada posição possível. Há momentos em que eles eles calculam tão bem, produzem lances tão belos, que dão a impressão de que estão a pensar!

Ao acompanhar os comentários de grandes mestres que dão cobertura às partidas do match pelo Campeonato Mundial entre Magnus Carlsen e o desafiante Sergey Karjakin (ambos crias da época computacional do xadrez), é notório como o computador fornece os lances mais fortes, sugere ideias por vezes brilhantes que não são acessíveis à mente humana no espaço de tempo limitado de uma partida de torneio. Tampouco ocorrem ao comentarista que não tem pressão nem limitação de tempo para suas elucubrações. Aliás, os dois maiores trunfos do computador são justamente o tempo de resposta (segundos) e a profundidade de cálculo, que pode chegar a dezenas de jogadas à frente, enquanto a média alcançada por grandes mestres da elite é de “somente” cinco a dez jogadas.

Nesse momento, porém surge um incômodo. O comentarista  faz uma análise, diz sua ideia sobre uma determinada posição de partida (o que antes seria tomado como uma verdade), e o jogador médio que está acompanhando sente o ímpeto de “checar” com seu aplicativo de análises se o grande mestre está mesmo certo. É uma grande inversão de valores que pode trazer uma ilusória sensação de entendimento, já que tanto o computador quanto o grande mestre têm uma base sólida para lançar uma jogada, mesmo sem ser a melhor, mas o amador que segue as avaliações do computador sem questionar criticamente é como a casa construída sobre a areia. Há muitos perigos nessa crença cega.

O computador ainda não “compreende” tão bem o jogo, apesar dos avanços técnicos que permitem transformar em objetivos parâmetros numéricos os conceitos humanos para avaliar o jogo: quantidade, qualidade e mobilidade de peças, segurança do rei, controle de espaço, estrutura de peões etc. Um exemplo foi visto na quarta partida do match Carlsen x Karjakin, quando o russo (que se defendia em posição inferior) organizou sua peças num tipo de fortaleza e impossibilitou qualquer avanço do exército inimigo, enquanto o computador continuava a fornecer avaliações favoráreis a Carlsen, numa posição claramente igualada.

Karjiakin x Carlsen, NY 2016 WCC m4. Posição após 94. Rf2 (empate).
Isso nos ajuda a recolocar o boi na frente do carro, lembrar que são os homens e suas ideias maravilhosas de xadrez e de computação que tornaram possível a evolução que vemos hoje. Não esqueçamos que por muitos anos os esforços foram para fazer o computador jogar como um humano, e não convém agora querer que as pessoas joguem como um computador. Se um dia as pessoas não forem mais capazes de julgar o que diz um cálculo frio da máquina, quem estará trabalhando para quem?

Uma vez, o ex-campeâo mundial Mikhail Tal estava para jogar uma exibição de partidas simultâneas contra vários jovens talentos soviéticos e confidenciou a um colega temer as agudas preparações de abertura dos jovens, já que ele próprio não estava mais a par das últimas novidades, era final da década de 1970. O colega tranquilizou o campeão: “não se preocupe, quando acabar a teoria que memorizaram, então serão apenas eles mesmos jogando com as próprias ideias”. Tal venceu a maior parte das partidas. Será que a legião de jogadores que busca somente assimilar as agudas descobertas computacionais não estaria somente repetindo o que fizeram os jovens que enfrentaram Tal? O que acontecerá quando tiverem que jogar com suas próprias ideias? Haverá alguma?

A era supervisionada pode matar o xadrez? Ela está ainda no começo, mas seus efeitos já são notórios e crescentes. O risco é que no lugar da evolução do conhecimento enxadrístico, ela traga uma visão dogmática e superficial (que era um temor de Fischer, quando percebeu o peso das preparações de abertura em sua época). Podemos nos precaver, há uma coisa que está em nosso poder: desligar um pouco a máquina e pensar com nossos próprios meios. Afinal, o melhor computador já criado está dentro do crânio de cada um de nós.


sábado, 19 de novembro de 2016

Rubinstein, um lance, duas vitórias

A série sobre posições famosas demanda muitas pesquisas em livros, revistas antigas, fóruns de discussão, que trazem muitas descobertas interessantes, além das diversas sugestões de colegas enxadristas. Tais curiosidades, que talvez não estejam exatamente dentro da proposta da série, com frequência dão origem a uma postagem só para elas.

Num antigo livro com 50 partidas seletas, duas me impressionaram em especial. Em ambas, jogava de brancas o grande mestre Akiba Rubinstein e seus adversários eram (ou seriam) campeões mundiais: Lasker e Capablanca, respectivamente. Rubinstein ganhou dos dois usando uma mesma jogada, embora as posições sejam distintas! Seria um método secreto para vencer campeões do mundo?


Rubinstein nasceu na Polônia (então parte do Império Russo) e foi contemporâneo de Lasker, Capablanca, Alekhine, Tarrasch e Marshall, para falar apenas dos famosos cinco grandes mestres originais. A forte concorrência no período em que esteve no auge de sua força enxadrística pode ajudar a entender porque Rubinstein jamais foi campeão mundial. Outros fatores foram sua condição financeira desfavorecida e a eclosão da I Guerra Mundial, quando Rubinstein estava no ápice de sua forma.

