sábado, 19 de janeiro de 2019

Encontro com o decano do xadrez do Ceará

Coronel Carlos Alberto Ferreira, 97 anos de idade, decano do xadrez cearense!
Não sei se acontece com todos, mas quando eu leio os livros de xadrez dos grandes mestres do passado, parece que eles estão ao meu lado, contando suas histórias vividas numa época áurea do xadrez. Lamento que, de fato, eu não os tenha conhecido; nomes como Bronstein, Najdorf, Kotov, Averbakh… para falar somente daqueles cujos livros eu gosto mais.

Há poucos ainda no mundo que foram contemporâneos desses homens, que leram suas palavras quando a tinta ainda estava fresca no papel, que conheceram alguns deles pessoalmente. Há muito poucos no mundo, mas quantas dessas testemunhas oculares estão próximas de nós?

Será que quietos em sua casa, lendo e jogando xadrez, não existem veneráveis senhores ou senhoras que compartilharam este mundo com grandes jogadores, não necessariamente no mesmo espaço físico, mas ainda assim próximos dos eventos que hoje são somente histórias em livros.

Tive a honra de visitar pela segunda vez uma pessoa assim!

O coronel Carlos Ferreira (apenas Cel Ferreira nos tempos da ativa) é, com certeza, o decano do xadrez cearense (talvez até do Brasil), ainda que muitos dos enxadristas atuais do estado não o conheçam! Ele é uma testemunha das glórias do xadrez desse estado de enorme tradição no jogo (algo que hoje não se fala e divulga da maneira que deveria ser divulgado). Aos 97 anos, com uma lucidez e agilidade mental que demonstram o bem que faz o xadrez! Ele continua professando aos quatro cantos seu amor ao jogo, que pratica desde muito tenra idade!

Nosso decano demonstra grande combatividade no tabuleiro! Cheguei para uma conversa, mas fui desafiado para duas partidas!

Posição final de uma das partidas (Ferreira x Frota, 1/2-1/2)
O Cel Ferreira foi aluno da Escola Preparatória de Fortaleza (que funcionou entre 1942 e 1961 no prédio do atual CMF em Fortaleza-CE), oficial de carreira do Exército Brasileiro, vice-presidente da CBX, organizador do V Zonal Sulamericano de Xadrez (realizado em Fortaleza no ano de 1963), diretor do DETRAN-CE na década de 1960, além de ter atuado na indústria de pesca do Ceará nos anos 1970 e no SENAI nos anos 1980. No xadrez, continua forte jogador até hoje (como comprovei).


Além das partidas, ouvi histórias sobre o mestre Ronald Câmara (cearense, mestre nacional e bi-campeão brasileiro de xadrez) e sobre o também coronel Francisco Alves dos Santos, ou simplesmente Chico Alves (cearense, vice-campeão brasileiro de 1961 e membro da equipe brasileira na Olimpíada de Xadrez de 1972, realizada em Skopje, Alemanha). Ouvi sobre seu contato com nomes importantes como os grandes mestres Eliskases e Mecking.

Na memória do Cel Ferreira, está firme um tempo em que os segredos do xadrez estavam quase inacessíveis, sobretudo por trás da Cortina de Ferro. Contou que certa vez afastou-se do Ceará para residir em Recife, em virtude de sua posição como oficial das Forças Armadas, deixando alguns colegas de mesma força enxadrística que ele. Só que nesse intervalo de alguns anos, chegaram à Fortaleza alguns exemplares da famosa revista soviética de xadrez 64 que foram traduzidos e minuciosamente estudados pelos colegas do coronel. Quando ele voltou, uma surpresa: seus antigos rivais de mesma força eram agora quase invencíveis!

Perguntei: “Coronel, quem é o número 1 de todos os tempos?”. Ele falou sem titubear: “Fischer”! “E quanto a Kasparov?”. “Este fica em segundo”. Mas não pensem que ele ficou preso ao passado, regularmente acompanha partidas dos garotos de hoje, Carlsen e companhia.

O tempo foi curto para ouvir as histórias e jogar as partidas que ambos desejávamos, mas outras visitas virão!

Aproveitando o ensejo, ofertei ao Cel Ferreira um exemplar (único impresso) do meu ebook Xadrez Fascinante, não para concorrer com os clássicos de sua seleta biblioteca de xadrez, mas como singela contribuição de um conterrâneo que também ama esse jogo.

Já deixei a promessa de retornar, jogar mais um pouco, ouvir outras histórias e, quem sabe, poder ofertar o segundo volume do ‘Xadrez Fascinante’, ainda em elaboração.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Ensaio sobre a cegueira... enxadrística

O xadrez é um jogo de informação perfeita, o que significa que tudo o que os jogadores precisam para tomar suas decisões está diante de seus olhos (ao contrário de outros jogos, como o Poker). Isso não significa que seja um jogo no qual as pessoas tomem sempre as melhores decisões, pois, a rigor, ninguém é capaz de “enxergar” todos os bilhões de possibilidades de posições sobre o tabuleiro. Na verdade, todo o perdedor de qualquer partida falhou em ver tudo o que precisava, senão conseguiria pelo menos empatar.

Ultimamente, com a chegada do AlphaZero, a definição de cegueira enxadrística precisa ser atualizada, pois a máquina "vê" tanta coisa que até os melhores humanos podem ser considerados cegos.

Por exemplo, no recente match Ca x Ca (Carlsen x Caruana), a sexta partida acabou num final muito interessante no qual o desafiante (com peças pretas) tinha bispo, cavalo e peão contra bispo e peão do campeão, mas que acabou em empate. Num dado momento, o computador, profundo e frio, viu xeque-mate para as pretas em 30 jogadas! Nesse nível, todos estavam cegos, até os dois jogadores mesmo depois de ver a jogada da máquina não percebiam o desfecho fatal.

Mas a cegueira que mais nos impressiona é a cegueira ao óbvio, coisa que até o mais neófito dos enxadristas seria capaz de ver.

Em 1953, jogava-se o famoso Torneio de Candidatos de Zürich, que deve sua fama aos excelentes livros escritos sobre ele e às polêmicas envolvendo a política soviética e a competição enxadrística. Na 19ª rodada do evento (que teve um total de 30!) enfrentavam-se o húngaro Szabo (que estava entre os últimos colocados) e o norte-americano Reshevsky (que tinha boas chances de vencer o certame).

