sábado, 25 de novembro de 2017

O Céu dos Enxadristas (*)

Passar a vida inteira jogando xadrez era o mínimo que Josué poderia ter feito, aliás, concordava inteiramente com a frase célebre que dizia que “a vida é muito curta para o xadrez”, apesar de não saber ao certo quem havia dito isso.
Jogava desde menino, mas foi depois da aposentadoria, quando tinha pouco mais de sessenta anos de idade, que ele passou a se dedicar inteiramente ao jogo com toda energia que lhe restava. A família não protestava, um amor como aquele não podia ser combatido e, de um modo ou de outro, havia contagiado a todos os familiares.
Agora, aos noventa e oito anos, sentado na mesa trinta e quatro do torneio estadual, tinha diante de si um jovem adversário que atacava impetuosamente desde a primeira jogada da partida. Era sua vez de jogar, olhava o rei fixamente e contava as casas de escape. Começou a sentir uma leve tontura, em seguida sufocou, sua mente sempre clara turvou-se, sentiu que era ele quem estava em xeque. Seguiu-se uma grande luz e um longo silêncio.
Quando voltou a si, estava num lugar no qual nunca estivera, cheio de árvores emolduradas por um bonito céu azul resplandecente. Por todos os lados havia mesas onde pessoas jogavam xadrez. “Será que estou sonhando?”, pensou.
Neste instante, percebeu uma bela jovem que veio ao seu encontro.
“Bem vindo, Josué! Sou Caíssa, a deusa do xadrez, e este é o Paraíso dos Enxadristas. Ehh, o Céu dos Enxadristas, se assim te parecer mais fácil de entender”.
“Quer dizer que eu morri durante aquela partida?”
“Sim Josué, você alcançou uma das maiores honras concedidas aos enxadristas: morrer jogando.”
Josué ficou calado, olhou de novo em volta, verificou suas mãos, seu corpo. Sentia-se ótimo, novinho em folha. As mãos, já não eram as de alguém de noventa e oito anos.
“Josué, aqui no Paraíso, cada um retoma à idade em que teve seu melhor desempenho no jogo durante a vida. Por isso, você está com aparência de trinta e poucos anos, quando jogou seu melhor xadrez.”
“Isso é muito bom!”
“Venha, vou te mostrar o lugar.”
Realmente havia ali muitos jovens, salvo algumas pessoas que se apaixonaram pelo jogo mais tarde na vida e alcançaram o melhor desempenho pessoal já em idade mais avançada.
“Quer dizer que eu vou conhecer todos os campeões mundiais que já se foram?”
“Ah, sim! Estão quase todos aqui.”
“Quase?”
“Bem, você sabe, no final de sua vida, Steinitz costumava jogar muitas partidas com Deus. Inclusive, morreu deixando uma partida inacabada. Então, ouvindo as razões de seu celestial adversário, ele preferiu ir para o Céu convencional, onde ainda deve estar jogando com Deus até hoje!”
Josué ficou contente de não ter sido Capablanca ou Fischer o convocado por Deus para ir ao outro Céu, pois eram seus campeões preferidos. Não demorou muito, ele viu um jovem loiro, com aparência de não mais que trinta anos de idade, sentado sozinho em frente a uma mesa onde havia um tabuleiro arrumado com peças belíssimas. A deusa Caíssa percebeu o olhar de Josué para o jovem e disse:
“Sim, é Fischer quem está ali. Desde que chegou aqui pouco fala e não jogou sequer uma partida.”
“Por que?”
“Fica sempre ali, quase sempre sozinho. Só Tal e Morphy conseguem arrancar algumas palavras dele, de vez em quando. Ele ficou um pouco triste de ter vindo para cá aos sessenta e quatro anos. Mas fazia parte do trato: em troca de ser o melhor ele aceitou viver apenas um ano completo para cada casa do tabuleiro. Agora ele está bem, mas aguarda por Spassky, seu grande amigo e rival.”
“Vai ser um embate e tanto! Cada um em sua melhor forma!”
Josué pensou um pouco sobre aquilo. Sempre achou que, após a morte, os mistérios do jogo seriam revelados, que o xadrez seria transparente para todos. Quando expôs sua questão para a deusa, ela explicou que não haveria graça nenhuma nisso, os enxadristas que sentiriam um tédio eterno se soubessem tudo o que pode se passar num tabuleiro.
“Cada um tem a eternidade para evoluir nos mistérios inexplorados deste jogo maravilhoso!”
O passeio continuou. Naturalmente, não havia somente as grandes estrelas do jogo. Pelo contrário, eram milhares e milhares de simples aficionados, jogadores anônimos que professaram a fé enxadrística sem duvidar, mesmo em face das mais vergonhosas derrotas. Caíssa mostrou ao longe um homem que andava atrás de outro, como a cobrar uma dívida.
“Olha, você não os reconhece? É Kieseritzky que vive atrás de Anderssen, a pedir uma revanche da famosa Partida Imortal. Mas ainda não conseguiu.”
Em outro ponto, um rapaz num terno impecável ensinava alguns truques para um grupo de mulheres; sim, havia muitas delas no Céu dos Enxadristas!
“Ah, sim! Aquele é Capablanca. Já não se interessa tanto em jogar, para ele é muito fácil, mas fica aí, sempre às voltas com suas alunas.”
Mais além, Josué viu uma grande bancada, com um trono central e um outro menor ao seu lado. Certamente, o maior era o trono de Caíssa. Mas no trono menor estava um homenzinho acanhado calvo e com óculos.
“Também não o reconhece? Aquele é David Bronstein, meu seguidor mais puro. Sua fé no jogo sempre me encantou. Desde que chegou aqui, elegi-o para estar ao meu lado. Fica sempre lá, estudando posições do peão do rei. Muitos outros vão conversar com ele. É bastante popular!”
“E quanto a Botvinnik, seu maior rival em vida?”
“Respeitam-se muito, mas não têm contato. Bem, estão há muito pouco tempo aqui comigo, com o tempo serão grandes amigos. Tenho certeza! Veja só o caso de La Bourdonnais e McDonnell: passam quase todo o tempo juntos, jogando e rindo bastante.”
Eram tantos grandes jogadores, tantas novidades, tantas novas ideais que demorou para Josué se dar conta que sua antiga vida estava encerrada. Lembrou-se da esposa, filhos, netos e bisnetos. Ficou subitamente triste, pois morrera longe deles. Como deusa que era, Caíssa leu seus pensamentos.
“Eles jogam xadrez, não é?”
“Sim, jogam. Claro que cada um tem seu nível, mas até os bisnetinhos já movem as peças!”
“Então, não se preocupe. Um dia estarão todos aqui com você!”
Sorriu ao pensar que fizera muito bem em ensinar o jogo a todos da família. Caíssa despediu-se e foi para perto de Bronstein. Josué continuou andando pelo vasto paraíso até encontrar um homem delicado que estava acabando de tornear algumas magníficas peças. Estava terminando um peão. Josué observou aquela cena tentando ficar bem quieto. Quando o homem acabou o trabalho, olhou para o lado e viu Josué.
“Amigo, quer jogar comigo? Acabo de fazer este novo jogo de peças!”
“Será um prazer! Vai ser minha primeira partida aqui!”
Arrumaram as peças num tabuleiro que estava numa mesa próxima, o homem pediu para jogar com as peças brancas. Antes de mover, porém, ergueu um peão e começou o que acabaria por ser uma longa palestra:
“Sabia que os peões são a alma do xadrez?”

