domingo, 13 de novembro de 2016

Zürich 1953: um torneio, alguns livros, uma lenda

Capas das edições mais recentes em inglês (Amazon)
Existe no xadrez uma tradição que, apesar de sofrer algumas mudanças de formato ao longo da história, permanece fascinando jogadores de todos os níveis e aficionados: o Torneio de Candidatos.

Esta competição tem o objetivo único de escolher dentre os melhores enxadristas do Mundo aquele que terá a honra de desafiar o Campeão Mundial pelo título máximo do jogo. Somente à elite que emerge dentre os vencedores de campeonatos nacionais e continentais é permitido fazer parte do certame: eles são chamados de Candidatos. Pouquíssimos jogadores na história receberam esta honraria, dentre eles o Grande Mestre brasileiro Henrique Mecking (por 2 vezes).

Em 1953, foi realizado nos arredores da cidade suíça de Zurique aquele que é celebrado como o mais forte Torneio de Candidatos da história. Tomaram parte 15 grandes mestres, todos os mais fortes da época, um deles ex-campeão mundial (Max Euwe, Holanda), além de outros dois que viriam a ser campeões mundiais poucos anos depois (o vencedor do torneio, Vassily Smyslov e Tigran Petrossian, ambos soviéticos). Além da fantástica seleção de jogadores, o formato impressionava: todos jogaram duas vezes contra todos os oponentes, de forma que todos jogaram o mesmo número de partidas com peças brancas e com peças pretas.

Boa parte da mística deste torneio se deve aos livros escritos sobre ele por alguns dos participantes*. O mais famoso deles é o livro de David Bronstein (soviético, vice-campeão do mundo em 1951), traduzido para vários idiomas. Foi o primeiro livro de Bronstein, e ele comentou todas as partidas do torneio, 210 no total, com enfoque em posições típicas, principais planos de jogo e conceitos estratégicos. Ele pretendeu dar ao livro um formato quase literário e faz relativamente pouco uso de variantes longas nos comentários (para horror de alguns críticos). Esta abordagem só pode ser usada por um gênio como Bronstein, que compensa o menor rigor analítico com insights didáticos que deram celebridade ao livro.

Outro dos livros sobre o torneio permanece menos conhecido, apesar de ser considerado por alguns como ainda melhor que o de Bronstein, é o livro escrito por Miguel Najdorf. O genial grande mestre argentino (muito conhecido pela variante da Defesa Siciliana que leva seu nome) escreveu somente este livro em sua carreira. Najdorf se entregou à mesma árdua tarefa de comentar as 210 partidas, com enfoque mais analítico que Bronstein, sem deixar de falar de ideias estratégicas, além de aspectos psicológicos e práticos (como a administração do tempo de reflexão) que influem no desempenho num torneio longo como aquele, que teve 30 rodadas e durou quase 2 meses.


Um aspecto das rodadas inciais em 1953 (livro Najdorf)
Um dos motivos para a menor fama do excelente livro de Najdorf era o fato de ele estar disponível somente em espanhol. Recentemente, porém, foi lançada uma edição em inglês, e a popularidade da obra deve alcançar seu devido lugar.

Sobre esse lançamento, foi publicada uma revisão bastante desfavorável ao livro de Bronstein, o que me causou muita surpresa. O autor é o mestre internacional John Watson. Em sua resenha, ele dá muita ênfase à escassez de análises de variantes no livro de Bronstein (algo que foi feito de propósito pelo soviético, com explicado acima), e o considera omisso em algumas partidas nas quais Najdorf oferece maior quantidade de notas e informações.

Uma análise superficial pode ser tendenciosa, e é preciso ao menos dar um voto de confiança a um livro que tem sido um clássico por mais de 50 anos. Para uma justa e precisa comparação entre as duas obras, seria necessário ler os comentários das 210 partidas em ambos os livros, idealmente checar com um forte aplicativo de análise as variantes comentadas (e as omitidas). Desta forma, além de aprender muito da técnica e da história do xadrez, quem fizesse isso poderia, de forma muito bem embasada, tirar suas próprias conclusões sobre a qualidade dos livros.

Uma forma que encontrei de encurtar este esforço e lançar alguma luz sobre a questão, foi comparar as análises e comentários dos dois grandes mestres numa partida que jogaram um contra o outro no torneio. Assim, seria evitado qualquer viés dos autores (Bronstein afirma em seu livro que é muito mais difícil comentar as próprias partidas).