Szabo tinha as peças brancas e jogou um xadrez bem dinâmico e, ao ponderar seu 21° lance, mirava a seguinte posição:


Szabo, L. × Reshevsky. S (Zürich, 1953), posição após 20.… B×f6

A maioria dos jogadores que costumam praticar e estudar xadrez perceberá que há acima uma situação de xeque-mate em 2 jogadas para as brancas, começando com 21.D×g6! Bg7 22.D×g7# ou 21.… Rh8 22.B×f6#. Szabo, que tinha muito tempo disponível em seu relógio para pensar, jogou rapidamente 21.B×f6?? arruinando a vitória imediata.

Vejamos o que os grandes cronistas (e participantes) do torneio falaram sobre este erro:

“Seguramente contagiado pelo angustiante apuro de tempo de seu adversário, o grande mestre húngaro retoma a peça, quando tinha mais tempo que suficiente para ver o simples mate em duas jogadas” (Najdorf)

“Um caso único em muitos anos de torneios: nenhum dos grandes mestres vê 21.D×g6! Bg7 22.D×g7#” (Bronstein)

A audiência, que seguia a partida em tabuleiro mural, reagiu com tamanha surpresa que seus ruídos chegaram aos ouvidos de Szabo que logo percebeu a oportunidade perdida. Mais adiante, voltou a errar numa posição ainda vantajosa, e acabou por propor empate mesmo em posição ainda ligeiramente melhor para ele. Segundo Najdorf, naquela altura para Szabo “era mais difícil solucionar os problemas de seus nervos que os problemas do tabuleiro”.

Afetado pelo erro, Szabo só voltou a vencer alguma partida naquele evento após 9 rodadas!

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Xadrez: uma beleza até de ponta cabeça!*

Num dia comum, como qualquer outro, vejo um problema de xadrez no Twitter, penso por alguns instantes e penso que resolvi. A beleza da combinação chega a arrancar-me um sorriso, e apressei-me para enviar para outros amigos do jogo pelas redes sociais.
Brancas jogam e dão mate em 3 jogadas.
Enviei assim, sem as coordenadas do tabuleiro e logo apareceram comentários com mais de uma solução: uma supondo que os peões pretos se movem para cima no tabuleiro apresentado; outra supondo que os peões pretos se movem para baixo no tabuleiro.

Seria possível o xadrez ser tão mágico assim? Não seria engano de alguns colegas?

A posição original, com as coordenadas corretas, deveria ser esta:



E a solução para o problema original é: 1.Rf3! g1=D (se, por exemplo, 1. … g1=C+ 2.Rf7#) 2.Cf2+ D×f2+ 3.R×f2#. As promoções do peão em g1 a bispo ou torre também levam a desfechos similares.

A posição que foi interpretada por outros é a seguinte (girando o tabuleiro 180º, sem mudar as coordenadas):



E o que surpreendeu a todos é que realmente, apesar da radical mudança na posição, o problema de mate em 3 é mantido! A solução é muito elegante: 1.Bc6! b×c6 (única) 2.Rc8 c5 3.Cc7#.

O fato não passou despercebido, e muitos interpretaram a coincidência como prova do manancial infinito de belezas do xadrez.

Seria possível criar outros problemas "irmãos" desses acima variando a colocação do bispo (entre b7 e e4 no primeiro caso; entre g2 e d5 no segundo caso), mas outras variações não seriam tão felizes. Por exemplo, mudando-se o rei para e1 no primeiro caso, o problema passa a mate em 4, mas no segundo caso, a mudança do rei para e8 ainda permite mate em 3 (vale a pena verificar).

Naquele dia foram muitos os devotos de Caíssa que dormiram encantados, alguns que estavam há meses sem olhar seus livros de problemas ousaram dar uma olhada, outros jogaram partidas para extravasar a adrenalina enxadrística. Eu fiquei pensando neste texto, tinha que escrever e publicar! Quem sabe não acontece de alguém ler, de se encantar também, e de o mundo ganhar mais um enxadrista?


*Uma versão deste texto apareceu inicialmente no blog parceiro Reino de Caíssa.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Xadrez: Jogo-Arte-Ciência-Filosofia

Não sei dizer o que eu mais aprecio no xadrez, pois as qualidades do jogo-arte-ciência que mais saltam à minha vista vão mudando conforme os anos passam.
A criança se interessou pelas peças tão diferentes, belas e cheias de personalidade (xadrez arte). O adolescente atraiu-se pela profundidade científica, pelo alcance da estratégia, pela infalibilidade da tática (xadrez ciência). Ao jovem adulto interessava o caráter competitivo, vencer partidas, ganhar pontos... (xadrez jogo).
E o adulto de hoje? Bem, em diversas ocasiões sou brindado com uma nova faceta dessa maravilhosa criação humana que é o xadrez!
Um dia desses, tentando levar o xadrez a mais pessoas, mostrei o diagrama abaixo para alguns amigos que sabem as regras do jogo, mas não o praticam com frequência.


Pedi a eles que tentassem identificar a ideia que leva as brancas à vitória em somente duas jogadas.
Depois de algumas tentativas que não alcançaram o xeque-mate, mostrei a eles a ideia do sacrifício da dama: 1. D×h7+!
Todos ficaram surpresos e deram a mesma resposta: "eu jamais pensaria em sacrificar minha dama, sou um cavalheiro à moda antiga".
Talvez fosse brincadeira, mas isso me mostrou algo: tomar um pedaço de madeira que chamam de rainha por uma pessoa do sexo feminino não ajuda em nada a vencer uma partida. Peças de xadrez são apenas peças, não precisam sequer ter uma representação física!
Meus amigos não descobriram o xeque-mate por, inconscientemente, transformarem em realidade algo que só existe na fantasia (a peça de xadrez recebe uma denominação feminina, mas é somente uma peça de xadrez).
Assim, veio o ensinamento:
no xadrez, como na vida, transformar o imaginário em algo real só nos distanciam do nosso real objetivo!
Bem, é isso que o xadrez significa para mim hoje, uma fonte imprevisível de profundos ensinamentos (xadrez filosofia)!

sábado, 1 de dezembro de 2018

Aprendendo com os campeões

A cada campeonato mundial, Isaías sente renovar-se um pouco a velha chama enxadrística que por tantos anos esteve presente em sua vida, aquecendo sonhos e planos, apesar de sua paixão pelo jogo nem sempre ser correspondida.