(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Relembranças, ou um passeio até o centro de Fortaleza

http://relembrancasdemiltondias.blogspot.com.br/

Há um autor cearense, já falecido, de cujos textos gosto muito: Milton Dias. Conheci suas crônicas na época dos estudos para o vestibular da Universidade Federal do Ceará (UFC), que incluíra o livro Relembranças na lista de leitura obrigatória. Milton havia sido professor da UFC.

O estilo dele logo me cativou. Falava muito da cidade de Fortaleza, uma Fortaleza antiga para mim, mas que parecia tão próxima. Talvez por causa das ruas da cidade pelas quais andava sempre, sobretudo quando fui aluno do Colégio Militar de Fortaleza e costumava ir a pé até o centro em trajetos muitas vezes cobertos pelas crônicas daquele mestre do relembrar.

A nostalgia dos textos também contribuiu para a minha identificação; de algum modo eu me sentia presente ao ler as passagens em que contava seu amor a Fortaleza, suas reminiscências de estudante, de professor e de homem solitário: foi um cronista da saudade.

Para mim, era tempo de vestibular, e parecia que todas as decisões para a vida eram tão urgentes e definitivas, e era tão forte a sensação de divergência com a vida que levara até então, que ler os relatos tão bem escritos e sinceros de alguém que havia passado por tanto do que viria depois serviu como um farol, a iluminar o caminho a frente. Ajudou a colocar em perspectiva o presente como ele era de fato e reduziu enormemente a carga da ansiedade.

Creio que foi naquela época que a paixão pela leitura se tornou mais forte.

Um de seus textos, Viagem à Praça do Ferreira, conta como ele fizera, num certo sábado anos antes, quase o mesmo trajeto que eu fazia sempre. Saiu na Av. St Dumont, já na altura do Colégio Justiniano de Serpa (sua casa ficava na Rua Cel. Ferraz), em direção à praça. O motivo do passeio? Ir até uma livraria. Foram tantas as distrações e interrupções no caminho, que quando chegou ao destino já era meio dia, hora do almoço, e ele teve que voltar com a promessa de sair mais cedo de casa na próxima vez. 

Fiz muitas vezes, como disse, um trajeto que consistia em voltar pela Av. St Dumont, saindo do Colégio Militar, em direção ao centro, passando defronte aos colégios da Imaculada Conceição e Justiniano de Serpa (que ficam frente a frente). Depois, continuava pelo calçadão C. Rolim até chegar na Praça do Ferreira. Lembro do corredor de vento que se formava quando me aproximava da Rua Gov. Sampaio, certamente um refresco para quem andava por ali naquela horário calamitoso de uma da tarde. Chegava à praça e corria para a Livraria ao Livro Técnico que havia no Ed. Sulamérica, ainda lembro do cheiro dentro dela, de livro novo, de conhecimento ao alcance das mãos. Havia um subsolo onde estavam os tesouros quase inalcançáveis para mim na época: os livros de xadrez da Colección Escaques.

Quando “conheci” Milton Dias, também para mim o Colégio Militar e aqueles passeios pelo centro já eram coisa do passado, guardavam certa nostalgia. Guardam até hoje. O mestre cronista tinha toda razão, jamais achei um erro em suas afirmações. E hoje, quando lembro de tudo isso, é uma frase dele que não me sai da cabeça: “E tudo dói, quando vira saudade”. 

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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Os ogros também envelhecem (*)


Há muitos anos, muito mais do que minha memória afetiva parece contar, eu começava a perceber a real dimensão que o xadrez tinha. Deixava de ser um jogo entre parentes e amigos e mostrava sua faceta esportiva, com torneios, federação internacional e, claro, campeão mundial! Busquei saber o nome dele: Garry Kasparov!

Kasparov foi o homem a ser batido no mundo das 64 casas durante mais de vinte anos, boa parte deles como campeão mundial. Aposentou-se da prática competitiva clássica em 2005 (ainda com nº 1 do mundo) e só a partir de 2015 voltou a jogar competições rápida não oficiais, a título de exibição: as pessoas adoram ver os ídolos voltando à atividade que os consagrou!

Mas, o que o velho ‘Ogro de Baku’ esteve fazendo por todo esse tempo?

Ah, ele fez coisas não menos difíceis que se manter no topo do xadrez: tornou-se ativista político e opositor de Putin na Rússia; passou a promover o xadrez como ferramenta de apoio à tomada de decisões e ao aprimoramento pessoal; escreveu livros, o mais recente deles sobre o impacto da evolução das máquinas e da inteligência artificial (em seu sentido amplo) na vida humana, hoje e nos anos que virão. Os novos desafios que abraçou ampliaram o alcance de suas ideias e ainda levaram o xadrez junto; por mais que quisesse, não há como dissociar sua imagem à do jogo.

Após tantos anos sem competir oficialmente, Kasparov aceitou o convite para participar das etapas rápida e blitz do Grand Chess Tour, que se encerraram recentemente. Um ato de coragem, é necessário admitir, pois se enfrentar a elite atual, com nomes como Aronian, Caruana, Karjakin e Nakmura, mete medo em qualquer jogador ativo, imaginem num veterano aposentado há 12 anos!

“Mas esperem, o veterano em questão é Garry Kasparov!”.

Sempre se espera muito dele, como antes foi esperado de outros mestres que se ausentaram das competições por longos períodos. O mais famoso deles, Bobby Fischer, abandonou quase que completamente o jogo no instante seguinte à conquista do título mundial em 1972 e, até sua morte em 2008, sua aura de invencibilidade permaneceu incólume.

Talvez a história de Fischer ainda ronde a mente do velho Ogro, que era fã do norte-americano, e por isso mesmo ele tenha aceitado o convite, colocado sua cara a tapas, como se diz, ou mais propriamente, colocando seu rei a mates!

Kasparov não passou vergonha, mostrou vontade de vencer, ideias e jogadas aguçadas, mas deixou o peso do tempo agir de forma irrevogável! Não o peso de seus 54 anos, ou da longa inatividade, mas o tempo do relógio da partida, que é inexorável! Quando a seta cai, ou o mostrador começa a piscar, é o fim. Assim, apurado de tempo em quase todas as partidas, estragou posições vantajosas e defendeu-se mal noutras em que podia ter salvo o meio ponto.

O espetáculo, porém, foi garantido. Milhares de pessoas seguiram as transmissões online do evento, que era coisa rara quando Kasparov ainda era campeão do mundo. Então, ainda mais que as jogadas no tabuleiro, valeu para rever os trejeitos da lenda, suas famosas caretas, seu olhar intimidador. Por um momento, pareceu que ele nunca esteve ausente.

Quando aparecerá novamente? Quem sabe? O velho Ogro levantou-se afinal, recolocou o relógio no pulso, pegou seu paletó e seguiu pensando nos lances que fervilhavam na ainda poderosa mente. Não nos deixe esperando demais, Garry. Os velhos e jovens aficionados precisam ver mais da intensa paixão que emana em cada gesto teu perante o tabuleiro. O resultado aqui é o que menos importa: em termos de xadrez, você não tem mais nada a nos provar!



(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O mestre grisalho ainda sonha

Sentado, perante o tabuleiro quadriculado, o mestre grisalho segura entre as mãos a criativa cabeça, como se o peso das ideias fosse demais para os músculos do pescoço.