[Event "Torneio de Candidatos"] [White "Bronstein, David"] [Black "Najdorf, Miguel"] [Site "Zurich"] [Date "1953.08.31"] [Result "1/2-1/2"] [WhiteElo "2689"] [BlackElo "2684"] 1. d4 Nf6 2. c4 g6 3. Nc3 Bg7 4. e4 d6 5. Bg5 {[Najdorf] Aqui Bronstein me surpreendeu um pouco. Se costumava jogar 5. f3 ou 5. Cf3. Está claro que a agressiva jogada de bispo não pode ser castigada com 5. … h6 pelo debilitamento resultante na ala do rei.} c5 {[Najdorf] Prematuro. Era melhor continuar com a linha clássica 5. … 0-0, reservando a opção de atacar o centro com 'e5' ou mesmo 'c5' e esperar que as brancas denunciem suas intenções.} 6. d5 Na6 {[Najdorf] Melhor seria 6. … e6. Se 7. d×e6 B×e6 8. Cb5 0-0 9. D×d6 (ou C×d6) Cc6 e as pretas tem jogo ativo pelo peão sacrificado. [Bronstein] Muito já aconteceu nos primeiros seis lances. Aproveitando-se do desenvolvimento do bispo da dama branco para 'g5', em vez da casa usual 'e3', onde ele participa da luta por 'd4', as pretas rapidamente contra-atacam o centro com … c5. Como 6. d5 impediu o desenvolvimento do cavalo negro por 'c6', Najdorf agora pretende trazê-lo para 'c7', assim ele pode preparar … b5 com … a6. Isso custa um monte de tempo, entretanto, o resultado obtido é relativamente pequeno, comparado com o esforço desprendido. O cavalo ocupa uma posição passiva em c7, onde ele permanece sem uso por algum tempo. No final, ele quase faz as pretas perderem a partida.} (6... e6 7. dxe6 Bxe6 8. Nb5 O-O 9. Qxd6 (9. Nxd6) 9... Nc6) 7. Bd3 Nc7 { [Najdorf] Com esta manobra, trato de buscar a oportunidade de criar uma ruptura na ala da dama com 'b5'.} 8. Nge2 a6 9. a4 Rb8 10. O-O O-O 11. Qc2 Bd7 12. h3 {[Najdorf] Se neste momento 12. a5, então como na partida 12. … b5 13. a×b6 T×b6 … com pressão.} (12. a5 b5 13. axb6 Rxb6) 12... b5 { [Najdorf] Materializando a ideia da sétima jogada.} 13. f4 {[Najdorf] Começa o eterno tema desta abertura: ataque na ala do rei versus contra-ataque na ala da dama. Toda vez que as brancas conseguirem avançar seu peão do rei para 'e5' elas terão vantagem de espaço e melhores perspectivas. Por isso joguei: [Bronstein] A posição das peças pretas dá aos peões 'e' e 'f' uma irresistível tentação de avançar. As brancas estão conquistando mais e mais território; o peão agora em 'b5' compensa a duras penas a posição tolhida das pretas: por exemplo, compare as torres de 'f8' e 'f1'.} Nfe8 14. axb5 axb5 15. Ra7 bxc4 16. Bxc4 Ra8 $1 {[Najdorf] 16. Ta8! [Bronstein] 17. Tfa1 não pode ser permitido; mas agora as brancas conseguem trocar a única peça ativa das pretas.} 17. Rxa8 {[Najdorf] Bronstein não joga o natural 17. Tfa1 por causa da bela variante 17. … T×a7 18. T×a7 Db8 19. T×c7 D×c7! 20. B×e7 Ba4 ganhando.} (17. Rfa1 Rxa7 18. Rxa7 Qb8 19. Rxc7 Qxc7 20. Bxe7 Ba4 ) 17... Nxa8 18. Qb3 {[Najdorf] Impedindo o retorno do cavalo por 'b6' devido à ameaça B×e7. Então...} f6 {[Bronstein] Como a dama não pode permanecer para sempre presa à defesa do peão de 'e7', as pretas decidem dar um passo difícil: fechar o caminho de seu próprio bispo.} 19. Bh4 Qb6 {[Najdorf] Ofereço a troca de damas para retirar de Bronstein armas agressivas, já que ele dispõe de vantagem de espaço e posição superior.} 20. Qa3 Nec7 21. b3 Nb5 $2 {[Najdorf] 21. ... Cb5?. O correto seria 21. … Te8, porque era necessário prevenir a ruptura em 'e5', e então seria possível seguir f×e5.} (21... Re8) 22. Nxb5 Bxb5 23. f5 $1 {[Najdorf] 23. f5! [Bronstein] Pequenas vantagens, acumuladas pacientemente, deram corpo a um considerável ataque; com este lance as brancas iniciam sua busca por um fortalecimento decisivo de sua posição. A ameaça é 24. Cf4 g5 25. Ce6 g×h4 26. C×f8; adicionalmente, o último lance branco ajudou a fixar os peões pretos 'e' e 'f' em casas escuras. ***O restante do comentário abaixo só aparece na versão em inglês do livro de Bronstein*** Ainda assim, as brancas deveriam ter dedicado algum tempo para transferir seu bispo de casas escuras para uma outra diagonal. Ele já cumpriu o objetivo de induzir … f6 e poderia ter causado às pretas consideráveis dificuldades após 23. Be1. Também seria possível 23. Ta1, mas então as negras poderiam ter o lance … f5 em algum momento; não de imediato, pois 23. … f5 24. e5 d×e5 25. d6+ Rh8 26. d×e7 … etc.} (23. Be1) (23. Ra1 f5 24. e5 dxe5 25. d6+ Kh8 26. dxe7) 23... Bh6 {[Najdorf] Este lance é necessário para evitar Dc1 e as consequências do translado da dama à ala do rei.} 24. fxg6 hxg6 25. e5 $3 {[Najdorf] 25. e5!! Meu rival joga com toda alma e, mesmo pressionado pelo relógio, encontra uma magnífica continuação de ataque rompendo o bloqueio de peões pretos e liberando a casa 'e4' para seu cavalo.} Bxc4 26. bxc4 dxe5 27. Qd3 {[Bronstein] Por que as brancas sacrificaram este peão? Não poderiam as pretas iniciar um contra-ataque agora? Ainda não e, enquanto isso, as brancas precisam somente de dois ou três lances – Cc3 e Tb1, por exemplo – para dominar todos os pontos chave da ala da dama, e então tomar o peão de 'c5' ou 'e7'. O triste posicionamento do cavalo preto em 'a8' ajuda bastante às brancas na execução de seu plano.} (27. Bf2 Rc8 28. Qd3 Kg7 29. h4 {[Bronstein]}) 27... Kh7 {[Najdorf] Foi muito difícil para mim decidir se esta jogada era melhor que Rg7. Minha decisão se baseou no desejo de impedir (após Cc3-e4-Bf2-C×c5) que o cavalo chegasse a 'e6' com xeque.} 28. Nc3 Qb3 $1 {[Najdord] 28. ... Db3! A melhor resposta. Mesmo com um pão a mais minha posição era muito crítica. Se jogasse 28 … Cc7, Bronstein ameaçava 29. Tb1 Da3 30. Ce4 com posição ganhadora. [Bronstein] Os últimos dois lances brancos não foram ruins, mas poderiam ter sido um pouco melhores, por exemplo 27. Bf2 Tc8 28. Dd3 Rg7 29. h4 … Agora, Najdorf encontra um modo de complicar taticamente a partida e, mais importante, trocar as damas, o que facilita a defesa.} (28... Nc7 29. Rb1 Qa6 30. Ne4 {[Najdorf]}) 29. Rb1 e4 30. Rxb3 exd3 31. Rb7 $1 {[Najdorf] 31. Tb7!} Kg8 {[Najdorf] Única, outra vez.} 32. Kf2 { [Najdorf] Evidentemente, não era vantajoso tomar o peão do rei libertando o cavalo de 'a8'. [Bronstein] Obviamente, as brancas não tomam o peão para não permitir que o cavalo preto saia do isolamento em seu canto distante.} Bf4 $1 {[Najdorf] 32. ... Bf4!} 33. Kf3 {[Najdorf] Se 33. Bg3 B×g3+ 34. R×g3 Tc8! 35. T×e7 Cb6 36. Te4 f5 37. Tf4 d2 38. Rf2 Te8, melhor para as pretas.} ( 33. Bg3 Bxg3+ 34. Kxg3 Rc8 35. Rxe7 Nb6 36. Re4 f5 37. Rf4 d2 38. Kf2 Re8 { [Najdorf]}) 33... Rb8 34. Rxb8+ {[Najdorf] Tomar o peão do rei poderia levar ao empate da seguinte maneira: 34. T×e7 g5 35. Bf2 Tb3 36. Ce4 d2+ 37. Re2 Td3 38. Rd1 Cb6 39. C×f6+ Rf8 40. B×c5 Ca4 41. Ch7+ Rg8 42. Cf6+ … etc. Agora a tensão se afrouxa consideravelmente.} (34. Rxe7 g5 (34... Rb3 { [Bronstein]} 35. Bxf6) (34... Bd6 35. Re6 Be5 36. Bxf6 Bxc3 37. Bxc3 Rb3 38. Ba5 $1 {[Bronstein]}) 35. Bf2 Rb3 36. Ne4 d2+ 37. Ke2 Rd3 38. Kd1 Nb6 39. Nxf6+ Kf8 40. Bxc5 Na4 41. Nh7+ Kg8 42. Nf6+ {[Najdorf]}) 34... Bxb8 {[Bronstein] Praticamente toda a vantagem branca desapareceu após a troca de torres. Melhor seria 34. T×e7 Tb3 35. B×f6 ou 34. … Bd6 35.Te6 Be5 36. B×f6 B×c3 37. B×c3 Tb3 38.Ba5! As brancas superestimaram a força do peão em 'd3' quando rejeitaram a continuação acima, entretanto seu próprio peão de 'd5' teria sido muito mais perigoso. A melhor variante de todas teria sido 33. Bg3 ao invés de 33. Rf3, oferecendo a troca de bispos. As brancas não previram a resposta preta 33. … Tb8.} 35. Na4 Bd6 36. Bf2 Kf7 37. Ke3 Nc7 38. Kxd3 Na6 39. Ke4 f5+ 40. Kf3 e6 41. Nb6 {[Najdorf] Empate, já que após 41. … e5, não havia maneira de forçar a partida.}
Revisar a partida sob a ótica desses dois lendários mestres é muito enriquecedor. Percebe-se o respeito mútuo, o profundo conhecimento estratégico, a tática aguçada, a honradez dos mestres. Por exemplo, Bronstein em momento algum se refere ao fato de ter pouco tempo restante no relógio para explicar algum erro seu, enquanto Najdorf cita que ele estava com pouco tempo, mas mesmo assim encontrou a melhor continuação no lance 25 (ao qual deu duas exclamações '!!' - aliás, Najdorf é muito mais afeito ao uso de '?' e '!' em suas notas).