Um match com Lasker estava pré-firmado para 1914, quando começou a guerra, e, depois dela, a penível condição econômica europeia impediu que Rubinstein conseguisse levantar os valores pedidos por Lasker como bolsa mínima para a disputa do título (o mesmo aconteceria depois, quando o campeão já era Capablanca).

Segundo os ratings históricos, Rubinstein esteve pelo menos o entre os quatro melhores do mundo no período entre 1905 e 1915 e foi provavelmente o mais forte enxadrista do mundo entre 1912 e 1914. Justamente neste período áureo foram jogadas as partidas contra Lasker e Capablanca, nas quais Rubinstein usa o mesmo lance para obter a vantagem.

Nas posições acima, as partidas se encontram em seu momento crítico. Contra Lasker, era primeiro confronto entre eles, e Rubinstein precisa encontrar uma forma de retomar a torre sem cair num final desfavorável. Contra Capablanca, também o primeiro confronto entre os dois, o grande mestre polonês preparou uma linha aguda de abertura e precisava achar o único lance que não só evitaria ficar mal de imediato, mas deixa as brancas com posição superior!

Na primeira posição, Rubinstein jogou 18. Dc1!, exatamente o mesmo lance (com outras ideias) que fez na segunda, 17. Dc1!!, obtendo em ambas as partidas vantagens de longo prazo que conseguiu converter em vitória algumas jogadas depois.

O xadrez está cheio de coincidências, mas, como vimos, nem todas as coincidências na vida de Rubinstein foram tão felizes como o 'Dc1'. O mestre sempre teve uma saude mental frágil e passou boa parte de seus últimos anos em instituições psiquiátricas, especialmente após a morte da esposa em 1954.

Esses traços da personalidade de Rubinstein chamaram a atenção do escritor russo Vladimir Nabokov, que se inspirou nele (como em outros jogadores do início do século XX) para moldar seu personagem principal no livro A Defesa Luzhin, que depois deu origem a um excelente filme homônimo.

Rubinstein pode não ter passado para a história como um campeão mundial, mas suas combinações terão sempre um lugar cativo nos tabuleiros e no imaginário de gerações e gerações de enxadristas. Na próxima vez que puder fazer o lance 'Dc1', lembrarei do mestre e pensarei com cuidado, pode ser uma arma poderosa, principalmente se meu adversário for um Campeão do Mundo!

domingo, 13 de novembro de 2016

Zürich 1953: um torneio, alguns livros, uma lenda

Capas das edições mais recentes em inglês (Amazon)
Existe no xadrez uma tradição que, apesar de sofrer algumas mudanças de formato ao longo da história, permanece fascinando jogadores de todos os níveis e aficionados: o Torneio de Candidatos.

Esta competição tem o objetivo único de escolher dentre os melhores enxadristas do Mundo aquele que terá a honra de desafiar o Campeão Mundial pelo título máximo do jogo. Somente à elite que emerge dentre os vencedores de campeonatos nacionais e continentais é permitido fazer parte do certame: eles são chamados de Candidatos. Pouquíssimos jogadores na história receberam esta honraria, dentre eles o Grande Mestre brasileiro Henrique Mecking (por 2 vezes).

Em 1953, foi realizado nos arredores da cidade suíça de Zurique aquele que é celebrado como o mais forte Torneio de Candidatos da história. Tomaram parte 15 grandes mestres, todos os mais fortes da época, um deles ex-campeão mundial (Max Euwe, Holanda), além de outros dois que viriam a ser campeões mundiais poucos anos depois (o vencedor do torneio, Vassily Smyslov e Tigran Petrossian, ambos soviéticos). Além da fantástica seleção de jogadores, o formato impressionava: todos jogaram duas vezes contra todos os oponentes, de forma que todos jogaram o mesmo número de partidas com peças brancas e com peças pretas.

Boa parte da mística deste torneio se deve aos livros escritos sobre ele por alguns dos participantes*. O mais famoso deles é o livro de David Bronstein (soviético, vice-campeão do mundo em 1951), traduzido para vários idiomas. Foi o primeiro livro de Bronstein, e ele comentou todas as partidas do torneio, 210 no total, com enfoque em posições típicas, principais planos de jogo e conceitos estratégicos. Ele pretendeu dar ao livro um formato quase literário e faz relativamente pouco uso de variantes longas nos comentários (para horror de alguns críticos). Esta abordagem só pode ser usada por um gênio como Bronstein, que compensa o menor rigor analítico com insights didáticos que deram celebridade ao livro.

Outro dos livros sobre o torneio permanece menos conhecido, apesar de ser considerado por alguns como ainda melhor que o de Bronstein, é o livro escrito por Miguel Najdorf. O genial grande mestre argentino (muito conhecido pela variante da Defesa Siciliana que leva seu nome) escreveu somente este livro em sua carreira. Najdorf se entregou à mesma árdua tarefa de comentar as 210 partidas, com enfoque mais analítico que Bronstein, sem deixar de falar de ideias estratégicas, além de aspectos psicológicos e práticos (como a administração do tempo de reflexão) que influem no desempenho num torneio longo como aquele, que teve 30 rodadas e durou quase 2 meses.


Um aspecto das rodadas inciais em 1953 (livro Najdorf)
Um dos motivos para a menor fama do excelente livro de Najdorf era o fato de ele estar disponível somente em espanhol. Recentemente, porém, foi lançada uma edição em inglês, e a popularidade da obra deve alcançar seu devido lugar.