Ele joga uma partida de xadrez.

As peças no tabuleiro não passam de mnemônicos, a posição estática é como mera estação onde o trem da partida para rapidamente e logo volta a seu curso. Na mente do mestre, as peças estão em outra posição, na verdade dançam, voltam ao mesmo ponto e tornam a mover em outras direções; para cada lance feito, dezenas de partidas são imaginadas pelo mestre. Lance após lance, partida após partida.

Por vezes, mira o teto com o olhar perdido, as peças passam ligeiras em sua imaginação.

Há um peça na sétima fila, um peão do adversário. Uma peça curiosa esse peão, vale tão pouco no início do jogo, mas a cada passo que dá, sempre em frente, seu valor aumenta. Um peão nunca olha para trás: só lhe interessa o presente, mas mira o futuro.

Mais um passo e aquele peão passará a ser outra peça. Que peça o adversário colocará no lugar do peão? O mestre pensa nas possibilidades; são quatro opções, ele precisa pensar em todas. Para cada uma, são tantas partidas possíveis. É preciso avaliar cada uma delas. Após assegurar-se que não há risco, ele faz sua jogada, aciona o relógio, anota o lance na súmula e levanta para uma rápida caminhada pelo salão de jogos.

Há quase trinta anos, o mestre repete o ritual quase que diariamente. É um jogador da elite do planeta desde muito jovem; elite que se alterou quase que completamente ao longo dos anos, mas ele permanece em forma, sedento. Já viu passar tantos campeões do mundo, venceu a todos mais de uma vez, mas ele próprio jamais alcançou o título máximo de seu amado jogo. Chegar tão perto e falhar não o desencoraja. Ainda deseja melhorar a cada partida!

O adversário moveu seu peão uma casa, trocando-o por uma dama, e permaneceu sentado, profundamente concentrado. O mestre retorna e senta apressado. Anota ansioso a resposta que vê sobre o tabuleiro. A posição, aquela nova estação que agora aparecia no tabuleiro, tinha passado em sua mente momentos antes, numa das possibilidades que previra. O fim está próximo, ele pode intuir.

São seis movimentos à frente, numa sequência que deixa poucas escolhas ao adversário, por isso as centenas de possibilidades caem para algumas dezenas, mas em cada uma delas ele vê o rei adversário sem saída. Não há mais mistérios, esta tudo claro. Faz seu movimento com firmeza e aguarda a réplica. O adversário desiste, é inútil lutar mais.

Uma alegria juvenil toma seu peito. É assim a cada vitória, um elixir da juventude.

O adversário o cumprimenta reverente (apesar de ser também um virtuoso no jogo, é ainda um rapazote) e sai desgostoso. O mestre segue pelo lado oposto, seus olhos ainda passeiam distantes, verificando lances que não vieram à luz; um dia quem sabe, numa outra partida. Sempre haverá uma outra partida.

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domingo, 23 de julho de 2017

O xadrez e a Vida (ou serão a mesma coisa?)*

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É comum escutarmos diversas pessoas expressando as mais desfavoráveis ideias com relação ao jogo de xadrez e aos seus aficionados. Isso é porque poucos compreendem que há muito da Vida no xadrez e muito mais do xadrez na Vida! No fundo, somos todos jogadores de xadrez, muito mais do que outra coisa qualquer que julguemos ser.

Para começar, a Vida é o Grande Tabuleiro onde jogamos nossa única e decisiva Partida! Isso mesmo, viver não é outra coisa senão jogar uma partida de xadrez... O difícil é que jogamos esta Partida com as peças pretas, já que não somos nós quem a iniciamos. Daí a extrema dificuldade que encontramos de vencer! Outra dificuldade: devemos aprender as regras durante o jogo, não podemos treinar antes, estudar as melhores jogadas com antecedência... Nada disso. Quando nos damos conta, o primeiro movimento já está lá, jogado no Grande Tabuleiro há algum tempo!

Mas, e as peças nesse xadrez da Vida, quais são?

Começarei pelo Rei. É nosso ego, nosso individualismo, nossa porção íntima e inviolável, que precisamos a todo custo proteger nos primeiros momentos da partida, mas que precisa agir para assegurar a vitória no final. O Rei pode mover-se em todas as direções, assim como o ego age em todas as facetas da Vida, mas ele é lento, move-se apenas uma casa por vez. Se resolve entrar em ação sabe que ficará exposto por algum tempo. Portanto, suas aparições precisam ser bem calculadas e precisas.

Agora vem a Rainha, ou Dama, como realmente a chamam os enxadristas. O que seria a Dama? Esta eu deixo para o final, convém explicar primeiro as outras peças. Tal como faço ao ensinar xadrez para alguém que está aprendendo as primeiras lições. Que tal passarmos aos Peões?

Os Peões são as peças mais numerosas, tanto que podemos entregar alguns deles no princípio para tentar conseguir vantagem. Se são usados sabiamente, e se não se é descuidado com sua disposição no tabuleiro, caminha-se com passos certos no rumo da vitória. Os Peões na Vida são nossos dias, meses e anos, tão numerosos, mas que, na verdade, nunca nos são suficientes. Cabe a cada um usar seus Peões de forma mais sábia, pode-se mesmo sacrificar alguns para deixar as outras peças em melhor posição, para obstruir a ação opressora das peças inimigas. E assim fazemos: sacrificamos nossa juventude muitas vezes em laboriosos estudos para garantir um bom futuro, ou usamos vários dias jogando futebol, ou bebendo em bares, ou planejando coisas que nunca faremos, porque sempre falta tempo. Um Peão que avançamos jamais volta atrás, seu movimento é sempre para a frente, como o do tempo. O tempo, portanto, são os Peões da Vida. Se os sacrificamos devemos saber que eles não voltam mais, devemos conseguir algo em troca, ou apenas os teremos perdido. Não esqueçamos que os Peões, ao chegar no fim de sua caminhada podem ser "coroados"! Isto é, são promovidos a peças mais poderosas, seja Dama, Torre, Bispo ou Cavalo. O tempo, quando termina, e se o usamos bem, também não nos dá frutos valiosos? Um célebre mestre do xadrez disse: "Os Peões são a alma do xadrez". Acho que agora ficou ainda mais evidente minha comparação!

O Bispo e o Cavalo, duas peças de naturezas diferentes, mas de valor relativo aproximado no xadrez. Há vezes que é melhor ter um Bispo, noutras é melhor um Cavalo. A discussão de quem é melhor, Bispo ou Cavalo, povoa vários artigos e livros de xadrez, tem sido motivo até de brigas em rodas de partidas rápidas. Mas, na Vida, o que podemos comparar ao Bispo ou ao Cavalo? Pensei bastante no problema, e penso que a inteligência é o Bispo no xadrez da Vida, enquanto o Cavalo é a esperteza! Estas duas características humanas são de valor aproximado em variadas situações, mas de natureza totalmente diferentes! A inteligência trilha caminhos contíguos nas diagonais da Vida. O Bispo sempre avança em diagonal, ou seja, em duas direções, a mesma desenvoltura da inteligência, que sempre nos faz avançar em mais de um aspecto da Vida. Porém, como a inteligência sempre segue os mesmos padrões em cada indivíduo, uma vez que conhecemos este padrão, fica mais fácil prever seus próximos passos. Assim é o Bispo, que sempre age numa das diagonais em que já estava previamente.