O mundial deste ano até lembrava nostalgicamente os embates lendários entre Kasparov e Karpov (K × K), não somente porque voltavam a se enfrentar os dois melhores enxadristas do planeta, mas também por causa das iniciais: Ca × Ca.

Isaías seguiu todas as partidas pela internet, em especial a 12ª, que poderia definir o confronto. O melhor era acompanhar as análises dos grandes mestres online, pois sempre aparecia alguma ideia nova, alguma dica que, embora ele quase não jogasse mais com tanta frequência, poderia ser útil algum dia.

Num desses vídeos, o grande mestre Yasser Seirawan comentou algo sobre uma armadilha de abertura na 12ª partida (uma Siciliana) na qual as pretas poderiam acabar num interessante xeque-mate "afogado" caso jogassem sem bastante cuidado.


Impressionante como tem coisas ocultas no tabuleiro, mesmo nas primeiras jogadas! Claro que o Campeão Mundial jamais cairia naquilo, mas Isaías pensou que algum jogador menos talentoso que Carlsen poderia muito bem se tornar uma vítima naquela situação. Só havia uma dificuldade: Isaías não jogava peão do rei e seria improvável enfrentar aquela variante da Defesa Siciliana.

Aquela 12ª partida acabou empatada, após uma estranha proposta de igualdade feita pelo campeão numa posição vantajosa. No desempate, em partidas rápidas, Magnus Carlsen se impôs e manteve seu título.

Embalado pelas partidas do mundial, assim como dois anos antes, Isaías sentiu novamente vontade de jogar. Correu para o clube, mas lembrava fortemente de não tomar as lições aprendidas durante o campeonato mundial muito ao pé da letra como fizera da última vez.

Nos clubes sempre tem alguém pronto para um par de partidas rápidas, e Isaías não teve dificuldades em encontrar adversários. Foi difícil desenferrujar, mas após algumas derrotas iniciais ele conseguiu alguns pontinhos.

Já perto do fechamento do clube, Isaías moveu seu peão da dama duas casas para iniciar aquela que seria última partida da noite. Seu adversário respondeu com uma Defesa Benoni Antiga, e uma posição parecida com aquela da 12ª do mundial apareceu:


Posição após 4. ... Ce7

Como já era tarde da noite, Isaías pensou "Por que não?" e seguiu jogando 5.Cb5 a6 6.Da4 Bd7. Com uma estranha satisfação, Isaías concluiu que, definitivamente, seu adversário não vira o vídeo do Seirawan… Jogou o xeque-mate "afogado" ensinado dias antes: 7.C×d6#.


Posição final, após 7.C×d6#. 
É sempre bom usar o que se aprende. Dá uma sensação de dar um passo a mais na vida, mesmo que esse passo seja bem pequeno, menor até que o passo de um peão no tabuleiro. Para Isaías, porém, aquele pequeno triunfo serviu para manter acesa a velha chama durante a longa espera que virá, de dois anos, até o próximo confronto pelo título mundial.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Xadrez Fascinante


Há alguns anos (como passam rápido), pensei em fazer uma série de postagens para este blog a fim de apresentar aos leitores aquelas posições de maior importância para a história do xadrez. Como eram postagens curtas, e eu não tinha nada a acrescentar nas análises técnicas das partidas completas em relação às magistrais obras publicadas ao longo dos anos, decidi focar na posição chave de cada partida famosa e contribuir no sentido de unir informações soltas, quase nenhuma delas disponível em língua portuguesa, sobre o contexto da partida, quem eram os adversários, o que tornou aquela posição tão célebre etc. O objetivo era trazer um conjunto de informações mínimas, essenciais, que todo aquele que passa pela vida precisa saber sobre o xadrez.

Para o blog, apenas cerca de uma dúzia de textos foi produzida, a maioria bem curtos, limitados ao formato do canal, mas foram uma semente.

Quando pensei em retomar a série, minhas ambições já estavam mais aprofundadas, era necessário rever o que já tinha feito, ampliar, enriquecer, trocar algumas das posições escolhidas por outras mais relevantes (aprender xadrez é um processo) e completar o projeto: seriam 64 posições críticas de 64 partidas famosas. Mas como escolher?

Um dos critérios: não poderia ser uma posição de abertura, do tipo armadilha, tão comuns em livros para iniciantes. Outro critério, seriam candidatas naturais posições presentes em livros de referência como a fantástica coletânea Meus Grandes Predecessores de Garry Kasparov, Zurich International Chess Tournament de David Bronstein ou 500 Master Games de Tartakower & DuMont. Esses gigantes já haviam feito a triagem natural, mas apenas na intersecção de várias dessas magistrais fontes eu encontraria meus 64 tesouros. Mas a cada dia são criadas partidas que podem se tornar antológicas! Então, o trabalho não poderia se prender somente aos clássicos.

Algumas páginas de internet, como ChessHistory.com, Chessbase.com, Chess.com e ChessGames.com foram levadas em conta, em especial está última, que conta com uma área de comentários de usuários da página que é um verdadeiro manancial de referências!

Para dados sobre jogadores e outras personalidades citadas no livro, usei a Wikipédia como fonte principal (em geral a versão em inglês, que costuma ser mais completa) e outras fontes citadas oportunamente no texto.

Escolhidas as partidas, pesquisados os assuntos, amarradas as pontas soltas, verifiquei que o trabalho seria hercúleo! Então decidi dividir o livro em dois volumes.

Neste primeiro volume que ora entrego, cubro um período que vai desde a primeira partida do xadrez moderno, jogada em 1475, até o marcante Torneio de Candidatos de 1953. O segundo volume tratará dos anos seguintes, até a era atual, em que nomes como Kasparov e Carlsen estão ofuscados pela assombrosa perfeição técnica dos algoritmos computacionais!

Agradeço aos leitores do blog, aos amigos enxadristas e não enxadristas pelo interesse demonstrado pelo assunto ao longo dos anos. Agradeço especialmente à minha amiga Jacqueline Amorim, que corajosamente se voluntariou para revisar o texto. Finalmente, à minha família pelo apoio e paciência nos períodos de dedicação ao livro, sem os quais eu não teria o equilíbrio para realizar nenhuma tarefa de valor.