Sobre esse lançamento, foi publicada uma revisão bastante desfavorável ao livro de Bronstein, o que me causou muita surpresa. O autor é o mestre internacional John Watson. Em sua resenha, ele dá muita ênfase à escassez de análises de variantes no livro de Bronstein (algo que foi feito de propósito pelo soviético, com explicado acima), e o considera omisso em algumas partidas nas quais Najdorf oferece maior quantidade de notas e informações.

Uma análise superficial pode ser tendenciosa, e é preciso ao menos dar um voto de confiança a um livro que tem sido um clássico por mais de 50 anos. Para uma justa e precisa comparação entre as duas obras, seria necessário ler os comentários das 210 partidas em ambos os livros, idealmente checar com um forte aplicativo de análise as variantes comentadas (e as omitidas). Desta forma, além de aprender muito da técnica e da história do xadrez, quem fizesse isso poderia, de forma muito bem embasada, tirar suas próprias conclusões sobre a qualidade dos livros.

Uma forma que encontrei de encurtar este esforço e lançar alguma luz sobre a questão, foi comparar as análises e comentários dos dois grandes mestres numa partida que jogaram um contra o outro no torneio. Assim, seria evitado qualquer viés dos autores (Bronstein afirma em seu livro que é muito mais difícil comentar as próprias partidas).