A esperteza, como o Cavalo, não segue um padrão linear. Esta peça tem um movimento limitado, em forma de "L", porém pode causar várias surpresas! A esperteza consegue ser o fator inesperado em diversas situações. Em ocasiões difíceis, travadas, nas quais não há muito que fazer, dão-se melhor os que a utilizam bem! A esperteza tem o poder de manobra de um Cavalo! O Cavalo sempre anda numa casa de cor diferente a cada movimento, se está numa casa preta ameaça uma casa branca, e vice-versa. Assim é a esperteza, que sempre garante uma coisa já de olho em outra diferente! O Cavalo é a única peça que pode saltar outras, a esperteza, igualmente, pode saltar outras características, como a inteligência alheia ou própria, para alcançar seus objetivos. Ainda outra analogia: no início da partida, os Bispos já estão agindo em várias casas do tabuleiro mesmo antes de serem movidos, já os Cavalos têm ação muito restrita no início e convém sempre movê-los antes dos Bispos ao iniciarmos as partidas. A esperteza tem alcance menor que a inteligência, e, para tirarmos proveito dela, precisamos usá-la ativamente desde o começo!

A Torre, ágil peça que age nas horizontais e verticais do tabuleiro, sempre forte e perigosa em colunas ou linhas abertas. Iniciam a partida nos cantos do tabuleiro, demora para colocá-las logo em jogo, mas, quando  entram em ação, são peças primordiais em qualquer estratégia. As Torres são nossas experiências adquiridas, nossa sabedoria, nosso conhecimento. Não podemos usar a experiência logo no início da Partida, porque ainda não a temos; precisamos fazer algumas jogadas antes na Vida para nos tornarmos aptos a usá-la. No roque, o Rei e a Torre movem-se juntos, o único movimento possível do xadrez no qual duas peças movem-se ao mesmo tempo. É um pacto entre essas duas peças! O Rei, o ego, se protege ao mostrar seu poderio de habilidades adquiridas, suas experiências, deixando a Torre livre para agir.

Agora sim, falta a Dama. Esta peça mais poderosa e arrasadora do jogo de xadrez! Perdê-la quase sempre significa perder a partida também. Ela tem longo alcance, seu movimento, que abrange todas as direções possíveis, é o casamento dos movimentos de Torre e Bispo, mas ela quase sempre vale mais que a soma destas duas peças. A Dama precisa ser ativa, para mostrar todo seu poder, precisa estar bem colocada, precisa de espaço aberto... Acho exato definir a emoção como a Dama no xadrez da Vida!

A emoção é forte, move barreiras, traz a realização quando alcança todas as suas potencialidades. Quando perdemos a emoção, quase sempre morremos de antemão! Sem sentimentos, sem paixão, sem sonhos, não há como vencer na Vida! A emoção é ágil e eficaz como o casamento de inteligência e conhecimento e, muitas vezes, consegue fazer ainda mais que essas duas coisas juntas. A emoção ainda forma o casal perfeito com o ego, o reconforta, protege e acolhe, tal como uma Rainha deve fazer com seu Rei!

Talvez seja por isso que o xadrez fascine tantas pessoas no mundo! Sem notar, todos somos enxadristas. Cada um de nós joga “a Partida” neste Grande Tabuleiro que é a Vida: uma Partida que todos buscam vencer!


*Um texto meu de 2002, ainda inédito aqui.

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terça-feira, 11 de julho de 2017

Amizade de cores opostas


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“Nós éramos amigos e nos tornamos estranhos um para o outro. (…) Que tenhamos de nos tornar estranhos um para o outro é a lei acima de nós: justamente por isso devemos nos tornar também mais veneráveis um para o outro! Justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade!” Nietzsche (A Gaia Ciência)

Entre os homens, a inimizade é mais antiga que a amizade, como podemos facilmente aferir nas primeiras páginas do Gênesis: a famosa história de Caim e Abel. Será a natureza humana? Essa é a maior razão para venerarmos ainda mais a amizade entre as pessoas!

Houve, uma vez, dois amigos que  se conheceram numa partida de xadrez.

Suas idades eram discrepantes, uma geração de diferença, mas o grande entusiamo pelo jogo, a salutar rivalidade no tabuleiro, as longas conversas sobre os melhores jogadores – um deles (o que jogava de forma mais agressiva) gostava do Karpov, o outro (um jogador mais posicional) venerava o Kasparov – foram transformando os dois em grandes amigos.

Quem nunca escutou dois enxadristas conversando sobre o jogo, não pode imaginar quanto assunto pode aparecer. Eles discutem se é melhor ter dois bispos ou dois cavalos, se devem mover o peão da dama uma ou duas casas na Defesa Siciliana, lembram antigas partidas, lamentam velhos erros, vangloriam-se de sacrifícios de peças e mates mirabolantes.

Aqueles dois amigos não fugiam à regra. Incontáveis vezes um chegava na casa do outro, começavam jogando umas partidas rápidas, de apenas cinco minutos para cada um no relógio. Depois, passavam ao assunto do dia, uma nova abertura que um queria aprender, o outro queria mostrar a última partida do Ivanchuck que vira no jornal de domingo.

Mesmo em esferas mais mundanas, como as namoradas, as metáforas de xadrez estavam todas lá: “tentei um avanço pelo flanco, mas ela defendeu”; “estava há dois lances do mate, mas os pais dela chegaram”.

Os anos, porém, vão colocando mais peças no tabuleiro da vida, as variantes vão-se complicando. Para um deles, chegou o tempo da universidade; o outro já estava trabalhando. A vida foi ficando mais complexa. As conversas mais escassas, o tempo mais curto.

Numa das últimas vezes em que se viram, começaram uma partida, mas não terminaram. Era uma posição de peão da dama. Ficaram de continuar depois. Falaram de alguns conhecidos, de marcar com a turma do xadrez. Desconcertados, ambos procuraram metáforas bem humoradas para aliviar o clima, mas todas pareciam esgotadas, peões que avançaram e não podiam voltar atrás.

Alguém que os observasse naquele momento doloroso teria a impressão de que amizade e inimizade são como as cores do tabuleiro: opostas, distintas, mas sempre lado a lado.

Se soubessem que nunca mais jogariam, que não mais se falariam, talvez tivessem se esforçado mais. Talvez tivessem jogado aquela derradeira partida até o final. Sem saber que era o fim, encerraram a amizade como se encerrassem uma partida, civilizadamente, com um frio aperto de mão.


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domingo, 18 de junho de 2017

Tempo e Xadrez

Créditos da imagem

O relógio de pulso do árbitro marca exatamente 14:00. Ele olha o amplo salão onde os jogadores sentam impacientes, limpa a garganta e declara na melhor voz possível: “Relógio das brancas em funcionamento!”. Assim começa uma rodada num torneio de xadrez.

Uma frase estranha. Não se diz, por exemplo: “As brancas podem mover!” ou “Que comece a batalha!”. Não, simplesmente mandam acionar o relógio do jogador de brancas. Depois de acionado, começa a partida, ou pelo menos é melhor que seja feita uma jogada, senão o tempo acaba, e o outro vence sem precisar sequer mover um peão.