Existem diferenças, claro. Por exemplo nos lances 12 e 17, Bronstein considera desnecessário mostrar algumas variantes (provavelmente porque considerou fáceis de visualizar), em outros as análises divergem, como no lance 33. A verdade, porém, é que a partida fica muito mais instrutiva quando são unidas as notas, que se complementam.

Há sempre pelo menos duas formas de fazer qualquer coisa na vida, assim como no xadrez. Há os que começam com o peão do rei e outros com o peão da dama, há os destros e os canhotos, há pessoas analíticas e as intuitivas. Assim, não vejo como desmerecer um livro frente ao outro. Bronstein e Najdorf são fieis aos estilos segundo os quais viveram suas vidas e moveram suas peças. Esta dualidade não diminuiu em nada a qualidade de suas obras, ambos apenas enriqueceram o mundo com seus lances, ideais e palavras.

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*Há ainda os livros escritos por Max Euwe e Gideon Stahlberg que estão disponíveis apenas em antigas edições nas línguas maternas dos autores.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Os Bispos de Lasker

Dr. Em. Lasker x J. H. Bauer, Amsterdam 1889
Posição após 13. ... a6
FEN: r4rk1/1b2bppp/ppq1pn2/2ppB3/5P2/1P1BP1N1/P1PPQ1PP/R4RK1 w - - 0 14

Algumas partidas se tornam famosas por belas combinações, por seu peso para o resultado de um torneio ou por mudar a vida de alguém. Em 1889, o então promissor aspirante ao título de Campeão Mundial, Dr. Emanuel Lasker jogou contra Johan Bauer (forte mestre austríaco à época) uma partida que se celebrizou por ter popularizado um novo tema tático, belo e poderoso. Se a Partida Imortal se eternizou pelo duplo sacrifício de torres, esta entrou para a história por causa de um sacrifício duplo de bispos.

Campeão Mundial por 27 anos (de 1894 a 1921, um recorde), Lasker foi um dos mais fortes enxadristas da história. Além disso, foi um dos últimos campeões com múltiplos talentos, sendo doutor em matemática, filósofo e grande mestre de xadrez. Lasker, aliás, estava no grupo de cinco jogadores aos quais o Czar russo Nicolau II se referiu ao cunhar o termo ‘Grande Mestre’, quando se dirigia aos cinco melhores colocados no Torneio de São Petesburgo de 1914. Um título que se tornou tão significativo que foi oficialmente adotado pela federação  internacional anos depois. Johan Hermann Bauer deixou pouca informação a seu respeito e, no xadrez, foi mais um a seguir a triste sina de Kieseritzky, passando à posteridade como o derrotado de uma partida fantástica.

Na posição acima, as brancas possuem vantagem de espaço e mobilidade plena de suas peças. Especialmente o par de bispos, que exerce forte pressão sobre o esconderijo do rei negro, tal dois canhões contra uma muralha indefesa. Porém, sem uma rápida providência, as negras podem avançar seu peão da dama, já com forte ação na grande diagonal branca, equilibrando a posição.

Lasker encontrou uma continuação avassaladora: 14. Ch5! Cxh5 (se 14 … d4 15. Bxf6 Bxf6 16. Dg4 Rh8 17. Tf3 e5 18. Bxh7 … com forte ataque) 15. Bxh7+! Rxh7 (se não tomar o bispo, fica como desafio descobrir, é mate em 4 jogadas) 16. Dxh5+ Rg8 17. Bxg7 Rxg7 (novamente, não tomar o bispo leva a um mate forçado em… 8 jogadas!) 19. Dg4 + Rh7 20. Tf3 … As pretas são forçadas a entregar material de volta para não levar mate e a partida se decide facilmente para as brancas. 20. … e5 (única) 21. Th3+ Dh6 22. Txh6 Rxh6 22. Dd7 … (retomando um dos bispos) 22. … Bf6 Dxb7 e as pretas abandonaram 14 lances depois.

Depois desta partida, o sacrifício do par de bispos contra o roque se tornou um tema muito conhecido  (inclusive, há um livro a respeito) que deve fazer parte do repertório tático de todo jogador, sob risco de ser pego desprevenido, como já se viu até mesmo em outros embates magistrais: Alekhine x Drewitt (1923) e Nimzowitsch x Tarrasch (1914). Este último, aliás, recebeu Prêmio de Beleza no Torneio de São Petesburgo (já citado acima). Conta-se que, quando foi votado o prêmio, Dr. Tarrasch (que nutria  por Lasker um profundo desafeto) perguntou se ele votaria por sua partida, ao que Lasker (em 1914 já Campeão do Mundo) teria respondido: “Claro que sim, sem dúvidas! Afinal uma partida assim só se vê a cada… 25 anos!”. 


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sábado, 29 de outubro de 2016

Pensamento acelerado é pensamento?

‘Mas, vocês sabem como analisar variantes?’ Eu perguntei aos meus ouvintes e, sem dar-lhes tempo de responder, eu continuei. ‘Vou mostrar-lhes como analisar variantes e se por acaso eu estiver errado, então me interrompam. Vamos supor que numa dada posição em sua partida, você precise escolher entre dois lances Td1 ou Cg5. Qual deles você deve jogar? Você senta confortavelmente eu sua cadeira e inicia a análise dizendo silenciosamente para si os lances possíveis: ‘Bem, eu poderia jogar Td1 e ele provavelmente jogará … Bb7, ou poderá tomar meu peão da coluna a, que agora estará desprotegido. O que depois? Esse nova posição me agrada?’. Você segue uma jogada além em sua análise e então faz uma cara de desagrado – o lance de torre não parece bom. Então, você passa ao lance de cavalo. ‘E se eu jogar Cg5? Ele pode expulsar o cavalo com … h6, eu jogo Ce4, ele captura o cavalo com o Bispo. Eu recapturo, e ele ataca minha dama com sua torre. Isso não parece muito bom… então o lance de cavalo não é tão bom. Vamos checar o lance de torre de novo. Se ele joga … Bb7 eu posso responder com f3, mas o que fazer se ele capturar meu peão de a? O que posso fazer em seguida? Não, o lance de torre não é bom, eu tenho que checar o lance de cavalo novamente. Então, Cg5 h6; Ce4 B×e4; D×e4 Td4. Não, não é bom! Eu não devo mover o cavalo. Tente o lance de torre mais uma vez. Td1 D×a2’ . Neste ponto, você olha para o relógio. ‘Meu Deus, já se passaram 30 minutos pensando se movo a torre ou o cavalo’. Se você continuar assim, acabará nos apuros de tempo. Subitamente você se depara com uma ideia feliz – por que mover a torre ou o cavalo? ‘Que tal Bb1?’. E, sem análise alguma, você move o bispo, assim mesmo, praticamente sem nenhuma consideração.