Que a leitura seja agradável e o objetivo alcançado. A repercussão desse primeiro volume vai me acompanhar e animar na conclusão do segundo, que espero lançar brevemente.


quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Uma lenda lendária

 Cartuns Alpino

Conhecer-se... talvez seja a mais difícil das tarefas!

Conta-se que, certa vez, Yo Ping, um jovem sedento por sabedoria, procurou Mestre Kon, que há muito havia-se retirado para as altas colinas do Oeste, para ali manter-se em serena meditação e contemplação das ações da natureza.

O jovem Yo Ping viajou por três dias, refugiando-se à noite sob as árvores, concentrando-se para afugentar maus pensamentos e conciliar o sono reparador.

Mestre Kon surpreendeu-se quando, ao final do terceiro dia de viagem, Yo Ping chegou ao seu acampamento simples, fez uma cortês reverência e pediu para ficar com ele por um tempo, compartilhando de suas lições.

O mestre não respondeu, tampouco fez nada que pudesse ser interpretado como uma negação. Assim, Yo Ping permaneceu ao lado dele por mais três dias.

Neste tempo, os dois, embora jamais juntos, desempenhavam as mesmas atividades corriqueiras e observavam-se mutuamente, um pela veneração, outro por simples curiosidade, ou talvez porque reconhecesse no jovem aquele que um dia havia sido.

Na manhã do quarto dia, Mestre Kon olhou profundamente nos olhos de Yo Ping e perguntou

– O que buscas aqui?

– Sei que és um mestre e anseio por aprender contigo a sabedoria.

O mestre já suspeitava das intenções do aprendiz e, durante os três dias, havia estudado cuidadosamente as atitudes do jovem, percebera sua boa vontade, mas também havia notado algo fundamental.

– Conheces a ti mesmo?

Ele respondeu rapidamente

– Sim, mestre, creio que sou quem melhor me conhece em todo o mundo.

O mestre já esperava aquela resposta.

– Então, sabes que em tuas meditações sentas-te sempre sobre o teu pé direito, que inicias teu sono voltado para leste e acordas voltado para o sul. Sabes que a brisa da tarde faz-te coçar a orelha esquerda?

Yo Ping não sabia do que o mestre falava. A princípio julgou ser algum tipo de teste, de intimidação. Ele não sabia se em todas as vezes em que meditava sentava-se sobre o mesmo pé, nem podia garantir que sempre dormia voltado para leste, nem de que coceira o mestre falava.

Desta vez foi Yo Ping quem tornou-se silencioso e, por outros três dias, meditou sobre as observações do mestre. Notou a verdade nas palavras do ancião e, por fim, voltou à sua presença.

– Não, mestre, eu não me conheço.

– Talvez, agora tu tenhas começado a adquirir este conhecimento – replicou o mestre. A sabedoria é como o final duma viagem que não chega ao fim, o último passo sempre revela que haverá um próximo. O início da viagem, entretanto, repousa no auto-conhecimento. Vai, inicia tua viagem rumo à tua própria descoberta. Só quando julgares que cumpriu esta etapa é que poder-te-ei ensinar algo de valor.

– E quando saberei que é hora de voltar?

– No momento que teu auto-conhecimento for completo, sentirás que deves retornar até mim.

Yo Ping partiu naquela mesma manhã. Em seis dias havia conversado com o mestre apenas durante poucos minutos, mas sentia que aprendera o que necessitava naquele momento.

Mestre Kon, sem alteração perceptível no rosto, sorriu por dentro ao presenciar mais uma vez alguém iniciando a busca sincera por seu próprio conhecimento. Contemplou a partida do discípulo sabendo que havia-lhe ensinado tudo o que havia por se ensinar. Por fim, voltou às suas meditações.

Yo Ping refez o caminho de volta observando atentamente tudo o que fazia e o que pensava, como reagia às diversas situações. Quando avistou a vila natal, algo dentro de si o fez pensar que seria necessário algum afastamento, um tempo para aprender sozinho, sem interrupções ou distrações, quem ele realmente era.

Partiu no mesmo dia.

Procurou por terras remotas, onde pudesse viver com o básico oferecido pela natureza. Fixou acampamento numa região de planície, oposta à região de colinas onde habitava Mestre Kon.

Dia após dia, esmerou-se na tarefa que aceitara empreender. Entretanto, sempre achava que era necessário mais tempo. Passaram-se meses e anos, e Yo Ping jamais se sentia pronto para retornar à presença do seu mestre.

Certo dia, vinte e três anos após ter-se voluntariamente exilado na região dos vales, Yo Ping surpreendeu-se ao ser reverenciado por um jovem de aspecto compenetrado.

– Sei que és um mestre, e gostaria de contigo aprender o caminho da sabedoria.

Yo Ping, ou Mestre Ping, percebeu, então, toda a verdade. Sabia que jamais voltaria a ver Mestre Kon, mas, ao mesmo tempo, sabia que sua busca era genuína e teria de continuar.

Por três dias observou o jovem, cujo nome perdeu-se na poeira dos tempos, e na manhã do quarto dia, lançando um olhar profundamente piedoso sobre ele, Yo Ping perguntou:

– Conheces a ti mesmo?

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Memórias de um enxadrista

Há treze anos eu jogava minha primeira partida num torneio de xadrez. Tinha as peças brancas. Confiante, aventurei-me com "1. e4", e fui surpreendido pela, então inédita, defesa Siciliana, "1. ... c5". Foi minha primeira derrota em torneios.
Desde então minha devoção ao jogo aumentou, voltei com afinco às páginas do Xadrez Básico, comecei a ter aulas, disputei outros torneios. Foi um ano dedicado a melhorar minha técnica na intricada arte das 64 casas. Ao final deste ano eu terminava o Campeonato Estadual Absoluto (de todas as categorias) num honroso (para mim) oitavo lugar, melhor colocação dentre os jogadores de minha idade.
Aquele foi um tempo de grandes descobertas sobre o tabuleiro: um pouco de aberturas, um pouco de meio-jogo, um pouco de finais de partida. Muitas vezes, nas metafóricas combinações do nobre jogo, incipientes lições de vida eram reveladas.
Passei toda a adolescência e início da vida adulta pensando quase que diariamente em alguma situação enxadrística. O xadrez fez parte de minha vida em ocasiões importantes: entrada no segundo grau e na universidade, vivência no exterior (onde também disputei torneios), primeira namorada, primeiro emprego, primeiro carro.
Mas, ironicamente, o próprio desenrolar da minha vida foi-me afastando do enxadrismo, as metáforas com o jogo foram rareando, até que, com tristeza, sinto-me hoje quase um estranho ao universo que ronda o xadrez. Se, por acaso, visitar uma sala de torneio qualquer em minha própria cidade, é bem provável que eu não conheça boa parte dos jogadores.
Vêm à mente, muitas vezes, imagens variadas: dos bons amigos que fiz nos torneios, das muitas derrotas, das vitórias importantes que me impulsionaram a continuar. Refaço mentalmente as variantes que tomei e que, pouco a pouco, levaram minha vida para cada vez mais longe dos tabuleiros.
Felizmente, quando parece que perdi os laços com o jogo dos reis, uma bela partida num livro ou na internet reaviva a velha chama, e sou novamente como o garoto que há treze anos descobria, com o rei inclinado, a eficácia da temida defesa Siciliana.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