[Event "Torneio de Candidatos"] [White "Bronstein, David"] [Black "Najdorf, Miguel"] [Site "Zurich"] [Date "1953.08.31"] [Result "1/2-1/2"] [WhiteElo "2689"] [BlackElo "2684"] 1. d4 Nf6 2. c4 g6 3. Nc3 Bg7 4. e4 d6 5. Bg5 {[Najdorf] Aqui Bronstein me surpreendeu um pouco. Se costumava jogar 5. f3 ou 5. Cf3. Está claro que a agressiva jogada de bispo não pode ser castigada com 5. … h6 pelo debilitamento resultante na ala do rei.} c5 {[Najdorf] Prematuro. Era melhor continuar com a linha clássica 5. … 0-0, reservando a opção de atacar o centro com 'e5' ou mesmo 'c5' e esperar que as brancas denunciem suas intenções.} 6. d5 Na6 {[Najdorf] Melhor seria 6. … e6. Se 7. d×e6 B×e6 8. Cb5 0-0 9. D×d6 (ou C×d6) Cc6 e as pretas tem jogo ativo pelo peão sacrificado. [Bronstein] Muito já aconteceu nos primeiros seis lances. Aproveitando-se do desenvolvimento do bispo da dama branco para 'g5', em vez da casa usual 'e3', onde ele participa da luta por 'd4', as pretas rapidamente contra-atacam o centro com … c5. Como 6. d5 impediu o desenvolvimento do cavalo negro por 'c6', Najdorf agora pretende trazê-lo para 'c7', assim ele pode preparar … b5 com … a6. Isso custa um monte de tempo, entretanto, o resultado obtido é relativamente pequeno, comparado com o esforço desprendido. O cavalo ocupa uma posição passiva em c7, onde ele permanece sem uso por algum tempo. No final, ele quase faz as pretas perderem a partida.} (6... e6 7. dxe6 Bxe6 8. Nb5 O-O 9. Qxd6 (9. Nxd6) 9... Nc6) 7. Bd3 Nc7 { [Najdorf] Com esta manobra, trato de buscar a oportunidade de criar uma ruptura na ala da dama com 'b5'.} 8. Nge2 a6 9. a4 Rb8 10. O-O O-O 11. Qc2 Bd7 12. h3 {[Najdorf] Se neste momento 12. a5, então como na partida 12. … b5 13. a×b6 T×b6 … com pressão.} (12. a5 b5 13. axb6 Rxb6) 12... b5 { [Najdorf] Materializando a ideia da sétima jogada.} 13. f4 {[Najdorf] Começa o eterno tema desta abertura: ataque na ala do rei versus contra-ataque na ala da dama. Toda vez que as brancas conseguirem avançar seu peão do rei para 'e5' elas terão vantagem de espaço e melhores perspectivas. Por isso joguei: [Bronstein] A posição das peças pretas dá aos peões 'e' e 'f' uma irresistível tentação de avançar. As brancas estão conquistando mais e mais território; o peão agora em 'b5' compensa a duras penas a posição tolhida das pretas: por exemplo, compare as torres de 'f8' e 'f1'.} Nfe8 14. axb5 axb5 15. Ra7 bxc4 16. Bxc4 Ra8 $1 {[Najdorf] 16. Ta8! [Bronstein] 17. Tfa1 não pode ser permitido; mas agora as brancas conseguem trocar a única peça ativa das pretas.} 17. Rxa8 {[Najdorf] Bronstein não joga o natural 17. Tfa1 por causa da bela variante 17. … T×a7 18. T×a7 Db8 19. T×c7 D×c7! 20. B×e7 Ba4 ganhando.} (17. Rfa1 Rxa7 18. Rxa7 Qb8 19. Rxc7 Qxc7 20. Bxe7 Ba4 ) 17... Nxa8 18. Qb3 {[Najdorf] Impedindo o retorno do cavalo por 'b6' devido à ameaça B×e7. Então...} f6 {[Bronstein] Como a dama não pode permanecer para sempre presa à defesa do peão de 'e7', as pretas decidem dar um passo difícil: fechar o caminho de seu próprio bispo.} 19. Bh4 Qb6 {[Najdorf] Ofereço a troca de damas para retirar de Bronstein armas agressivas, já que ele dispõe de vantagem de espaço e posição superior.} 20. Qa3 Nec7 21. b3 Nb5 $2 {[Najdorf] 21. ... Cb5?. O correto seria 21. … Te8, porque era necessário prevenir a ruptura em 'e5', e então seria possível seguir f×e5.} (21... Re8) 22. Nxb5 Bxb5 23. f5 $1 {[Najdorf] 23. f5! [Bronstein] Pequenas vantagens, acumuladas pacientemente, deram corpo a um considerável ataque; com este lance as brancas iniciam sua busca por um fortalecimento decisivo de sua posição. A ameaça é 24. Cf4 g5 25. Ce6 g×h4 26. C×f8; adicionalmente, o último lance branco ajudou a fixar os peões pretos 'e' e 'f' em casas escuras. ***O restante do comentário abaixo só aparece na versão em inglês do livro de Bronstein*** Ainda assim, as brancas deveriam ter dedicado algum tempo para transferir seu bispo de casas escuras para uma outra diagonal. Ele já cumpriu o objetivo de induzir … f6 e poderia ter causado às pretas consideráveis dificuldades após 23. Be1. Também seria possível 23. Ta1, mas então as negras poderiam ter o lance … f5 em algum momento; não de imediato, pois 23. … f5 24. e5 d×e5 25. d6+ Rh8 26. d×e7 … etc.} (23. Be1) (23. Ra1 f5 24. e5 dxe5 25. d6+ Kh8 26. dxe7) 23... Bh6 {[Najdorf] Este lance é necessário para evitar Dc1 e as consequências do translado da dama à ala do rei.} 24. fxg6 hxg6 25. e5 $3 {[Najdorf] 25. e5!! Meu rival joga com toda alma e, mesmo pressionado pelo relógio, encontra uma magnífica continuação de ataque rompendo o bloqueio de peões pretos e liberando a casa 'e4' para seu cavalo.} Bxc4 26. bxc4 dxe5 27. Qd3 {[Bronstein] Por que as brancas sacrificaram este peão? Não poderiam as pretas iniciar um contra-ataque agora? Ainda não e, enquanto isso, as brancas precisam somente de dois ou três lances – Cc3 e Tb1, por exemplo – para dominar todos os pontos chave da ala da dama, e então tomar o peão de 'c5' ou 'e7'. O triste posicionamento do cavalo preto em 'a8' ajuda bastante às brancas na execução de seu plano.} (27. Bf2 Rc8 28. Qd3 Kg7 29. h4 {[Bronstein]}) 27... Kh7 {[Najdorf] Foi muito difícil para mim decidir se esta jogada era melhor que Rg7. Minha decisão se baseou no desejo de impedir (após Cc3-e4-Bf2-C×c5) que o cavalo chegasse a 'e6' com xeque.} 28. Nc3 Qb3 $1 {[Najdord] 28. ... Db3! A melhor resposta. Mesmo com um pão a mais minha posição era muito crítica. Se jogasse 28 … Cc7, Bronstein ameaçava 29. Tb1 Da3 30. Ce4 com posição ganhadora. [Bronstein] Os últimos dois lances brancos não foram ruins, mas poderiam ter sido um pouco melhores, por exemplo 27. Bf2 Tc8 28. Dd3 Rg7 29. h4 … Agora, Najdorf encontra um modo de complicar taticamente a partida e, mais importante, trocar as damas, o que facilita a defesa.} (28... Nc7 29. Rb1 Qa6 30. Ne4 {[Najdorf]}) 29. Rb1 e4 30. Rxb3 exd3 31. Rb7 $1 {[Najdorf] 31. Tb7!} Kg8 {[Najdorf] Única, outra vez.} 32. Kf2 { [Najdorf] Evidentemente, não era vantajoso tomar o peão do rei libertando o cavalo de 'a8'. [Bronstein] Obviamente, as brancas não tomam o peão para não permitir que o cavalo preto saia do isolamento em seu canto distante.} Bf4 $1 {[Najdorf] 32. ... Bf4!} 33. Kf3 {[Najdorf] Se 33. Bg3 B×g3+ 34. R×g3 Tc8! 35. T×e7 Cb6 36. Te4 f5 37. Tf4 d2 38. Rf2 Te8, melhor para as pretas.} ( 33. Bg3 Bxg3+ 34. Kxg3 Rc8 35. Rxe7 Nb6 36. Re4 f5 37. Rf4 d2 38. Kf2 Re8 { [Najdorf]}) 33... Rb8 34. Rxb8+ {[Najdorf] Tomar o peão do rei poderia levar ao empate da seguinte maneira: 34. T×e7 g5 35. Bf2 Tb3 36. Ce4 d2+ 37. Re2 Td3 38. Rd1 Cb6 39. C×f6+ Rf8 40. B×c5 Ca4 41. Ch7+ Rg8 42. Cf6+ … etc. Agora a tensão se afrouxa consideravelmente.} (34. Rxe7 g5 (34... Rb3 { [Bronstein]} 35. Bxf6) (34... Bd6 35. Re6 Be5 36. Bxf6 Bxc3 37. Bxc3 Rb3 38. Ba5 $1 {[Bronstein]}) 35. Bf2 Rb3 36. Ne4 d2+ 37. Ke2 Rd3 38. Kd1 Nb6 39. Nxf6+ Kf8 40. Bxc5 Na4 41. Nh7+ Kg8 42. Nf6+ {[Najdorf]}) 34... Bxb8 {[Bronstein] Praticamente toda a vantagem branca desapareceu após a troca de torres. Melhor seria 34. T×e7 Tb3 35. B×f6 ou 34. … Bd6 35.Te6 Be5 36. B×f6 B×c3 37. B×c3 Tb3 38.Ba5! As brancas superestimaram a força do peão em 'd3' quando rejeitaram a continuação acima, entretanto seu próprio peão de 'd5' teria sido muito mais perigoso. A melhor variante de todas teria sido 33. Bg3 ao invés de 33. Rf3, oferecendo a troca de bispos. As brancas não previram a resposta preta 33. … Tb8.} 35. Na4 Bd6 36. Bf2 Kf7 37. Ke3 Nc7 38. Kxd3 Na6 39. Ke4 f5+ 40. Kf3 e6 41. Nb6 {[Najdorf] Empate, já que após 41. … e5, não havia maneira de forçar a partida.}
Revisar a partida sob a ótica desses dois lendários mestres é muito enriquecedor. Percebe-se o respeito mútuo, o profundo conhecimento estratégico, a tática aguçada, a honradez dos mestres. Por exemplo, Bronstein em momento algum se refere ao fato de ter pouco tempo restante no relógio para explicar algum erro seu, enquanto Najdorf cita que ele estava com pouco tempo, mas mesmo assim encontrou a melhor continuação no lance 25 (ao qual deu duas exclamações '!!' - aliás, Najdorf é muito mais afeito ao uso de '?' e '!' em suas notas).