Alexander Kotov (1971) - Think Like a Grandmaster (tradução livre)

A passagem acima inicia um dos maiores clássicos da literatura de xadrez no mundo, Pense como um Grande Mestre (GM), escrito pelo GM soviético Alexander Kotov nos anos 1970. Nesse livro, ele apresentou ao enxadrista comum o conceito (e a técnica) de lance candidato e árvore de variantes. A audiência de Kotov, ao final da passagem acima, aplaudiu o mestre efusivamente, tamanha a exatidão com que ele descreveu o pensamento do jogador comum (inclusive o dele mesmo antes de alcançar a maestria).

Em sua descrição do pensamento do jogador comum durante uma partida, Kotov já antecipava o problema da falta de concentração e profundidade de raciocínio, algo que foi se acentuando com o tempo e que hoje acomete grande parte da população, enxadristas ou não. São diversas alterações que estão associadas à sobrecarga de informações, falta de controle da ansiedade, acúmulo de atividades. Algumas dessas alterações tem sido, inclusive, tratadas como distúrbios.

Um desses distúrbios é conhecido como Síndrome do Pensamento Acelerado (SPA), conforme nomeada pelo psiquiatra brasileiro Augusto Cury. Esta síndrome acomete principalmente pessoas submetidas a um trabalho intelectual intenso, que precisam de muita concentração, sujeitas à entrega de resultados sob pressão (justamente como numa partida ou torneio de xadrez). A SPA é um transtorno na organização e controle do pensamento causado pelo ritmo acelerado de vida que se tem atualmente, com exposição da mente a uma quantidade exagerada de estímulos e informações, de forma que a atenção fica “chaveando” entre esses estímulos sem conseguir o foco e a permanência necessária para resolver propriamente qualquer questão antes de passar à próxima.

Os efeitos da SPA sobre o organismo são diversos e nefastos: mente inquieta, ansiedade, falta de sono, sofrimento por antecipação (‘e se ele tomar meu peão da coluna a?’), reagir sem refletir propriamente (‘Por que não Bb1?’), cansaço físico intenso, queda na resiliência e redução da capacidade de se colocar na posição do outro (o que importantíssimo no xadrez!).

O enxadrista pode sofrer com alguns sintomas específicos. Em geral, ele não usa mais tabuleiro para treinar, logicamente, pois o smartphone, o tablet e o computador estão aí, à mão. Então, ele começa a passar uma partida, num aplicativo qualquer, para numa posição e tenta pensar numa variante (como na passagem do livro de Kotov), passados alguns momentos… ‘o que será que o computador diz desta posição?’ … lá se vai o estudo por conta própria. A longo prazo, ele perde não só o hábito de analisar, como também a confiança em seu julgamento.

Os próprios mestres andam sofrendo com isso. Tem a história recente de um GM que estudou com o computador uma longa variante de abertura para usar num torneio, memorizou tudo. Na partida, tanto ele como o adversário (outro GM) jogaram super-rápido, para deixar mais tempo para pensar na hora decisiva da partida. Resultado: o primeiro GM confundiu uma jogada, na ânsia de jogar a linha memorizada, acabou errando e ficando em posição perdida. Algo facilmente evitável para um jogador daquele nível se ele simplesmente parasse alguns instantes.
Mestres, mesmo campeões mundiais, podem ser presas dos efeitos nocivos do pensamento acelerado. (Fonte: Google, Fischer 1972)
Para reduzir os sintomas, os especialistas tem recomendado medidas bem simples, que podem ser adotadas por enxadristas e não enxadristas, e que consistem em voltarmos aos hábitos de alguns anos atrás: passar um bom tempo offline (vale ler livros em papel), praticar atividades lúdicas (partidas com peças, tabuleiro, relógio e adversários reais), exercitar o corpo (ir caminhando ou pedalando ao trabalho ou torneio), estar próximo de pessoas queridas (o que inclui encontrar os colegas enxadristas num clube) e meditar.

O tabuleiro real é ponto de encontro para amizades e conversas (acervo do autor - amigos enxadristas do RN)
Em especial, a própria prática do xadrez (com tabuleiro e peças reais) com amigos é uma excelente atividade lúdica para não enxadristas combaterem os sintomas da SPA.

Diz a antiga sabedoria popular que tudo demais é veneno, então, por que não reduzir um pouco o ritmo, o volume de tarefas e informações, os papos simultâneos em aplicativos de mensagem, parar de comer olhando para TV ou smartphone, ouvir um pouco o som do silêncio? Ali no fundo, por baixo de toda a confusão, você encontrará o seu melhor xadrez, ou futebol, ou karatê... em suma, encontrará a melhor versão de si mesmo.


Fontes de consulta:

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Maslow para Enxadristas (e para você)

Pirâmide de Necessidades de Maslow (wikipédia)

Em 1943 um psicólogo chamado Abraham Maslow criou uma teoria na qual elencava uma hierarquia de necessidades e desejos humanos com cinco níveis que, se alcançados, trariam realização pessoal e até mesmo felicidade. Este modelo ficou conhecido como Hierarquia (ou Pirâmide) das Necessidades de Maslow.

Nessa teoria, o primeiro nível é aquele composto de itens fundamentais à vida como alimentação, acesso à abrigo, sono etc. No nível seguinte, após o pleno acesso a todas as benesses do primeiro patamar, haveria a busca por coisas como propriedade, emprego e renda, estrutura familiar, princípios morais etc. Assim, todas as necessidades humanas são elencadas, até que no ápice da hierarquia vem a auto-realização, que seria quando o indivíduo obteve tudo o que está abaixo na pirâmide e, alem disso, sente-se no exercício pleno de todos os seus talentos, seus sonhos realizados.

A Pirâmide de Maslow pode ser adaptada para o caso do enxadrista de mais de uma maneira, uma delas é a seguinte:

Nível 1: movimenta as peças corretamente (inclusive roque e en passant); sabe quantas fases tem uma partida; aceita com alegria o epíteto de capivara; é permitido que participe dos torneios; só consegue acessar a parte mais externa de uma roda de análises.

Nível 2: não perde peças em armadilhas óbvias; entende um mínimo de estratégia (como o conceito de peões dobrados); tem afeição por uma ou duas aberturas de jogo; já vence pelo menos um outro mais capivara que ele próprio; é um rato de torneios de final de semana; é aceito no miolo de uma roda de análises.

Nível 3: já pensou em largar o xadrez pelo menos uma vez, mas passou, ama o jogo; domina a tática e tem boa noções gerais de temas estratégicos; tem um repertório de aberturas para brancas e pretas; sabe que precisa conhecer bem finais de partida; chia quando lhe chamam de capivara e já não é um adversário desejado para uma primeira rodada de torneio; é aceito no círculo interno da roda de análises, à borda da mesa, e até dá uns pitacos.