As pessoas imaginam uma competição de xadrez com várias mesas, cada uma com dois adversários e um tabuleiro sobre o qual andam (na verdade são empurradas) peças brancas e pretas. Quase ninguém se lembra do relógio. Um artefato pouco usual, exceto no meio enxadrístico, com dois marcadores, um para cada jogador. Durante uma partida, há sempre um parado e outro funcionando (o tempo nunca para, não é mesmo?). Se o tempo termina, a partida acaba. Vence quem ainda tem tempo. É um martírio para alguns!

Os jogadores iniciantes, então, ficam apavorados com o relógio. São capazes de jogar muito bem sem aquele trambolho do lado, mas quando ele é posto em marcha, subitamente os valores das peças se invertem, primeiro apertam no relógio para depois jogar, derrubam o monstrengo, afoitos, ou, então, simplesmente ficam paralisados, a cabeça em repetição das mesmas jogadas, até que voltam ao mundo dos vivos quando o adversário, feliz, anuncia que o tempo acabou.

Sim, o xadrez de competição não é uma luta tridimensional, mas quadridimensional! O xadrez de torneio não se resume a dar xeque-mate, mas também exaurir o tempo do outro!

Engana-se quem pensa que os jogadores ficam lá, sentados, testando a paciência e a aptidão ergonômica do adversário, enquanto tentam livremente encontrar a jogada absoluta. Não, eles precisam usar bem o tempo! Precisam transformar cada posição do tabuleiro numa charada, num quebra-cabeças, que dê trabalho e tome tempo para ser resolvido.

Mas nem todos tomam esse cuidado.

Uma vez, num torneio, dois jogadores apertaram as mãos, amistosamente, e aguardaram o anúncio do árbitro. Quando foi dada a ordem de acionamento, ambos se esforçaram ao máximo para usar pouquíssimo tempo, tanto que era difícil seguir o ritmo das jogadas! Poucos minutos depois, enquanto as outras partidas do torneio mal tinham quatro ou cinco jogadas, eles se viram na embaraçosa posição de rei contra rei, empate! Na mente de cada um, a constatação útil no xadrez tanto quanto na vida: “eu preciso aprender a usar melhor meu tempo”.

Assim, o xadrez de torneio não se trata somente de dominar o centro do tabuleiro, colunas e linhas abertas, atacar e defender, é sobretudo uma luta pelo tempo; não o tempo do relógio de pulso, o tempo do calendário, este fica como que parado, suspenso. É um tempo dentro desse outro tempo, um tempo que lhe toma o lugar, e torna-se o único tempo que importa, pois enquanto o relógio de xadrez estiver em marcha, haverá sempre um lance a ser feito!


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segunda-feira, 24 de abril de 2017

O urgente x O importante


O jogo de xadrez pode ser visto como um laboratório da vida, uma vida em miniatura. É um ambiente controlado no qual, não raro, são postas situações que encontram perfeita analogia com problemas da vivência humana.

Uma das questões amiúde enfrentadas por enxadristas (assim como outras formas de vida humana) é decidir entre fazer o que é urgente ou o que é importante. Como o jogo tem um conjunto claro, simples e finito de regras, o impacto das decisões é visto com muito mais facilidade e rapidez que nas situações da vida real.

Há alguns dias, vi claramente o problema do ‘urgente x importante’ numa partida do recente Campeonato Feminino de Xadrez dos EUA na qual se enfrentaram Apurva Virkud (com peças brancas) e Sabina Foisor (com preças pretas), ambas mestras de destacada força.

Nessa partida, ficou evidente o pobre papel exercido pela Dama após o 16° lance das brancas, que fez este exército ficar na defensiva o restante da partida, sempre priorizando o urgente sem jamais conseguir fazer o importante: recolocar a Dama (a peça mais poderosa do exército) em uma posição mais favorável.

Virkud x Foisor, St Louis 2017 (posição após 16. Da5)

No diagrama acima, mesmo alguém sem conhecimento do jogo perceberá quão distante se encontra a Dama branca do centro do tabuleiro e da ala do rei (metade direita do tabuleiro), que é onde se desenvolve o ataque das peças pretas.

Analisando a partida com a ajuda dos fortes aplicativos (ou engines, como são amplamente chamadas) disponíveis em nossos smartphones, verificamos que a posição das brancas é muito frágil devido ao forte centro móvel de peões pretos, além da superior mobilidade de cada uma das peças pretas em comparação com suas equivalentes do bando contrário.

As brancas não aproveitaram as duas únicas chances que surgiram para recolocar sua Dama em jogo (o que, apesar de não ser a opção preferida pela fria análise da máquina, faria todo o sentido para um jogador de carne e osso): imediatamente no 17° lance, ou pouco depois, no 21°, nas demais ocasiões, a urgência se impôs de forma muito aguda.

Virkud x Foisor, St Louis 2017 (posição após 26. Tg1)

Ao observarmos, acima, a posição após o 26° movimento branco, perceberemos claramente a falta que fez a Dama branca, agora bloqueada pelo cavalo e ainda no mesmo local, enquanto as pretas têm a opção de um belo desfecho com um ataque de mate (fica como desafio para os enxadristas - pretas jogam e dão xeque-mate em 9 lances).

A partida me deixou pensativo. Não em termos de xadrez, mas em termos de opções de vida. A princípio, seria melhor não se colocar numa situação na qual as urgências nos impeçam de fazer o que é importante, mas, uma vez que o cenário fica mais complicado, precisamos ficar atentos para qualquer chance de recolocar as prioridades em ordem.

Como a partida nos ensinou, fazer somente o urgente não livrou o exército branco da derrota. É preciso lembrar que, mesmo que não traga um retorno rápido, ou sequer mude o desfecho final, fazer o que é importante nos coloca em posição de lutar melhor, mantendo a honra (aliás, um atributo jamais urgente, mas sempre importante).
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sábado, 4 de março de 2017

O mestre e o escritor

Imagem: Jonathan Wolstenholme

Sentados frente a frente, dois homens esperam a condução. Parecem perdidos em seus pensamentos, quase imóveis, cada um com um livro na mão. Alguém distraído poderia pensar que são muito parecidos estes homens. Estatura mediana, cabelos esbranquiçados nas têmporas, mãos sem sinais de trabalho braçal. São homens de ideias, seria lícito dizer.

Estavam assim há tempo considerável, não se notaram, já que apenas os corpos partilhavam de proximidade, os pensamentos, ou as almas, se preferem, estavam longe, imersas nos conteúdos das páginas que miravam sem esforço.

Quase ao mesmo tempo, a posição cansou aos dois, foi preciso ajustar a postura, mudar um pouco a direção da cabeça. Instintivamente os olhos buscaram o livro um do outro, objeto comum de fascínio, e perceberam quão diferentes eram seus assuntos.

Foi o da esquerda quebrou o silêncio.

– Por muito tempo fui enamorado deste jogo, mas a pouca reciprocidade me afastou. Prazer, sou Baltazar.

– Como vai? Sou Estevão. Ah sim, o livro! Sempre o trago comigo, é para não perder o hábito de analisar posições de xadrez. Sou jogador, preciso estar sempre em forma.

– É um jogo demandante, bem lembro! Há tempos, porém, que enveredei pelo caminho das letras, outra paixão, tornei-me escritor. Mas, muitas vezes, percebo grande semelhança em nossos ofícios.

– Semelhança, como poderia ser? Há jogadores que escrevem livros sobre o jogo, mas… entre escrever e jogar uma partida de torneio... vejo tão pouco em comum. Escrever é um ato solitário, individual, no xadrez cada partida é composta a dois. Mesmo quando só um jogador é exaltado, como na famosa partida Imortal, é preciso haver um adversário.