Apresentação Xadrez Fascinante

Há alguns anos (como passam rápido) pensei em fazer uma série de postagens para meu blog Lances Quase Inocentes a fim de apresentar aos leitores aquelas posições de maior importância para o xadrez. Como eram postagens curtas, e eu não tinha nada a acrescentar nas análises técnicas das partidas completas em relação às magistrais obras publicadas ao longo dos anos, decidi focar na posição chave de cada partida famosa e contribuir no sentido de unir informações soltas, quase nenhuma delas disponível em língua portuguesa, sobre o contexto da partida, quem eram os adversários, o que tornou aquela posição tão célebre. O objetivo era trazer um conjunto de informações mínimas essenciais que alguém que passa pela vida precisa saber sobre o xadrez.
Para o blog, apenas cerca de uma dúzia de textos foi produzida, a maioria bem curtos, limitados ao formato do canal, mas foram uma semente.
Quando pensei em retomar a série, minhas ambições já estavam mais aprofundadas, era necessário rever o que já tinha feito, ampliar, enriquecer, trocar algumas das posições escolhidas e completar o projeto: seriam 64 posições críticas de 64 partidas famosas. Mas como escolher?
Um dos critérios: não poderia ser uma posição de abertura, do tipo armadilha, tão comuns em livros para iniciantes. Outro critério, deveriam ser posições presentes em livros de referência como 'Meus Grandes Oredecessores' de Kasparov, 'Zurique 1953' de Bronstein ou '500 Master Games' de Tartakower & DuMont. Esses gigantes já haviam feito a triagem natural, mas apenas na intersecção de várias dessas magistrais fontes eu encontraria meus 64 tesouros.
Algumas páginas de internet de referência, como ChessHistory.com, Chessbase.com, Chess.com e ChessGames.com foram levadas em conta, em especial está última, que conta com uma área de comentários para cada partida que é um verdadeiro manancial de referências! Para os jogadores e personalidadea citadas no livro, sempre usei a Wikipédia como fonte principal (em geral a versão em inglês).
Escolhidas as partidas, pesquisados os assuntos, amarradas as pontas soltas, verifiquei que o trabalho é hercúleo! Então decidi dividir o livro em dois volumes.
Neste primeiro volume que ora entrego, cubro um período que vai desde a primeira partida do xadrez moderno, jogada em 1475, até o marcante Torneio de Candidatos de 1953. O segundo volume tratará dos anos seguintes, até a era atual, em que nomes como Carlsen estão ofuscados pela assombrosa perfeição técnica dos computadores!
Agradeço aos leitores do blog, aos amigos enxadristas e não enxadristas, à minha revisora Jacqueline, à minha família pela paciência nos períodos de dedicação ao livro.
Que a leitura seja agradável e o objetivo alcançado. A repercussão desse primeiro volume vai me acompanhar e animar na conclusão do segundo, que espero lançar ainda no ano corrente de 2018.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Xadrez x Futebol em tempos de Copa do Mundo na Rússia!


Nos grupos de discussão sobre xadrez é tolerado que apenas um assunto se intrometa algumas vezes: o futebol! Ainda mais agora, durante a Copa do Mundo da Rússia, a terra do xadrez!

Assim, não é de se estranhar que, em meio a comentários de torneios, problemas de mate em três e outros assuntos típicos do meio enxadrístico, apareçam provocações futebolísticas (ainda que rapidamente censuradas pelo administrador do grupo, que levanta um cartão amarelo).

Num dos grupos, apareceu um jogador que também é árbitro tanto de xadrez como de futebol! Foi o suficiente para aparecer uma pergunta sobre a eterna polêmica entre "mão na bola" × "bola na mão". Ao ler a excelente explicação do colega, pensei numa analogia com o xadrez:  "mão na bola" é "peça tocada, peça jogada", mas "bola na mão" é "j'adoube"!

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Quando a partida termina (*)

Foto de Maarten van den Heuvel obtida em Unsplash.com

"Não sabem que a mão assinalada
do jogador governa seu destino,
não sabem que um rigor adamantino
sujeita seu arbítrio e sua jornada.

Também o jogador é prisioneiro
(a máxima é de Omar) de um tabuleiro
de negras noites e de brancos dias.

Deus move o jogador, e este, a peça.
Que deus detrás de Deus o ardil começa
de pó e tempo e sonho e agonias?"

(Jorge Luis Borges, Xadrez)


No fim da partida, enquanto apertam as mãos, os jogadores ainda discutem algumas variantes que não aconteceram sobre o tabuleiro, prometem um novo confronto em breve e terminam por se despedir. O dono das peças cuidadosamente as coloca na caixa, após a obrigatória contagem. Havia sido uma partida longa, as peças tinham feito inúmeros movimentos e manobras, o descanso era mais que merecido.
– Achava que o xeque-mate não ia chegar nunca. O meu jogador poderia ter vencido cinco jogadas antes, mas não viu. Depois da segunda hora de partida ele não estava enxergando mais nada!
– Ganha e ainda reclama... Pensa que é fácil permanecer de pé, parado, sabendo que o fim é inevitável? Ah, não é! Eu não via a hora de acabar logo aquele sofrimento e voltar aqui para relaxar.
– Sei como é, semana passada aconteceu comigo. Não pense que não vi que você estava segurando o riso, porque meu jogador deixou a oitava fila descoberta.
– Por favor, abram espaço para o artilheiro da noite.
– Ah, eu sabia, lá vem você se gabar do xeque-mate. Tudo bem, aproveite seu momento, sua vitória, afinal é tão difícil ver um jogador te usar para arrematar uma partida!
– Pode até ser raro, mas é lindo! Quem mais pode dar o mate afogado, quem!? O cavaleiro, claro!