Neste momento, o xadrezista já começa a aspirar aos dois últimos níveis, “quer ser gente” como se diz. Com muita força de vontade, treinamento, sorte e prática, alguns chegam lá.

Nível 4: largou tudo pelo xadrez; tática e estratégia já são compreendidas como faces de uma mesma moeda; já não se limita a gostar de uma ou outra abertura, joga de tudo e muito bem, inclusive sem o tabuleiro; dorme com o livro de finais de peões do Maizelis; é admirado, já dizem que é um mestre; senta na mesa ao redor da qual se forma a roda de análises.

Nível 5: olha o tabuleiro e sabe, sem contar, quantas peças há sobre ele; escreve livros de tática e estratégia; vê o xadrez como uma extensão natural do pensamento; usa aberturas raras, até inferiores... e massacra; encontrou alguns erros no livro de finais do Dvoretsky; já lhe chamam grande mestre; os jogadores abrem-lhe o caminho até a mesa no centro da roda de análises, onde é convidado a sentar, ele dispensa, observa, dá sugestões benevolentes e certeiras; sabe que escolheu a variante certa para si no xadrez da vida.

Os paralelos são abundantes entre o jogo e a vida, também no que diz respeito à realização das necessidades, desejos e ideais. O sonho do enxadrista é o sonho de todo ser humano: ser um pouco feliz entre um lance e outro, se o adversário deixar!


domingo, 9 de outubro de 2016

A realidade, o xadrez e a matrix

- Isso não é real?
- O que é “real”? Como você define “real”? Se você está se referindo ao que você pode sentir, cheirar, provar e ver, então “real” não passa da interpretação de sinais elétricos pelo cérebro. Esse é o mundo que você conhece. O mundo como ele era no século XX. Ele agora existe apenas como uma simulação neurointerativa que nós chamamos MATRIX. Você vivia em um mundo de sonho, Neo.
(The Matrix, 1999. Diálogo entre Morpheus e Neo, tradução livre)
Vivemos todos no mesmo planeta, me parece razoável afirmar. Porém, este mundo real em que vivemos é percebido de forma diferente por cada um de nós. A realidade objetiva seria então como uma tela que contemplamos na parede de um museu, e voltamos para casa cada um com uma versão da obra, interpretada com base no que vimos e sentimos.

Mesmo em cenários mais simples que a vida, a realidade não consegue se impor de forma absoluta ao crivo dos sentidos, das crenças, do conhecimento acumulado, ou da falta dele. Um desses cenários pode ser o jogo de xadrez.

Façamos um experimento: tomemos os dois melhores jogadores de xadrez do mundo, coloquemos os dois perante um tabuleiro onde as peças já se encontram numa dada configuração, a que chamamos de posição. Neste caso, a posição faz o papel da realidade objetiva. O que eles diriam sobre ela? Eles concordariam?

Felizmente, podemos usar um caso real de uma partida do Campeonato Mundial de Xadrez de 1990, entre dois dos maiores enxadristas de todos os tempos, Garry Kasparov e Anatoly Karpov. Somos tão afortunados, que existe um documentário sobre esta disputa, no qual os dois grandes mestres explicam suas ideias em cada partida.

A vigésima partida daquele encontro foi decisiva para o desfecho do mundial. O ponto crucial é mostrado no diagrama abaixo, que mostra a posição após o vigésimo quinto lance das brancas:

Kasparov x Karpov (Lyon, 1990. P20): após 25. Cg4.
Vejamos o que eles disseram sobre a posição e sobre a jogada seguinte de Karpov (que tinha a vez e conduzia as peças pretas): 
  • Kasparov (aprox. 1:24:23): “Aqui o único lance é 25. ... Cd3 (...) Karpov jogou um lance natural 25. ... De8, que parece ser muito bom... prega meu cavalo, protege as casas brancas... (...), mas aqui a posição exigia o melhor lance (...) agora (após 25. ... De8) as brancas tem vantagem decisiva.” 
  • Karpov (aprox. 1:26:20): “Aqui, eu me sentia com posição muito boa, inclusive já considerava como eu poderia até mesmo vencer, mas eu deveria ter sido mais cuidadoso, como foi demonstrado na partida (...) eu deveria ter jogado 25. ... Cd3.”
Assim, durante a partida, os mestres divergiram sobre a natureza da posição e seu resultado provável: Kasparov via a posição como equilibrada, porém demandava cuidados por parte das pretas; Karpov já se sentia muito confortável, pensando que estava prestes a vencer.

Somente a posteriori, no dia que foram entrevistados para o documentário, ambos concordaram sobre a natureza da posição e sobre qual deveria ter sido a jogada correta das pretas. Foi como se o artista aparecesse na galeria e explicasse o que ele havia pintado: tudo ficou claro. 

É impressionante como dois especialistas podem divergir tanto quanto a um aspecto objetivo de sua área de expertise. Este exemplo nos mostra que as divergências de percepção e julgamento nas situações mais complexas da vida são inevitáveis. 

Vale lembrar ainda, no caso dos mestres de xadrez, que a realidade da posição pode ainda ser diferente do veredito final fornecido por ambos (um provável empate após 25. … Cd3). Um dia os computadores resolverão o jogo, e só então saberemos a resposta. A vida, felizmente, é mais complexa que o xadrez, mesmo (e especialmente) para os computadores.
A MATRIX não pode te dizer quem você é. (The Matrix, 1999. De Trinity para Neo, tradução livre)
Para nós resta compreender o pouco que nos é dado a desvendar da realidade e saber conviver com (e em certos casos, sobreviver a) a versão dos outros que participam conosco deste grande jogo da vida.

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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O Jogo da Criação


Algumas vezes, nas Esferas Celestes, havia tanta, mas tanta paz, que Deus se sentia entediado. Os anjos tentavam de tudo: canto, exibições de circo, balé, etc, mas era difícil remover o Criador de seu tédio.

Foi, então, que surgiram os jogos, invenção dos anjos, para tentar dar alguma distração ao seu Mestre.

A princípio, Deus gostou da novidade e experimentou todos os jogos que apareceram, tendo por adversários os próprios querubins. Primeiro foi um jogo de palitinhos, cujo objetivo era adivinhar quantos deles havia na mão de cada jogador. Ora, sendo Deus tão mais esperto que seus anjos, e ainda onisciente, esse jogo rapidamente perdeu a graça.

Tentaram jogos com dados, explicando ao Criador que eram instrumentos capazes de incluir incerteza nos resultados, o que era bastante útil quando se tratava de jogar contra a própria onisciência. Acontece que Deus, ao contrário da crença comum, jogava dados muito bem e conseguia sempre tirar os números que desejasse. Portanto, nada de incerto havia para ele, apenas para seus menos hábeis adversários angelicais. O mesmo aconteceu quando passaram ao carteado, apesar de que neste caso, o Criador precisou usar das artimanhas do blefe para vencer algumas partidas em que se distraiu no trato com as cartas.

Essa miríade de jogos fatalmente chegou a um jogo de tabuleiro, com peças redondas, chamado de jogo de Damas. Excelente matemático que é, Deus logo percebeu que era um jogo com muitas possibilidades, mas, para Ele, não era grande coisa: apenas meio sextilhão de posições possíveis. Ainda assim, por vezes, o jogo foi capaz de distraí-lo. O problema é que, por natureza, os anjos não sentiam vontade alguma de vencer seu Criador. Isso, além da infinita capacidade divina, tornava impossível para Deus ser derrotado. E ganhar sempre, até para o Onipotente, enjoa.