Existem diferenças, claro. Por exemplo nos lances 12 e 17, Bronstein considera desnecessário mostrar algumas variantes (provavelmente porque considerou fáceis de visualizar), em outros as análises divergem, como no lance 33. A verdade, porém, é que a partida fica muito mais instrutiva quando são unidas as notas, que se complementam.

Há sempre pelo menos duas formas de fazer qualquer coisa na vida, assim como no xadrez. Há os que começam com o peão do rei e outros com o peão da dama, há os destros e os canhotos, há pessoas analíticas e as intuitivas. Assim, não vejo como desmerecer um livro frente ao outro. Bronstein e Najdorf são fieis aos estilos segundo os quais viveram suas vidas e moveram suas peças. Esta dualidade não diminuiu em nada a qualidade de suas obras, ambos apenas enriqueceram o mundo com seus lances, ideais e palavras.

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*Há ainda os livros escritos por Max Euwe e Gideon Stahlberg que estão disponíveis apenas em antigas edições nas línguas maternas dos autores.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os Bispos de Lasker

Dr. Em. Lasker x J. H. Bauer, Amsterdam 1889
Posição após 13. ... a6
FEN: r4rk1/1b2bppp/ppq1pn2/2ppB3/5P2/1P1BP1N1/P1PPQ1PP/R4RK1 w - - 0 14

Algumas partidas se tornam famosas por belas combinações, por seu peso para o resultado de um torneio ou por mudar a vida de alguém. Em 1889, o então promissor aspirante ao título de Campeão Mundial, Dr. Emanuel Lasker jogou contra Johan Bauer (forte mestre austríaco à época) uma partida que se celebrizou por ter popularizado um novo tema tático, belo e poderoso. Se a Partida Imortal se eternizou pelo duplo sacrifício de torres, esta entrou para a história por causa de um sacrifício duplo de bispos.

Campeão Mundial por 27 anos (de 1894 a 1921, um recorde), Lasker foi um dos mais fortes enxadristas da história. Além disso, foi um dos últimos campeões com múltiplos talentos, sendo doutor em matemática, filósofo e grande mestre de xadrez. Lasker, aliás, estava no grupo de cinco jogadores aos quais o Czar russo Nicolau II se referiu ao cunhar o termo ‘Grande Mestre’, quando se dirigia aos cinco melhores colocados no Torneio de São Petesburgo de 1914. Um título que se tornou tão significativo que foi oficialmente adotado pela federação  internacional anos depois. Johan Hermann Bauer deixou pouca informação a seu respeito e, no xadrez, foi mais um a seguir a triste sina de Kieseritzky, passando à posteridade como o derrotado de uma partida fantástica.

Na posição acima, as brancas possuem vantagem de espaço e mobilidade plena de suas peças. Especialmente o par de bispos, que exerce forte pressão sobre o esconderijo do rei negro, tal dois canhões contra uma muralha indefesa. Porém, sem uma rápida providência, as negras podem avançar seu peão da dama, já com forte ação na grande diagonal branca, equilibrando a posição.