– Meu caro, é aí mesmo que reside grande semelhança, cada partida é uma trama, uma história. Cada um vê a si próprio como o herói. Mas toda história precisa de um vilão, no xadrez o vilão é sempre o adversário!

– Bem, confesso que não havia pensado nisso. Mas ainda afirmo serem tão díspares nossas profissões. O enxadrista planeja suas jogadas tentando prever a ação do adversário, nada é determinístico, nada está numa mente só.

– Ah, quantas vezes são iniciadas obras sem que o autor saiba aonde suas palavras o levarão! No tempo de composição de um livro, de um conto, quantas influências um escritor pode ter: amigos, filhos, vizinhos... Como se vê, não há nada determinístico.

– Vejo que és astuto, Baltazar, mas não me convence. O enxadrista usa peças, são somente seis tipos, o tabuleiro contém um número fixo de casas. São muitas as partidas que se pode jogar. No vernáculo, porém, há tantos milhares de palavras, e não há limite ao papel que se deseje preencher com elas.

– Amigo, se me permite, as histórias são fruto da vivência dos seres humanos, e assim como há seis peças, os sábios falam que são seis as aflições humanas, são sete os pecados capitais e dez os mandamentos… Percebe? Poucos os elementos básicos povoam todas as histórias contadas, assim como são poucos os tipos de peças que compõem as mais belas combinações do xadrez.

– Já que falaste em combinações, aí está a maior diferença, pois, com frequência, sacrificamos peças pelo objetivo final, o xeque-mate. Como pode ter algo a ver com a literatura?

– Acontece o mesmo com as personagens, são como as peças, cada uma tem sua função na trama. Tantas vezes, é preciso matar o mocinho, separar um casal, levar um filho amado, tudo pelo desfecho ideal.

O enxadrista sentiu-se sem lance, tamanha a coerência do escritor, pois parecia haver um contexto, não somente semelhanças pontuais. Lembrou-se dum antigo diálogo citado num livro de xadrez, no qual um maestro de orquestra perguntava ao grande mestre de xadrez qual era sua profissão, e o jogador retrucava perguntando “e a sua, qual é?”.

– Estou convencido, Baltazar. Estou encurralado como um rei no canto do tabuleiro. Somos artistas em áreas que guardam notáveis semelhanças. E pensei, agora, em mais uma: a palavra escrita é como o peão que avança, não tem retorno!

Apertaram as mãos e, num impulso amistoso, trocaram seus livros, onde anotaram um endereço de contato, para uma partida amistosa ou um café.

O escritor partiu pensando que aquele diálogo merecia um conto. Já o enxadrista, jamais se livrou daquelas analogias e, ainda hoje, sempre que move um peão para abrir o jogo, baixinho diz para si “Era uma vez...”.


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sábado, 28 de janeiro de 2017

Reconhecimento Paterno no Xadrez

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Muito tempo antes da abundância de informação que a internet trouxe, os enxadristas amadores viviam uma vida mista de pesquisadores, arqueólogos e improvisadores buscando conhecer um pouco das ideias dos mestres, uma xerox de livro raro, uma revista com as partidas mais recentes. O conhecimento de outras línguas era ainda mais limitado, e só restava confiar nas traduções em espanhol de obras famosas. Livros em inglês até apareciam, mas não se podia arriscar entender errado alguma frase dos mestres.

Algumas vezes, aparecia oportunidade para assistirem a palestras de jogadores mais fortes. Em tais palestras, não raro, saiam sabendo menos do que quando entraram. Uma vez, por exemplo, chegou na cidade um jogador de fora, pródigo em contar suas histórias e forte enxadrista. Venceu um torneio aberto e, de pronto, se tornou admirado pelos locais.

- O senhor por acaso sabe inglês? - perguntou um dos jogadores que estava ouvindo as histórias do forasteiro.
- Sim, claro, qual bom jogador não sabe!? - blefou.

O rosto do homem se iluminou e ele estendeu ao forasteiro um maço de papel com a xerox dum artigo de xadrez em inglês intitulado “Pattern Recognition in Chess”. Um texto longo recheado de diagramas com posições variadas de partidas famosas. O homem gelou.

- O senhor por acaso não aceitaria nos fazer uma palestra com o conteúdo deste artigo? Obviamente que será pago pelo serviço.

A alusão ao pagamento interessou mais ao jogador que os diagramas do artigo, e ele se comprometeu a ficar mais uns dias na cidade, ao final dos quais faria uma apresentação sobre o material que tinha nas mãos.

Foi arranjada hospedagem e alimentação para o novo mestre, que se dedicou a entender o que havia naquele texto.

O parco inglês do forasteiro, fortemente baseado na semelhança de palavas com o português e apoiado num resumido vocabulário, lhe permitiu criar uma interpretação do artigo. Muito ajudou conhecer o nome dos jogadores que ali apareciam Tchingorin, Capablanca, Bronstein, Fischer e Kasparov. Sobre a vida deles ele conhecia bastante coisa!

No dia marcado, um sábado, no auditório duma escola municipal (um dos aficionados enxadristas da cidade era o diretor da escola) arranjou-se um tabuleiro de demonstração ao redor do qual foram arrumadas carteiras escolares, com o providencial apoio para anotações dos interessados jogadores. A fim de pagar pelo serviço, a cada um foi cobrado um valor de R$ 10,00.

O palestrante chegou no horário, tomou um gole de água, encarou a audiência e começou explicando que o artigo falava da interessante e importante questão do ‘Reconhecimento Paterno no Xadrez’.

Os presentes se surpreenderam, será que era mesmo um tema relevante para aumentar a qualidade do jogo deles?

‘Vários jogadores ao longo da história sofreram justamente com a falta do reconhecimento paterno, ou com um reconhecimento deficiente. Vejam o caso de Mikhail Tchingorin...’. Foi falando enquanto montava no mural a posição do primeiro diagrama do artigo. ‘Como sabem, Tchingorin perdeu os pais muito jovem e foi criado num orfanato na  Rússia no final do século XIX. Apesar disso, foi capaz de ser um dos melhores do mundo em sua época, inclusive foi desafiante duas vezes de Steinitz pelo título mundial. Na posição aqui do diagrama, infelizmente, se vê a falta que lhe fez um pai. No momento crucial, teve insegurança e se permitiu levar mate quando vencia, ao retirar a única peça que defendia seu rei.’.

Os presentes anotaram tudo e analisaram um pouco quais seriam as opções de Tchingorin para vencer aquela partida.

‘Vejam agora o exemplo de José Raúl Capablanca, campeão mundial cubano, aprendeu xadrez olhando o pai jogar e recebeu deste todo o apoio. Com pouco mais de dez anos de idade não havia em toda a ilha de Cuba nenhum adversário capaz de vencê-lo.’ Uma posição de Capablanca foi montada no tabuleiro, uma na qual se vencia com uma elegante dança de cavalos, muito instrutiva para os presentes.

‘Outro caso de carência de reconhecimento paterno pode ser visto na história de David Bronstein, um dos gênios do xadrez soviético. Bronstein não era bem visto pelo regime socialista da URSS, seu pai foi considerado um “inimigo do povo” e ficou preso por vários anos. Isso foi crucial na disputa com Botvinnik em 1951, quando ele liderava mas deixou a emoção pela situação de seu pai (uma vitória poderia significar complicar sua vida novamente) dominar sua mente e ele perdeu uma partida que poderia facilmente ter empatado.’ Foi montada novamente uma posição no mural. Nela Bronstein perdeu um final de par de cavalos contra par de bispos.