Foi quando chegou o Anjo Caído, com um tabuleiro como o de Damas, porém as figuras que se moviam sobre ele eram bastante diversas, assim como os movimentos de cada uma. Rapidamente, Deus calculou que se tratava de um jogo com mais possibilidades que átomos no universo, e talvez trouxesse algum desafio. Além disso, por ser um dissidente, Deus sabia que aquele antigo anjo seria muito mais combativo. Tratava-se do Jogo das Seis Aflições, depois conhecido como Xadrez.

Jogaram a primeira partida. Deus tinha as peças brancas, e começou com o peão do rei. O Anjo da Discórdia tentou respostas simétricas, sem saber que, a cada lance, a vantagem continuava com o Criador. Por fim, uma combinação fatal de sete movimentos surgiu: seis sacrifícios seguidos de peças e um mate com o cavalo, a única peça que restava para o condutor das figuras brancas.

Insatisfeito, o ex-anjo solicitou revanche, com troca de cores, e começou a segunda partida com o peão da dama. As peças moviam-se tão rapidamente que apenas os dois jogadores conseguiam entender o que se passava. A plateia angelical mantinha silêncio e, mal eles tentavam entender uma jogada, já outra era feita no tabuleiro. Quando restavam apenas poucas peças, Deus tinha um peão de vantagem, Lúcifer jogou seu cavalo na quinta casa do bispo do rei, xeque! Os anjos empalideceram, o rei do Rei estava em perigo, mas uma defesa hábil anulou as ameaças, e a vitória veio logo depois, quando o peão a mais chegou aos confins do tabuleiro e se tornou uma dama.

O anjo caído não podia mais disfarçar sua ira, duas derrotas seguidas era algo que nunca lhe acontecera. Como Deus recusasse uma nova partida, uma ideia macabra começou a formar-se na mente do Grande Tentador.

— Senhor, fui tolo em achar que seria páreo para tua infinita sabedoria. E sou indigno de uma nova tentativa, na qual certamente eu sairia derrotado mais uma vez.
Deus ouviu o falso bajulador com indiferença, mas apenas até as palavras seguintes, que Lhe causaram um estranho interesse.

— É claro, Grandioso Criador, que seria diferente se não fosses Tu o meu adversário direto, se Tu fosses apenas um Ser inspirador, mas que não fossem tuas as decisões das jogadas sobre o tabuleiro.

— O que estás a insinuar, Lúcifer?

— Apenas deixa que eu jogue contra peças vivas, de próprio e livre arbítrio, que apenas sejam inspiradas por tua Vontade, mas que seja delas a decisão final.

— Somente os anjos são parte viva de minha Criação, e mesmo um deles conseguiu me descontentar. Por que Eu daria vida a outros seres, meras peças num jogo tolo?

— Será que duvidas, ó Grandioso, que tua simples inspiração sobre as figuras não é suficiente para me vencer nesse jogo?

Vis palavras, porém certeiras.

Como muito tempo depois viria a repetir-se, num episódio envolvendo um certo Jó, o desafio do malfeitor foi aceito. Deus soprou sobre o tabuleiro, que num grande novo mundo se tornou. As figuras, tomaram vida, e logo perceberam que eram donas do supremo dom da vontade. O primeiro movimento foi do grande tentador, e teve algo a ver com um fruto proibido.

Assim, à guisa de entretenimento divino, começou a história dos homens. Condenados a viver num jogo entre as forças do mal e do bem. Numa disputa que parece infinita.

Porém, como séculos para os homens são apenas segundos para o Criador, é bem capaz que a partida já se tenha encerrado lá nos hiperplanos celestiais. Mas, para nós, meros peões animados, o resultado permanecerá um mistério até o final.


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domingo, 25 de setembro de 2016

Peça tocada...


Sempre vou lembrar da história do Isaías.

Ele era um jogador esforçado, mas pouco hábil, que mantinha a persistência tão somente pelo enorme amor pelo jogo, além de ter no convívio com os outros jogadores a ilusão de uma vida social.

Jogadores são tipos cruéis, brincam com a inabilidade alheia, nunca com a própria. Isaías apenas olhava, à margem, as discussões principais, as rodinhas nas mesas onde os melhores jogadores explicavam os porquês de suas jogadas.

Engraçado perceber como aqueles que se julgavam melhores que os demais se comportavam na mesa de jogo, ao explicar suas ideias: tinham um ar orgulhoso e firme para disfarçar o puro blefe e se empenhavam em ignorar as perguntas pertinentes, mas inoportunas, daqueles aos quais escapavam seus brilhantismos postiços. Capivaras, era como eles chamavam aqueles menos hábeis com as peças, talvez em analogia à simplória mansidão do grande mamífero nacional.

Acontece que todo capivara tem um dia de mestre, seja por inspiração, descuido ou prepotência do adversário, pura sorte ou mandinga. Há dias em que, ao alinhar os Peões na segunda fileira, alinham-se também os astros na conformação exata, com o sol na Casa da Fortuna do jogador menos laureado. Isaías não foi exceção, e seu caso é lembrado até hoje, nas rodas de conversas, em torno das mesas onde se jogam partidas rápidas.

Era a primeira rodada do torneio, que é normalmente quando acontecem os confrontos mais discrepantes, e os capivaras têm sua chance de enfrentar os favoritos. Isaías saiu do trabalho direto para o local dos jogos. No ônibus, ele deu uma espiada numa revista que mostrava a mais recente novidade da defesa Siciliana, sua predileta. Como diria um campeão local, se capivara tivesse estilo, Isaías seria um jogador de ataque!

Ao chegar no salão, correu até o quadro onde já estava pregada uma folha com o emparceiramento do dia, fora pareado justamente contra o atual campeão estadual, um adversário difícil no tabuleiro e fora dele, pela forma pândega de tratar os derrotados após as partidas. Para completar, Isaías jogaria com as peças pretas.

Na hora marcada, dezenove horas, Isaías apertou seu relógio e aguardou a chegada do adversário, que chegou cinco minutos depois e não disfarçou o meio sorriso de satisfação ao saber contra quem jogaria.

Entraram na mesma linha de jogo que Isaías vira na revista e, como quem não tem nada a perder, ele fez a jogada nova sem ter ao menos revisado as principais continuações possíveis. Seu adversário, que mal jogava já se levantava para passear pelo salão e olhar outros tabuleiros, voltou ao ver que lhe tocava jogar. Ignorou qualquer mudança considerável ao que estava acostumado, jogou o óbvio roque, pressionou o relógio, anotou a jogada na súmula e levantou novamente.

Isaías ficou olhando para o tabuleiro, o coração acelerou, a revista dizia que aquela jogada era um erro, mas ele não lembrava o porquê. Ficou se maldizendo mentalmente enquanto se esforçava para encontrar o furo. O tic-tac do relógio analógico parou de ser ouvido, e Isaías entrou num raro estado de concentração, imaginando peças se movendo, eram muitas as variantes possíveis... Já se passavam quinze minutos, seu adversário vez por outra passava pela mesa para checar se já era sua vez. Na rua passou um carro de som tocando aquela música do Chico Buarque, Mulheres de Atenas, daí veio à mente a Guerra de Tróia, Cavalo de Tróia... uma oferta de um Cavalo para se infiltrar na posição inimiga... De repente, ele lembrou do que dizia a revista: “com este elegante sacrifício de Cavalo, as pretas expõem o Rei inimigo de forma irrevogável”. Pegou seu Cavalo e comeu o Peão imediatamente à frente do Rei inimigo.