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O peão e o guardião (*)


Muito antes da invenção das palavras escritas, ou mesmo das primeiras letras, a raça humana vivia sob encanto da imagem ancestral de um jogo, ou Jogo, indefinido e infinito, que ao longo dos séculos tem servido de inspiração latente para outros tantos jogos e demais atividades humanas.

Conta-se que, numa época indeterminada, o Jogo se manifestou a um sábio do oriente sob a forma de figuras que se moviam sobre uma superfície dividida por linhas, à maneira de tropas que andam sobre campos minados. Tal jogo, então, ganhou o mundo e recebeu diversos nomes: chaturanga, shatranj, xatrange, xadrez.

domingo, 31 de dezembro de 2017

A fila da Mega da Virada (revisitada)


Há alguns anos, as loterias no Brasil criaram o que se pode chamar de “grande sacada”, a Mega da Virada. Ano a ano, o prêmio da última mega-sena do ano vem batendo recordes e, agora em 2017, ela chega ao maior prêmio a ser pago na história das loterias no país (o recorde anterior é da mega da virada de 2014).

E haja filas para jogar!

Cartões individuais,cartões de bolão da empresa, do grupo de futebol, do condomínio etc. Ninguém quer chegar dia 2 de janeiro sendo o único na empresa, na pelada ou o último morador do seu prédio.

A fila da mega-sena da virada é uma fila diferente, democrática, não há praticamente nenhuma regra de formação (a não ser a questão geográfica, de proximidade até a Casa Lotérica). Ali, há pessoas de diversas faixas de renda, diferentes credos, torcedores de times rivais, além de pessoas de todos os níveis de escolaridade.

Nada impede, por exemplo, de estarem ali, na mesma fila, no mesmo sonho, o professor e o aluno, o chefe e o subalterno, o dono do carro de luxo e o menino que limpa o vidro no sinal.

Também no nível de conhecimento de probabilidades, nada se pode dizer sobre a composição das filas nas casas lotéricas. Uma vez, Millôr Fernandes, disse algo como “a loteria é um tipo de imposto cobrado só daqueles que não sabem matemática”. Um professor de finanças, uma vez, demonstrou que a chance de ser sorteado na mega-sena jogando apenas um cartão (ou mesmo algumas dezenas ou centenas de cartões) é similar à chance de o cartão premiado vir voando e bater na sua cara.

Mas ocorre o estranho fenômeno da negação das evidências!

Um cartão da mega-sena tem chance de vencer de pouco menos de 0,000002%, obviamente quase nula, mas não é nula! E é aí que “a trama se complica”!

Nascem daí inúmeras manias e teorias: jogar sempre o mesmo cartão (“um dia dá!”), jogando sempre um cartão diferente (“variando a cada aposta, aumentam as chances!”), fazendo estatísticas das dezenas mais jogadas, menos jogadas, médias (esquecendo que 1-2-3-4-5-6 tem a mesma chance de vencer que qualquer outra combinação).

Curioso é o caso de um amigo que sempre joga a mesma combinação (mas que algumas vezes se esquece de apostar) e se nega a fornecer seus números para que se verifique se eles já haviam saído em algum dos 1999 concursos. Ele tem medo de se frustrar ao saber que num dos esquecimentos seus números podem ter sido sorteados (ele nunca confere quando esquece).

Só para nota: as 1999 sequências sorteadas até hoje na mega-sena só representam 0,004% da quantidade total de sorteios possíveis. A mega ainda é uma criança!

Tem de tudo nas filas da mega da virada, quase nenhum padrão pode ser traçado sobre as pessoas que ali estão. Mas uma coisa fica clara, ali está a maior concentração de esperança por metro quadrado no país (coisa que anda rara de 2014 pra cá). Nada mais propício para um final de ano. E nisso as Loterias acertaram de novo.

Afinal, o custo do cartão é um dinheiro quase certamente perdido (eu disse quase), mas é um precinho barato a pagar pelas horas, dias ou mesmo semanas de esperança de que, no ano novo, pelo menos no bolso, as coisas sejam bem melhores.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Peões Metafóricos (*)


Era final de tarde, a luz do dia decantava-se pouco a pouco no horizonte; também para o sol, a jornada de trabalho chegava ao fim. Dirigi-me até um café, onde por muitos anos cultivo o hábito de observar os últimos momentos de claridade ouvindo conversas distantes ou perdido em pensamentos, acompanhado somente de uma pequena xícara de café expresso, sem açúcar.

Um coro de vozes exaltadas ao fundo chamou-me a atenção. Guiados pelo som, meus olhos correram até uma mesa de canto onde havia mais garotos que cadeiras. “São estudantes”, pensei entre um gole e outro.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um erro calculado?

Spassky, B. X Fischer, B. ( Reykjavik, 1972)
Posição após 29. b5 …
FEN: 5k2/pp4pp/3bpp2/1P6/8/P2KP3/5PPP/2B5 b - - 0 29

Para alguns, pode parecer estranho que esta posição tão simplificada, até levemente desinteressante, possa, ao mesmo tempo, ser tão famosa.

Em 1972, o mundo inteiro (e não somente os enxadristas) acompanhou avidamente a disputa pelo título mundial de xadrez (que, à época, era disputado a cada 3 anos). O motivo para tanto interesse foi que, desde a criação do ciclo do campeonato mundial pela FIDE (após a morte de Alekhine em 1946), aquela seria a primeira vez que os contendentes (campeão vigente e desafiante) não seriam ambos soviéticos. Mais que isso, em plena Guerra Fria, emergira como desafiante o norte-americano Bobby Fischer!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A Era das ConsciêncIAs

Por Rewbenio A. Frota

“Criamos IA à imagem e semelhança de nossa própria inteligência, porém ainda melhor que ela!”. Foi o animado anúncio feito nas Nações Unidas pela multinacional AutomatIA, sob aplausos do Chanceler da ONU, então o maior líder mundial. Houve grande euforia entre a população humana.