‘Caso curioso o de Bobby Fischer. Ele nunca soube quem era seu pai, teve péssimo relacionamento com sua mãe, mas mesmo assim alcançou o topo no xadrez em 1972. Foi campeão mundial dando fim à hegemonia soviética que durava mais de vinte anos. Apesar de, aparentemente, não ter feito falta para seu jogo de xadrez, a ausência de reconhecimento paterno foi danosa em outros campos de sua vida. Ele não defendeu seu título frente a Karpov em 1975. Aos 29 anos de idade, largou o jogo e até hoje não se sabe direito por onde ele anda. Dizem que perdeu o juízo!’. E passaram a analisar posições de partidas do grande campeão norte americano.

‘Finalmente, temos a história do grande Garry Kasparov. Como sabem, Kasparov perdeu seu pai quando tinha somente 7 anos de idade, mas ele teve em sua mãe um grande escudo, ela devotou toda energia ao menino e ao xadrez dele! O resultado, já sabemos, ele é o campeão mundial e certamente um dos melhores jogadores da história do nosso jogo. Não teve reconhecimento paterno, mas o reconhecimento materno foi abundante!’. A palestra foi concluída com diversas posições famosas de partidas de Kasparov.

Ao final, houve aplausos, animadas conversas, o palestrante foi convidado almoçar na casa do diretor da escola antes de pegar o ônibus na rodoviária. Durante o almoço, o filho do diretor, o melhor estudante da cidade, timidamente perguntou ao novo ídolo de seu pai:

- Mestre, o título do artigo não seria ‘Reconhecimento de Padrões no Xadrez’?

O forasteiro teve cuidado para não engasgar com a farofa e tomou um gole de suco antes de responder.

- Jovem, é preciso sempre ter cuidado com essas línguas estrangeiras, elas são muito traiçoeiras, principalmente os falsos cognatos!

Para a tristeza dos enxadristas da cidade, aquele grande palestrante nunca mais deu as caras por ali.

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domingo, 22 de janeiro de 2017

A menina e o Ogro


Ilustração de Omar Rayyan
Naquela noite ela mal dormiu, ansiosa com o importante acontecimento do dia seguinte: pela primeira vez enfrentaria o campeão mundial num torneio!

Crescera numa casa repleta de peças, tabuleiros e livros de xadrez, todos em casa jogavam, e ela era a caçula da família. Suas irmãs também aprenderam desde novinhas, e ela não se lembra exatamente em que momento aquilo se tornou sério para ela; quando se percebeu como gente já estava derrotando garotos e garotas bem mais velhos que não escondiam o espanto com as jogadas afiadas na menina.

Apesar de ser a menor em casa, logo ultrapassou as irmãs, não somente pelo talento, mas pelo aperfeiçoamento do método desenvolvido pelo seu pai, que desejava demonstrar que um gênio pode ser criado, sem depender de dádivas inatas.

Ela se acostumou a ser a única menina no meio de homens de todas as idades, desde juvenis a veteranos. Com o tempo, eles passaram a olhar para ela não como uma mulher, uma menina, mas simplesmente um jogador como eles, só que terrivelmente forte. Tinha somente quinze anos de idade quando conquistou o título de Grande Mestre Internacional. Agora, aos dezessete anos, perseguia a meta que o pai incutira em sua mente: alcançar o degrau mais alto, ser campeã mundial geral, entre homens e mulheres!

Tudo aquilo passou como um raio em sua mente no momento em que cumprimentou o campeão no início da partida.

Ele era o mais temido profissional do jogo, toda a energia de seu corpo era concentrada para o melhor desempenho de suas peças sobre o tabuleiro. Muitas vezes, a mera presença dele perto de si era suficiente para desestabilizar os melhores jogadores. Uma de suas armas, além dos fortes lances, era o olhar que lançava sobre os adversários em momentos específicos do jogo, como a degustar o efeito de suas jogadas sobre a mente deles. Também era dado a caretas, razão pela qual, entre os jogadores, ele ser conhecido como ‘O Ogro’.

Ela conhecia bem o campeão, na verdade ela era sua fã, estudara todos os seus jogos, sabia de suas idiossincrasias no tabuleiro e fora dele, por isso os olhares e caretas não a perturbavam. Ela estava preocupada apenas em compreender e refutar as jogadas que ele fazia. Tinha as peças brancas e iniciou a partida avançado seu peão do rei duas casas, sua abertura favorita.

O campeão também empregou sua defesa preferida, e a partida seguiu equilibrada. Após pouco mais de vinte jogadas, a menina sentia a dificuldade de enfrentar o campeão do mundo, não somente pelos olhares e caretas, mas por suas ideias que eram mais profundas que as ideias dos outros grandes mestres, a vantagem de jogar com as brancas havia sido dissipada e agora o adversário é que tinha vantagem.

No trigésimo sexto lance, ambos já com poucos minutos de tempo no relógio, o campeão pega seu cavalo, desloca-o em direção à quarta casa do bispo da dama, e a menina gela: aquilo seria um erro! Ele pousa o cavalo sobre a casa escolhida, segurando as laterais da peça com o indicador e o polegar direitos, libera a pressão dos dedos lentamente até que o cavalo fica livre sobre o tabuleiro, então, subitamente, ele volta a pressionar a peça entre os dedos, retorna-a para a casa de origem e volta a pensar!

“O que ele está fazendo? A peça foi solta no tabuleiro, não foi?”. A menina olha a seu redor, o árbitro não estava próximo da mesa, não havia mais ninguém atento à partida naquele exato instante. Sequer sua mãe ou sua irmã, que estavam na plateia, pareciam ter notado nada de anormal. O que fazer? Ela teria mesmo visto aquilo? Se reclamasse ao árbitro sem provas, ela seria penalizada e poderia perder a partida.

Nesse meio tempo, o campeão voltou a tocar no mesmo cavalo e moveu a peça para a primeira casa do bispo do rei, como se não houvesse nada fora do ordinário nesta ação.

Além da difícil situação no tabuleiro e do tempo se esgotando no relógio, a segurança do campeão aumentou a confusão mental da menina, e ela simplesmente fez sua jogada, anulando qualquer chance de protestar pela falta do adversário.

A partida continuou por mais dez lances, até que a menina abandonou, sem esperanças de salvar seu rei do mate.

Houve um frio e constrangido cumprimento de mãos, e a menina foi se afastando da mesa de jogo. Alguns passos depois, uma ideia tardia lhe trouxe a certeza que faltara na hora decisiva: após a trigésima sexta jogada, o campeão não voltou a encarar a menina sequer uma vez...

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sábado, 7 de janeiro de 2017

Não deveria estar ali... mas foi e venceu!

A longa tradição de torneios regulares de xadrez remonta a meados do século XIX, quando aparecem clubes nas principais cidades europeias reunindo amadores e semi-profissionais. Houve, então, um número crescente de competições e isso gerou reconhecimento público para um grupo de jogadores cuja técnica era superior, traduzindo-se em muitas vitórias, eram chamados de mestres do jogo.