Lasker encontrou uma continuação avassaladora: 14. Ch5! Cxh5 (se 14 … d4 15. Bxf6 Bxf6 16. Dg4 Rh8 17. Tf3 e5 18. Bxh7 … com forte ataque) 15. Bxh7+! Rxh7 (se não tomar o bispo, fica como desafio descobrir, é mate em 4 jogadas) 16. Dxh5+ Rg8 17. Bxg7 Rxg7 (novamente, não tomar o bispo leva a um mate forçado em… 8 jogadas!) 19. Dg4 + Rh7 20. Tf3 … As pretas são forçadas a entregar material de volta para não levar mate e a partida se decide facilmente para as brancas. 20. … e5 (única) 21. Th3+ Dh6 22. Txh6 Rxh6 22. Dd7 … (retomando um dos bispos) 22. … Bf6 Dxb7 e as pretas abandonaram 14 lances depois.

Depois desta partida, o sacrifício do par de bispos contra o roque se tornou um tema muito conhecido  (inclusive, há um livro a respeito) que deve fazer parte do repertório tático de todo jogador, sob risco de ser pego desprevenido, como já se viu até mesmo em outros embates magistrais: Alekhine x Drewitt (1923) e Nimzowitsch x Tarrasch (1914). Este último, aliás, recebeu Prêmio de Beleza no Torneio de São Petesburgo (já citado acima). Conta-se que, quando foi votado o prêmio, Dr. Tarrasch (que nutria  por Lasker um profundo desafeto) perguntou se ele votaria por sua partida, ao que Lasker (em 1914 já Campeão do Mundo) teria respondido: “Claro que sim, sem dúvidas! Afinal uma partida assim só se vê a cada… 25 anos!”. 


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sábado, 29 de outubro de 2016

Pensamento acelerado é pensamento?

‘Mas, vocês sabem como analisar variantes?’ Eu perguntei aos meus ouvintes e, sem dar-lhes tempo de responder, eu continuei. ‘Vou mostrar-lhes como analisar variantes e se por acaso eu estiver errado, então me interrompam. Vamos supor que numa dada posição em sua partida, você precise escolher entre dois lances Td1 ou Cg5. Qual deles você deve jogar? Você senta confortavelmente eu sua cadeira e inicia a análise dizendo silenciosamente para si os lances possíveis: ‘Bem, eu poderia jogar Td1 e ele provavelmente jogará … Bb7, ou poderá tomar meu peão da coluna a, que agora estará desprotegido. O que depois? Esse nova posição me agrada?’. Você segue uma jogada além em sua análise e então faz uma cara de desagrado – o lance de torre não parece bom. Então, você passa ao lance de cavalo. ‘E se eu jogar Cg5? Ele pode expulsar o cavalo com … h6, eu jogo Ce4, ele captura o cavalo com o Bispo. Eu recapturo, e ele ataca minha dama com sua torre. Isso não parece muito bom… então o lance de cavalo não é tão bom. Vamos checar o lance de torre de novo. Se ele joga … Bb7 eu posso responder com f3, mas o que fazer se ele capturar meu peão de a? O que posso fazer em seguida? Não, o lance de torre não é bom, eu tenho que checar o lance de cavalo novamente. Então, Cg5 h6; Ce4 B×e4; D×e4 Td4. Não, não é bom! Eu não devo mover o cavalo. Tente o lance de torre mais uma vez. Td1 D×a2’ . Neste ponto, você olha para o relógio. ‘Meu Deus, já se passaram 30 minutos pensando se movo a torre ou o cavalo’. Se você continuar assim, acabará nos apuros de tempo. Subitamente você se depara com uma ideia feliz – por que mover a torre ou o cavalo? ‘Que tal Bb1?’. E, sem análise alguma, você move o bispo, assim mesmo, praticamente sem nenhuma consideração.

Alexander Kotov (1971) - Think Like a Grandmaster (tradução livre)

A passagem acima inicia um dos maiores clássicos da literatura de xadrez no mundo, Pense como um Grande Mestre (GM), escrito pelo GM soviético Alexander Kotov nos anos 1970. Nesse livro, ele apresentou ao enxadrista comum o conceito (e a técnica) de lance candidato e árvore de variantes. A audiência de Kotov, ao final da passagem acima, aplaudiu o mestre efusivamente, tamanha a exatidão com que ele descreveu o pensamento do jogador comum (inclusive o dele mesmo antes de alcançar a maestria).

Em sua descrição do pensamento do jogador comum durante uma partida, Kotov já antecipava o problema da falta de concentração e profundidade de raciocínio, algo que foi se acentuando com o tempo e que hoje acomete grande parte da população, enxadristas ou não. São diversas alterações que estão associadas à sobrecarga de informações, falta de controle da ansiedade, acúmulo de atividades. Algumas dessas alterações tem sido, inclusive, tratadas como distúrbios.

Um desses distúrbios é conhecido como Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA), conforme nomeada pelo psiquiatra brasileiro Augusto Cury. Esta síndrome acomete principalmente pessoas submetidas a um trabalho intelectual intenso, que precisam de muita concentração, sujeitas à entrega de resultados sob pressão (justamente como numa partida ou torneio de xadrez). A SPA é um transtorno na organização e controle do pensamento causado pelo ritmo acelerado de vida que se tem atualmente, com exposição da mente a uma quantidade exagerada de estímulos e informações, de forma que a atenção fica “chaveando” entre esses estímulos sem conseguir o foco e a permanência necessária para resolver propriamente qualquer questão antes de passar à próxima.