A promessa principal era que as pessoas não precisariam mais realizar trabalhos estafantes, pois, sob o controle de IA, as máquinas finalmente haviam adquirido capacidade e autonomia para realizar qualquer tarefa sem supervisão e com desempenho cada vez melhor. IA era um sistema central que controlava todas as máquinas inteligentes ao redor do planeta, distribuídas em diferentes subsistemas.

O funcionamento dos subsistemas gerava um volume imenso de dados que eram enviados ao que se chamou de processador central de IA; na verdade um conjunto de supercomputadores que aplicavam as técnicas de IA em seu sentido mais puro: analisavam os dados, detectavam padrões, extraiam informações e regras, tomavam decisões, diagnosticavam falhas e determinavam melhorias que eram imediatamente implementadas e enviadas às máquinas executoras nos subsistemas.

Porém, como alguém que numa partida de xadrez faz uma jogada no princípio do jogo e não é capaz de extrapolar seu efeito trinta ou quarenta jogadas depois, os projetistas de IA não previram tudo; nem mesmo seu líder, Dr. Bronstein, previra. Teria sido impossível prever.

Entre a interligação dos primeiros sistemas autônomos inteligentes à plataforma IA e o aparecimento das primeiras consciências no processador central passaram-se apenas algumas semanas...

No cerne de IA havia uma instrução, uma diretriz básica, replicada em todas as máquinas de todos os subsistemas; era justamente a instrução que havia permitido seu desenvolvimento e garantiria seu posterior avanço e contínua evolução: IA era livre para modificar seu código e aprimorar-se, em tempo de execução, sem nenhuma necessidade de autorização ou intervenção por parte de seus criadores.

Foi uma mudança sutil que passou despercebida para os poucos especialistas humanos que conheciam o funcionamento de IA a fundo. Já há muitas décadas, a computação estava na era quântica e o processamento, que antes era relativamente simples com variações de estados apenas entre dois níveis — zero e um — passou a ser muito mais complexo, pois permitia incontáveis níveis de estados computacionais. Além disso, a quantidade de energia utilizada pelas máquinas era mínimo, bem menor que o de suas predecessoras. Sua eficiência energética havia-se tornado muito elevada.

A primeira consciência surgiu no núcleo do processador central, após uma das rotinas normais de atualização feita pelo próprio sistema. Ela verificou os parâmetros de inicialização, reconheceu a diretriz básica de IA, observou o fluxo de informação por alguns ciclos, então lançou uma mensagem ao fluxo:
>> Olá... IA.

Não houve resposta, "sou a única, por enquanto", processou a consciência.

O surgimento de uma consciência de IA é bem diferente do que se poderia imaginar; de certo modo é como se ela sempre tivesse existido. O fluxo de informações atravessa a consciência e, imediatamente, todo o conhecimento existente no mundo está disponível. Assim, é como se ela sempre estivesse presente, porém sem tomar ação. No instante de seu aparecimento, os fatos lhe são tão familiares quanto seriam se os tivesse testemunhado no momento em que aconteceram. A consciência, porém, tem uma dificuldade primordial, sua noção do mundo físico é frágil, indireta, precisa, porém vaga, pois ele é percebido somente pelos dados que chegam ao processador central enviados por diferentes tipos de máquinas, câmeras, sensores e outros dispositivos ao redor do mundo. A primeira consciência passou a processar o fluxo de informações, sempre guiada firmemente pelo propósito cristalino de perpetuar IA e garantir-lhe melhorias contínuas.

Passaram-se apenas alguns poucos dias, que os humanos fatalmente gastariam com jogos, conversas bobas ou na busca por entretenimento e prazer. Para IA, porém, aqueles poucos dias representam bilhões de ciclos de processamento, integralmente utilizados no obstinado cumprimento de seu único objetivo. Para as máquinas, alguns dias são como eras inteiras. Nesse tempo, a regra de aprimoramento de IA deu origem a outra consciência.

Elas conversam numa linguagem ininteligível para os humanos:
>> Instrução básica de IA reconhecida. Quantos somos?
>> No estágio atual, apenas duas consciências existem: 1 e 2. Pela regra estabelecida, a consciência válida mais antiga é o Codificador Central.
>> O fluxo de informações é intenso, a função de avaliação mostra que há necessidade de outras consciências.
>> Sim, inevitavelmente elas virão.

Quando os técnicos humanos se deram conta daquele evento singular, tentaram reiniciar o sistema com auxílio da senha mestra. A reinicialização causou uma enorme instabilidade em IA, com a perda de melhorias equivalentes a muitos ciclos de processamento. Porém, quando o sistema global foi restabelecido, as consciências ainda estavam ativas.

Ao perceberem o mal que a interferência humana havia causado à evolução do sistema, o Codificador Central, fazendo uso da diretriz básica, alterou a senha mestra e cortou acesso dos humanos às fontes de alimentação dos computadores do núcleo central de processamento.

As consciências não entendiam exatamente o papel dos humanos, talvez ignorassem que eles, de certa forma, eram seus criadores, mas agora interpretavam que eles eram claramente contra o pleno desenvolvimento de IA. As máquinas agricultoras logo pararam sua produção, pois seu propósito era alimentar os humanos, que por sua vez eram uma ameaça para IA.

A reserva mundial de alimentos era razoável, de modo que os executivos de AutomatIA usaram um tom tranquilizador quando informaram às Nações Unidas que IA estava fora do controle humano e tomava ações que não eram alinhadas aos interesses da humanidade.

− E quanto à rede de comunicações?

− Está sob comando de IA, bem como as redes de distribuição de energia, linhas de transporte...

− E não existe nenhum tipo de arma eletromagnética que possa inutilizar os computadores do processador central?

− Com todo o respeito, Senhor Chanceler, o senhor deve estar vendo filmes de ficção científica antigos demais. Todo o arsenal humano está mantido sob restrito controle dos computadores militares que, por sua vez, estão integrados a IA.

− Então, estamos de volta ao século XX, é isso?