O adversário voltou e arregalou os olhos ao ver seu Rei sendo peitado por um Cavalo preto. Desta vez sentou com semblante mais sério, olhou para Isaías, que ainda escrevia sua jogada na súmula da partida, e pôs-se a pensar pela primeira vez naquele jogo.

A partir daí, acabou-se o sossego de Isaías; é uma dificuldade vencer as partidas ganhas, porque se tem a impressão que o adversário vai ver tudo, vai se defender da melhor forma e, cada vez que se tem a vez, é difícil afastar a sensação de que não se vê a melhor jogada.

As outras partidas do torneio foram acabando, e os outros jogadores foram se amontoando em torno da mesa de Isaías, o que aumentava seu nervosismo. Mas a audiência seguia o ancestral hábito de torcer pelo mais fraco e se contorcia ao ver alguns erros de Isaías, que podia arrematar de vez a questão e não o fazia!

No Xadrez, como na vida, uma grande vantagem permite margem a jogadas menos exatas, que vão reduzindo as opções vencedoras, vai ficando mais raro o direito ao lance menos forte, até que chega um momento em que só existe uma jogada para ganhar, as outras todas perdem. Um desses casos estava ali posto diante da audiência e dos dois jogadores. Isaías suava frio e pensava, tinha menos de cinco minutos para acabar seu tempo, escolheu uma jogada de Bispo, não era a correta. A mão foi se dirigindo ao Bispo e a audiência, já que sempre é mais fácil ganhar as partidas dos outros, se retorceu a ver que ele ia mover a peça errada. No meio do caminho, porém, pela pressa, a mão de Isaías roçou uma Torre, que estava mais afastada do foco do ataque, e parecia menos ameaçadora.

- Peça tocada é peça jogada! - Gritou o oponente, sabendo que aquilo certamente abalaria Isaías.

Isaías olhou em volta e viu o árbitro assentindo com a cabeça, ele teria que mover a Torre.

O ânimo acabou, viu-se perdido, quase sem tempo, precisando pensar do zero uma jogada de Torre. Sentiu que não havia jeito, olhou a súmula e pensou em abandonar a partida. O peso se foi, sentiu-se livre.

Olhou a Torre de novo, podia dar um xeque, depois outro… espere um pouco, só depois o Bispo vai… Tem xeque-mate!

Com um minuto no relógio, Isaías deu xeque com a Torre e anunciou:

- Mate em três jogadas.

A torcida continha a custo os comentários e a euforia. O adversário arregalou novamente os olhos, pensou um pouco, já que tinha muito tempo ainda a seu dispor, mas não viu jeito. Tem horas no Xadrez que, depois que a posição já está posta sobre o tabuleiro, as coisas são como 1 + 1.

Inclinou o Rei, apertou a mão de Isaías e saiu mal humorado.

Foi a glória, todos parabenizando Isaías, que negou-se a entregar a súmula original ao árbitro e naquela noite mal pregou os olhos de alegria. No restante do torneio, voltou a ser o capivara de sempre, em modesta posição ao final da tabela. Mas não havia do que se entristecer.

A súmula da partida épica virou um quadro na casa de Isaías. Hoje, ele já nem joga mais, fica só acompanhando as notícias pelos conhecidos.

Quanto ao adversário derrotado, recuperou-se bem, e quase vence a competição. Com o tempo, porém, perdeu muito da força de jogo, sendo derrotado com cada vez maior frequência. Nas rodas de Xadrez e nos bares que frequenta, não tem uma vez que chegue que não lhe recebam calorosamente com um: “Peça tocada...”.


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domingo, 18 de setembro de 2016

O sonho de Deep Blue

“Acabou, Deep Blue venceu a última partida e derrotou o campeão mundial! A máquina bate o homem no Xadrez!” 11/05/1997

“Não haverá outro confronto, Deep Blue e IBM concentrarão seus esforços agora na genética.” Comunicado da IBM após a vitória
Wikipedia

Dois anos haviam passado...

Numa sala gélida, um enorme super computador calcula combinações de nucleotídeos de DNA. Dois supervisores aguardam o momento de ir para casa, numa mesa próxima, repousa o jornal do dia, já inútil, aberto na seção de jogos, com palavras-cruzadas já preenchidas e um problema de Xadrez intocado. Antes de ir embora, um dos técnicos decide checar a saída dos cálculos da máquina.


--> AGTC CTTG AAG... %$**#@!... <ch> 'c' ng1f3 d5 Guessing g3
--> Bc8g4 nf3e5 Bg4e6 bf1g2 Pg7g6 o-o

- Veja John, o computador está apresentando flutuações estranhas, não são sequências de genes.

- Não deve ser nada, vamos reiniciar esse bloco de simulação e checamos o resultado pela manhã.

Os programadores estavam tomando a decisão mais correta, afinal, após 1997, o hardware do Deep Blue foi usado como base para o Blue Gene, vários novos componentes foram inseridos e todo a programação era nova, apesar de usar algoritmos desenvolvidos originalmente para os desafios do Xadrez. Tudo, agora, a serviço da genética.

O feito do Deep Blue havia sido tremendo, uma mente artificial, um computador, havia vencido no Xadrez a melhor mente humana da época, Garry Kasparov. O Xadrez é uma das poucas áreas em que as duas naturezas, humana e artificial, podiam ser comparadas de forma justa: intuição, experiência e senso comum contra velocidade, cálculo preciso e uma confiável base de dados.

Novamente, a máquina estava solitária, calculando terabytes de informação genética numa simulação noturna, mas algo não está indo bem...

--> GATG CCTT A... $%$_#@
--> ping www.altavista.com
--> search “kasparov” email address
--> mailto gkasparov@chesschampion.com 1. e4 … your move
--> <ch> 'c' Pe4 Guessing c5
--> ng1f3 Nb8c6 nb1c3 Ng8f6 bf1b5 Nc6d4 bb5a4 Qd8a5

Na manhã seguinte, a equipe do Blue Gene percebeu a anomalia e não conseguia acreditar no que via no arquivo de log, contendo toda a atividade do computador durante a noite. Simplesmente a máquina havia parado a simulação, buscado pelo email de Kasparov, o campeão derrotado em 1997, enviado a ele um email com um desafio a uma nova partida e permaneceu aguardando a resposta, calculando jogadas a frente.

Felizmente, o email do campeão estava incorreto, e o embaraço público foi poupado.

Como podia um programa que havia sido completamente apagado, substituído, passar a tomar conta da máquina durante as simulações genéticas?

O super computador foi colocado em análise, o código fonte foi cuidadosamente revisado, e o especialista em programação para xadrez foi convidado a contribuir.

A máquina foi reinicializada, o programa todo recompilado e reinstalado, uma nova simulação disparada:

--> TAAG TCCA TATG GGCA TTTC ...