Não havia um ranking mundial ou pontuação estatística que refletisse a força de cada jogador, nada disso. Cada um trazia simplesmente seu nome e histórico de resultados: colocação nas principais competições, vitórias em disputa com outro mestre (que se conhece como match) etc. Era muito parecido com o que acontecera até alguns séculos antes para torneios entre cavaleiros medievais . Além disso, havia grande respeito pelos jogadores que publicavam obras sobre o jogo.

Depois, vieram os tempos da organização de ligas, federações, títulos oficiais de mestre e grande mestre e, por fim, a pontuação Elo
(popularmente conhecido como rating FIDE) que permitiu comparar a força entre dois jogadores que nunca sequer se enfrentaram. A mística se perdeu, apesar de mesmo hoje em dia, jogadores como Ivanchuk, Anand e Topalov são sempre respeitados, não importa em que posição estejam na listagem Elo.

Para os padrões atuais, pode parecer estranho imaginar que uma competição de elite possa negar a participação de um jogador pouco conhecido, que não tenha o “merecimento” para estar ali. Afinal, basta ver sua pontuação internacional. Mas nem sempre foi assim.

Alguns participantes de San Sebastian 1911 (Capablanca sentado ao lado da senhora)
Em 1911, seria realizado um dos maiores torneios da história, em San Sebastian, ao qual foram convidados os principais mestres da época, apenas aqueles que tivessem no curriculum pelo menos dois segundos lugares em torneios de elite. Ali estariam, por exemplo, Rubinstein, possivelmente o mais forte do mundo naquele ano, Janowski e Schelechter, últimos desafiantes de Lasker ao título mundial, além de outros respeitados mestres. Um dos inscritos foi o jovem cubano José Raul Capablanca, de apenas 22 anos de idade, cujo histórico internacional basicamente se resumia à vitória em match contra o campeão dos Estados Unidos Frank Marshall (que também jogaria em San Sebastian). Alguns foram veementemente contra a participação do cubano (o maior opositor, Ossip Bernstein, haveria de se arrepender em breve), mas por fim ele foi aceito na disputa. Capablanca venceu o torneio de forma convincente, concedendo apenas uma derrota a Rubinstein. Dez anos depois, Capablanca derrotaria Lasker para se tornar terceiro campeão mundial da história.

Sultan Khan em 1932 (Campeão Britânico)
Um dos casos mais curiosos aconteceu em 1929, quando Sultan Khan, o melhor jogador de xadrez da India (na época um país sem expressão no jogo, apesar de ser a terra natal do xadrez), veio a Londres acompanhando seu senhor, um Coronel do Império indiano (sim, ele era um simples servo) e foi acolhido pela comunidade enxadrística local que reconheceu sua habilidade e ajudou com alguma teoria sobre o jogo (ele não era alfabetizado em inglês e não sabia ler os livros disponíveis). Para surpresa geral, Khan venceu o campeonato britânico daquele ano e logo depois retornou à India! No ano seguinte, seu senhor o trouxe de volta a Londres, e Sultan Khan repetiu as conquistas do título britânico em 1932 e 1933. Teve boa participação em torneios neste período entre 1930 e 1933, com vitórias sobre os principais mestres da época como Capablanca, Rubinstein, Tartakower e Flohr, além de defender a equipe britânica em três Olimpíadas de xadrez . Retornou à sua terra natal em 1933 e, com exceção de um match contra o indiano V. K. Khadilkar em 1935 (9 vitórias e 1 empate), não se tem notícia que jamais tenha voltado a jogar xadrez. Em 1950, quando a FIDE criou a titulação de Mestre e Grande Mestre Internacional e outorgou esses títulos a jogadores do passado, já fora das competições como Rubinstein e Carlos Torre, Sultan Khan foi deixado de fora, de forma injusta.

Um jovem Anatoly Karpov em 1967
Em 1966, já havia a titulação internacional, mas não a pontuação Elo. A Federação de Xadrez da URSS recebeu um convite da Federação da Tchecoslováquia para enviar dois Grandes Mestres para um torneio de elite a ser realizado na cidade de Trinec. A URSS enviou dois juvenis, um deles com 15 anos de idade chamado Anatoly Karpov (o outro era Viktor Kupreychik com 17 anos de idade). Os organizadores ficam contrariados, certamente os soviéticos haviam cometido um engano, mas não havia mais tempo de fazer alterações. A aposta valeu a pena, e Karpov venceu o torneio com 1,5 pontos de vantagem sobre os dois segundos colocados (um deles seu colega Kupreychik, a quem venceu em partida belíssima). Em 1975 Karpov foi declarado Campeão Mundial de Xadrez após a desistência de Bobby Fischer. Ele foi um dos campeões mais vitoriosos do jogo e permaneceu com o título por 10 anos.
Garry Weinstein em 1978
Passaram alguns anos, e já estavam bem estabelecidos o sistema de pontuação Elo e o sistema de títulação internacional de jogadores. Como acontecera em 1966, a Federação soviética recebe um convite para enviar dois Grandes Mestres para participar em um torneio na cidade de Banja Luka, então Iugoslávia. Desta vez, os soviéticos enviam Tigran Petrosian (ex-campeão mundial) e um jovem de apenas 16 anos de idade, sem títulos e sem rating internacional, chamado Garry Weinstein. Novamente, os organizadores ficaram contrariados, mas o jovem foi inscrito na competição, sob forte protesto de alguns participantes como o Grande Mestre Milan Vukic que, assim como Bernstein, haveria de se arrepender. Weinstein venceu o torneio sem derrotas e com 2 pontos de vantagem sobre o vice-campeão. Seu compatriota Petrosian foi apenas o quarto colocado. Weinstein  passou a utilizar o sobrenome Kasparov e foi campeão mundial ao derrotar Karpov em 1985. É considerado por muitos o maior jogador da história. Ele se retirou das competições em 2005 após vencer o Torneio de Linares daquele ano e estar praticamente solitário como número 1 do mundo por mais de 20 anos.

Kramnik em Manila (1992)
Outro caso interessante aconteceu em 1992, nas Olimpíadas de Xadrez de Manila. Com o fim da URSS, os Russos tinham a difícil tarefa de manter a hegemonia nos tabuleiros após a saída de fortes mestres para países como Ucrânia e Armênia. Na ocasião, Kasparov sugeriu que um dos membros da equipe deveria ser o jovem Vladmir Kramnik, 16 anos de idade e “apenas” mestre da FIDE, em detrimento de outros fortes Grandes Mestres russos em melhor posição no ranking mundial. Apesar de ter sido uma decisão apertada, a Federação Russa confirmou o jovem na equipe. Kramnik foi o jogador com melhor desempenho individual da competição com 8 vitórias e 1 empate (94,4% dos pontos possíveis) ajudando a Rússia a vencer a primeira olimpíada após a era soviética e recebeu também Medalha de Ouro por seu desempenho individual. Por este desempenho, Kramnik obteve diretamente o título de Grande Mestre Internacional de xadrez. Em 2000, ele foi o primeiro humano a derrotar Kasparov em um match pelo Campeonato Mundial, e manteve o título até 2007.

Os talentos atuais são conhecidos desde tenra idade, como Carlsen e Karjakin, e têm seus passos avidamente seguidos pelos fãs do jogo. Sabe-se que é apenas questão de tempo para que brilhem nas mais altas esferas. Surpresas como as descritas acima são hoje muito difíceis de acontecer, mas histórias como a de Sultan Khan continuarão para sempre a inspirar muitas gerações de jogadores.


LancesQI

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