Os efeitos da SPA sobre o organismo são diversos e nefastos: mente inquieta, ansiedade, falta de sono, sofrimento por antecipação (‘e se ele tomar meu peão da coluna a?’), reagir sem refletir propriamente (‘Por que não Bb1?’), cansaço físico intenso, queda na resiliência e redução da capacidade de se colocar na posição do outro (o que importantíssimo no xadrez!).

O enxadrista pode sofrer com alguns sintomas específicos. Em geral, ele não usa mais tabuleiro para treinar, logicamente, pois o smartphone, o tablet e o computador estão aí, à mão. Então, ele começa a passar uma partida, num aplicativo qualquer, para numa posição e tenta pensar numa variante (como na passagem do livro de Kotov), passados alguns momentos… ‘o que será que o computador diz desta posição?’ … lá se vai o estudo por conta própria. A longo prazo, ele perde não só o hábito de analisar, como também a confiança em seu julgamento.

Os próprios mestres andam sofrendo com isso. Tem a história recente de um GM que estudou com o computador uma longa variante de abertura para usar num torneio, memorizou tudo. Na partida, tanto ele como o adversário (outro GM) jogaram super-rápido, para deixar mais tempo para pensar na hora decisiva da partida. Resultado: o primeiro GM confundiu uma jogada, na ânsia de jogar a linha memorizada, acabou errando e ficando em posição perdida. Algo facilmente evitável para um jogador daquele nível se ele simplesmente parasse alguns instantes.
Mestres, mesmo campeões mundiais, podem ser presas dos efeitos nocivos do pensamento acelerado. (Fonte: Google, Fischer 1972)
Para reduzir os sintomas, os especialistas tem recomendado medidas bem simples, que podem ser adotadas por enxadristas e não enxadristas, e que consistem em voltarmos aos hábitos de alguns anos atrás: passar um bom tempo offline (vale ler livros em papel), praticar atividades lúdicas (partidas com peças, tabuleiro, relógio e adversários reais), exercitar o corpo (ir caminhando ou pedalando ao trabalho ou torneio), estar próximo de pessoas queridas (o que inclui encontrar os colegas enxadristas num clube) e meditar.

O tabuleiro real é ponto de encontro para amizades e conversas (acervo do autor - amigos enxadristas do RN)
Em especial, a própria prática do xadrez (com tabuleiro e peças reais) com amigos é uma excelente atividade lúdica para não enxadristas combaterem os sintomas da SPA.

Diz a antiga sabedoria popular que tudo demais é veneno, então, por que não reduzir um pouco o ritmo, o volume de tarefas e informações, os papos simultâneos em aplicativos de mensagem, parar de comer olhando para TV ou smartphone, ouvir um pouco o som do silêncio? Ali no fundo, por baixo de toda a confusão, você encontrará o seu melhor xadrez, ou futebol, ou karatê... em suma, encontrará a melhor versão de si mesmo.


Fontes de consulta:

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Maslow para Enxadristas (e para você)

Pirâmide de Necessidades de Maslow (wikipédia)

Em 1943 um psicólogo chamado Abraham Maslow criou uma teoria na qual elencava uma hierarquia de necessidades e desejos humanos com cinco níveis que, se alcançados, trariam realização pessoal e até mesmo felicidade. Este modelo ficou conhecido como Hierarquia (ou Pirâmide) das Necessidades de Maslow.

Nessa teoria, o primeiro nível é aquele composto de itens fundamentais à vida como alimentação, acesso à abrigo, sono etc. No nível seguinte, após o pleno acesso a todas as benesses do primeiro patamar, haveria a busca por coisas como propriedade, emprego e renda, estrutura familiar, princípios morais etc. Assim, todas as necessidades humanas são elencadas, até que no ápice da hierarquia vem a auto-realização, que seria quando o indivíduo obteve tudo o que está abaixo na pirâmide e, alem disso, sente-se no exercício pleno de todos os seus talentos, seus sonhos realizados.

A Pirâmide de Maslow pode ser adaptada para o caso do enxadrista de mais de uma maneira, uma delas é a seguinte:

Nível 1: movimenta as peças corretamente (inclusive roque e en passant); sabe quantas fases tem uma partida; aceita com alegria o epíteto de capivara; é permitido que participe dos torneios; só consegue acessar a parte mais externa de uma roda de análises.

Nível 2: não perde peças em armadilhas óbvias; entende um mínimo de estratégia (como o conceito de peões dobrados); tem afeição por uma ou duas aberturas de jogo; já vence pelo menos um outro mais capivara que ele próprio; é um rato de torneios de final de semana; é aceito no miolo de uma roda de análises.

Nível 3: já pensou em largar o xadrez pelo menos uma vez, mas passou, ama o jogo; domina a tática e tem boa noções gerais de temas estratégicos; tem um repertório de aberturas para brancas e pretas; sabe que precisa conhecer bem finais de partida; chia quando lhe chamam de capivara e já não é um adversário desejado para uma primeira rodada de torneio; é aceito no círculo interno da roda de análises, à borda da mesa, e até dá uns pitacos.

Neste momento, o xadrezista já começa a aspirar aos dois últimos níveis, “quer ser gente” como se diz. Com muita força de vontade, treinamento, sorte e prática, alguns chegam lá.

Nível 4: largou tudo pelo xadrez; tática e estratégia já são compreendidas como faces de uma mesma moeda; já não se limita a gostar de uma ou outra abertura, joga de tudo e muito bem, inclusive sem o tabuleiro; dorme com o livro de finais de peões do Maizelis; é admirado, já dizem que é um mestre; senta na mesa ao redor da qual se forma a roda de análises.