Nada aconteceu, nada anormal. Atribuiu-se a falha anterior a flutuações de tensão elétrica na alimentação das máquinas. O especialista em Xadrez para computadores brincou:

- Foi só um sonho da máquina! Vamos coloca-la para trabalhar!

Alguns dias se passaram, o fato foi esquecido.

A filosofia decerto tremeu em 1997, quando a mente artificial venceu a mente humana. Afinal, a mente de silício não passa de uma imitação, impulsos elétricos ordenados, em ciclos rapidíssimos, geram números que são interpretados como ideias. E não seria quase isso a mente humana? Impulsos nervosos passam sem parar por nossas células cerebrais, e nisso aprendemos, brincamos, sofremos, amamos, pensamos haver algo mais... sonhamos!

--> AATG GCA ... %%$$#-*¬ ... c5 Cf3 d6 d4 cd4 Cd4... end of book - last game played in database: Karpov-Kasparov 1996 ½-½   
--> new game
--> <ch> 'c' e4 c6 ... c4 Guessing bxc4
--> qd3c4P Nd5b4 ra1e1 <ch> 'score game 6’; Deep Blue 1 – 0 Kasparov
--> close all
--> shut down

A máquina parou durante a noite. Os especialistas voltaram a se debruçar sobre a ela, que não voltou a funcionar: um dos processadores principais, ainda remanescente do Deep Blue, superaqueceu, derreteu parcialmente, deixando o logotipo da fabricante sobre ele distorcido, quase formando uma figura conhecida, vejamos, um Rei do jogo de Xadrez!

Decidiram mandar o que ainda restava do velho Deep Blue para um museu da computação, só a carcaça e as placas, sem o programa, sua “alma”. Não era mais capaz de sonhar. 

domingo, 14 de agosto de 2016

O Xadrez e o que não se vê

“Na esfera econômica, um ato, um hábito, uma instituição, uma lei não geram somente um efeito, mas uma série de efeitos. Dentre esses, só o primeiro é imediato; ele se manifesta simultaneamente com a sua causa, é visível. Os outros só aparecem depois, não são visíveis; felizes se conseguirmos prevê-los” Bastiat, 1850

“Assim, fixamos os olhos, não naquilo que se vê, mas no que não se vê, pois o que se vê é transitório, mas o que não se vê é eterno.” (2 Coríntios 4:18)
Quão distante vão as consequências de nossos atos? As relações de causa e efeito se desenvolvem ao longo dos anos de forma complexa, não linear, e as intenções originais tantas vezes se perdem na dinâmica da vida.

No xadrez acontece o mesmo. Lances são feitos com um objetivo visível, porém há efeitos colaterais, coisas difíceis de se ver ou até de se prever, que perduram vários lances à frente. Não raro, o que não se vê acaba sendo decisivo no desfecho das partidas.

Um exemplo interessante aconteceu numa partida de 2010, na qual joguei com as peças brancas e, justamente por um desses efeitos que não se vê, porém que existem e duram muito mais do que se imagina, acabei vencendo de forma bela. Talvez tenha sido minha melhor partida na vida.

Posição após 10 ... a6*.
Na posição acima, meu adversário permitiu a troca de um Cavalo por um Bispo, deixando, após as troca, uma Torre preta numa posição estranha, pouco usual. Não posso afirmar com certeza as intenções do jogador de pretas, mas, certamente, ele julgou não ter maior importância o fato de sua Torre ficar na casa b7. Tampouco posso dizer que tinha planos concretos de explorar a colocação da Torre inimiga naquela casa específica. Ambos estávamos no campo “do que se vê”. Não tardaria, porém, a aparecerem os efeitos daquilo que, então, não se via.

Era meu retorno ao xadrez de torneios após alguns anos parado, e eu estava bastante empolgado, com ¨fome de bola¨ ou de xeques! Treinava diariamente elementos do jogo, principalmente exercícios de tática.

Aquela era a primeira rodada da competição, o adversário era ex-campeão estadual e tinha boa pontuação FIDE, o que me animou a jogar ativamente. Até que chegamos à posição abaixo, com lance das brancas.
Posição após 21. ... Dd8.
Agora, eu já percebia claramente como aproveitar a má colocação da Torre preta. Talvez influenciado pelos exercícios de tática e seus floreios, joguei o segundo melhor lance 22. d6!? (22. De4! teria dado ainda mais vantagem ao lado branco) e, após 22. … Bd6, chegamos à posição na qual, devido à decisão do adversário 12 lances atrás, a branca joga para obter vantagem decisiva na partida.

Posição após 22. ... Bd6.
Desferi 23. De4, ataque duplo contra a pobre Torre em b7 e o ponto crítico h7, só um deles pode ser defendido. As pretas, para prolongar a partida ao máximo, são quase forçadas a defender a Torre e permitir a infiltração da Dama branca nos aposentos do Rei preto. Novamente, um efeito do que se vê foi mais valorizado que o que não se vê! Para o bando preto, a perda imediata da Torre inteira, sem compensação, seria o mesmo que abandonar a partida, enquanto que a infiltração da Dama, ainda que perigosa, não mostrava um mate imediato.

Quantas vezes a vida e o xadrez se parecem? Esta partida ainda guarda outras semelhanças. A vantagem obtida ao explorar a posição da Torre de nada adiantaria se nas jogadas seguintes as melhores decisões não fossem tomadas. Meu adversário não ia entregar fácil aquele ponto, e em pelo menos dois momentos foi preciso jogar com grande precisão e agressividade.

Posição após 26. ... Re7.
Em posições como esta acima, apesar de materialmente as brancas terem a vantagem mínima de um Peão, os mestres dizem que “tem que ter alguma coisa”. Com isso em mente, descobri a jogada mais forte. Sacrifiquei minha Torre para expor o Rei preto: 27. Te6+!. A sequência de lances levou à outra posição crítica, na qual as brancas tem vantagem de Dama e dois Peões contra Torre e Cavalo, mas é preciso jogar o melhor para evitar aborrecimentos e atrasos desnecessários para a vitória.

Posição após 37. ... Rc6.
Apesar da desvantagem material, as pretas não estão mortas. Na verdade, a Torre preta está a ameaçar tanto um xeque-mate como a Dama branca! Foi necessário achar outro belo lance, outro sacrifício, um dos lances mais bonitos que fiz em torneios oficiais: 38. Be4+!. Após 38. … Txe4, segue 39. Da8+ Rb6 (ou qualquer outro lance de Rei) 40. Dxe4 eliminando a última peça preta que ainda criava ameaças às brancas. Sete jogadas depois, a preta inclinou seu Rei, reconhecendo a perda do partida.
Uma vitória no Xadrez é uma das melhores sensações na vida de um enxadrista, principalmente quando se acredita que houve mérito, que jogamos bem. Lembro com carinho do cumprimento sincero feito pelo pai do meu adversário, veterano jogador também ex-campeão estadual, pela qualidade dos meus lances. Foi uma noite especial.

Naquela noite, o que vi foi uma boa vitória, uma partida para guardar. Ignorava que o que não se vê é eterno. Hoje percebo que mais que um amontoado de lances, aquela partida serve muito bem para ensinar uma ou duas coisas a respeito da vida.



* Mais detalhes sobre notação em xadrez aqui.

LancesQI

O blog foi mudado para: www.LancesQI.com.br