Nível 5: olha o tabuleiro e sabe, sem contar, quantas peças há sobre ele; escreve livros de tática e estratégia; vê o xadrez como uma extensão natural do pensamento; usa aberturas raras, até inferiores... e massacra; encontrou alguns erros no livro de finais do Dvoretsky; já lhe chamam grande mestre; os jogadores abrem-lhe o caminho até a mesa no centro da roda de análises, onde é convidado a sentar, ele dispensa, observa, dá sugestões benevolentes e certeiras; sabe que escolheu a variante certa para si no xadrez da vida.

Os paralelos são abundantes entre o jogo e a vida, também no que diz respeito à realização das necessidades, desejos e ideais. O sonho do enxadrista é o sonho de todo ser humano: ser um pouco feliz entre um lance e outro, se o adversário deixar!


domingo, 9 de outubro de 2016

A realidade, o xadrez e a matrix

- Isso não é real?
- O que é “real”? Como você define “real”? Se você está se referindo ao que você pode sentir, cheirar, provar e ver, então “real” não passa da interpretação de sinais elétricos pelo cérebro. Esse é o mundo que você conhece. O mundo como ele era no século XX. Ele agora existe apenas como uma simulação neurointerativa que nós chamamos MATRIX. Você vivia em um mundo de sonho, Neo.
(The Matrix, 1999. Diálogo entre Morpheus e Neo, tradução livre)
Vivemos todos no mesmo planeta, me parece razoável afirmar. Porém, este mundo real em que vivemos é percebido de forma diferente por cada um de nós. A realidade objetiva seria então como uma tela que contemplamos na parede de um museu, e voltamos para casa cada um com uma versão da obra, interpretada com base no que vimos e sentimos.

Mesmo em cenários mais simples que a vida, a realidade não consegue se impor de forma absoluta ao crivo dos sentidos, das crenças, do conhecimento acumulado, ou da falta dele. Um desses cenários pode ser o jogo de xadrez.

Façamos um experimento: tomemos os dois melhores jogadores de xadrez do mundo, coloquemos os dois perante um tabuleiro onde as peças já se encontram numa dada configuração, a que chamamos de posição. Neste caso, a posição faz o papel da realidade objetiva. O que eles diriam sobre ela? Eles concordariam?

Felizmente, podemos usar um caso real de uma partida do Campeonato Mundial de Xadrez de 1990, entre dois dos maiores enxadristas de todos os tempos, Garry Kasparov e Anatoly Karpov. Somos tão afortunados, que existe um documentário sobre esta disputa, no qual os dois grandes mestres explicam suas ideias em cada partida.

A vigésima partida daquele encontro foi decisiva para o desfecho do mundial. O ponto crucial é mostrado no diagrama abaixo, que mostra a posição após o vigésimo quinto lance das brancas:

Kasparov x Karpov (Lyon, 1990. P20): após 25. Cg4.
Vejamos o que eles disseram sobre a posição e sobre a jogada seguinte de Karpov (que tinha a vez e conduzia as peças pretas): 
  • Kasparov (aprox. 1:24:23): “Aqui o único lance é 25. ... Cd3 (...) Karpov jogou um lance natural 25. ... De8, que parece ser muito bom... prega meu cavalo, protege as casas brancas... (...), mas aqui a posição exigia o melhor lance (...) agora (após 25. ... De8) as brancas tem vantagem decisiva.” 
  • Karpov (aprox. 1:26:20): “Aqui, eu me sentia com posição muito boa, inclusive já considerava como eu poderia até mesmo vencer, mas eu deveria ter sido mais cuidadoso, como foi demonstrado na partida (...) eu deveria ter jogado 25. ... Cd3.”
Assim, durante a partida, os mestres divergiram sobre a natureza da posição e seu resultado provável: Kasparov via a posição como equilibrada, porém demandava cuidados por parte das pretas; Karpov já se sentia muito confortável, pensando que estava prestes a vencer.

Somente a posteriori, no dia que foram entrevistados para o documentário, ambos concordaram sobre a natureza da posição e sobre qual deveria ter sido a jogada correta das pretas. Foi como se o artista aparecesse na galeria e explicasse o que ele havia pintado: tudo ficou claro. 

É impressionante como dois especialistas podem divergir tanto quanto a um aspecto objetivo de sua área de expertise. Este exemplo nos mostra que as divergências de percepção e julgamento nas situações mais complexas da vida são inevitáveis. 

Vale lembrar ainda, no caso dos mestres de xadrez, que a realidade da posição pode ainda ser diferente do veredito final fornecido por ambos (um provável empate após 25. … Cd3). Um dia os computadores resolverão o jogo, e só então saberemos a resposta. A vida, felizmente, é mais complexa que o xadrez, mesmo (e especialmente) para os computadores.
A MATRIX não pode te dizer quem você é. (The Matrix, 1999. De Trinity para Neo, tradução livre)
Para nós resta compreender o pouco que nos é dado a desvendar da realidade e saber conviver com (e em certos casos, sobreviver a) a versão dos outros que participam conosco deste grande jogo da vida.

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LancesQI

O blog foi mudado para: www.LancesQI.com.br