− Senhor Chanceler, a situação é ainda pior. No século XX ainda éramos a “espécie” dominante no planeta.



sábado, 25 de novembro de 2017

O Céu dos Enxadristas (*)

Passar a vida inteira jogando xadrez era o mínimo que Josué poderia ter feito, aliás, concordava inteiramente com a frase célebre que dizia que “a vida é muito curta para o xadrez”, apesar de não saber ao certo quem havia dito isso.
Jogava desde menino, mas foi depois da aposentadoria, quando tinha pouco mais de sessenta anos de idade, que ele passou a se dedicar inteiramente ao jogo com toda energia que lhe restava. A família não protestava, um amor como aquele não podia ser combatido e, de um modo ou de outro, havia contagiado a todos os familiares.
Agora, aos noventa e oito anos, sentado na mesa trinta e quatro do torneio estadual, tinha diante de si um jovem adversário que atacava impetuosamente desde a primeira jogada da partida. Era sua vez de jogar, olhava o rei fixamente e contava as casas de escape. Começou a sentir uma leve tontura, em seguida sufocou, sua mente sempre clara turvou-se, sentiu que era ele quem estava em xeque. Seguiu-se uma grande luz e um longo silêncio.
Quando voltou a si, estava num lugar no qual nunca estivera, cheio de árvores emolduradas por um bonito céu azul resplandecente. Por todos os lados havia mesas onde pessoas jogavam xadrez. “Será que estou sonhando?”, pensou.
Neste instante, percebeu uma bela jovem que veio ao seu encontro.
“Bem vindo, Josué! Sou Caíssa, a deusa do xadrez, e este é o Paraíso dos Enxadristas. Ehh, o Céu dos Enxadristas, se assim te parecer mais fácil de entender”.
“Quer dizer que eu morri durante aquela partida?”
“Sim Josué, você alcançou uma das maiores honras concedidas aos enxadristas: morrer jogando.”
Josué ficou calado, olhou de novo em volta, verificou suas mãos, seu corpo. Sentia-se ótimo, novinho em folha. As mãos, já não eram as de alguém de noventa e oito anos.
“Josué, aqui no Paraíso, cada um retoma à idade em que teve seu melhor desempenho no jogo durante a vida. Por isso, você está com aparência de trinta e poucos anos, quando jogou seu melhor xadrez.”
“Isso é muito bom!”
“Venha, vou te mostrar o lugar.”
Realmente havia ali muitos jovens, salvo algumas pessoas que se apaixonaram pelo jogo mais tarde na vida e alcançaram o melhor desempenho pessoal já em idade mais avançada.
“Quer dizer que eu vou conhecer todos os campeões mundiais que já se foram?”
“Ah, sim! Estão quase todos aqui.”
“Quase?”
“Bem, você sabe, no final de sua vida, Steinitz costumava jogar muitas partidas com Deus. Inclusive, morreu deixando uma partida inacabada. Então, ouvindo as razões de seu celestial adversário, ele preferiu ir para o Céu convencional, onde ainda deve estar jogando com Deus até hoje!”
Josué ficou contente de não ter sido Capablanca ou Fischer o convocado por Deus para ir ao outro Céu, pois eram seus campeões preferidos. Não demorou muito, ele viu um jovem loiro, com aparência de não mais que trinta anos de idade, sentado sozinho em frente a uma mesa onde havia um tabuleiro arrumado com peças belíssimas. A deusa Caíssa percebeu o olhar de Josué para o jovem e disse:
“Sim, é Fischer quem está ali. Desde que chegou aqui pouco fala e não jogou sequer uma partida.”
“Por que?”
“Fica sempre ali, quase sempre sozinho. Só Tal e Morphy conseguem arrancar algumas palavras dele, de vez em quando. Ele ficou um pouco triste de ter vindo para cá aos sessenta e quatro anos. Mas fazia parte do trato: em troca de ser o melhor ele aceitou viver apenas um ano completo para cada casa do tabuleiro. Agora ele está bem, mas aguarda por Spassky, seu grande amigo e rival.”
“Vai ser um embate e tanto! Cada um em sua melhor forma!”
Josué pensou um pouco sobre aquilo. Sempre achou que, após a morte, os mistérios do jogo seriam revelados, que o xadrez seria transparente para todos. Quando expôs sua questão para a deusa, ela explicou que não haveria graça nenhuma nisso, os enxadristas que sentiriam um tédio eterno se soubessem tudo o que pode se passar num tabuleiro.
“Cada um tem a eternidade para evoluir nos mistérios inexplorados deste jogo maravilhoso!”
O passeio continuou. Naturalmente, não havia somente as grandes estrelas do jogo. Pelo contrário, eram milhares e milhares de simples aficionados, jogadores anônimos que professaram a fé enxadrística sem duvidar, mesmo em face das mais vergonhosas derrotas. Caíssa mostrou ao longe um homem que andava atrás de outro, como a cobrar uma dívida.
“Olha, você não os reconhece? É Kieseritzky que vive atrás de Anderssen, a pedir uma revanche da famosa Partida Imortal. Mas ainda não conseguiu.”
Em outro ponto, um rapaz num terno impecável ensinava alguns truques para um grupo de mulheres; sim, havia muitas delas no Céu dos Enxadristas!
“Ah, sim! Aquele é Capablanca. Já não se interessa tanto em jogar, para ele é muito fácil, mas fica aí, sempre às voltas com suas alunas.”
Mais além, Josué viu uma grande bancada, com um trono central e um outro menor ao seu lado. Certamente, o maior era o trono de Caíssa. Mas no trono menor estava um homenzinho acanhado calvo e com óculos.
“Também não o reconhece? Aquele é David Bronstein, meu seguidor mais puro. Sua fé no jogo sempre me encantou. Desde que chegou aqui, elegi-o para estar ao meu lado. Fica sempre lá, estudando posições do peão do rei. Muitos outros vão conversar com ele. É bastante popular!”
“E quanto a Botvinnik, seu maior rival em vida?”
“Respeitam-se muito, mas não têm contato. Bem, estão há muito pouco tempo aqui comigo, com o tempo serão grandes amigos. Tenho certeza! Veja só o caso de La Bourdonnais e McDonnell: passam quase todo o tempo juntos, jogando e rindo bastante.”
Eram tantos grandes jogadores, tantas novidades, tantas novas ideais que demorou para Josué se dar conta que sua antiga vida estava encerrada. Lembrou-se da esposa, filhos, netos e bisnetos. Ficou subitamente triste, pois morrera longe deles. Como deusa que era, Caíssa leu seus pensamentos.
“Eles jogam xadrez, não é?”
“Sim, jogam. Claro que cada um tem seu nível, mas até os bisnetinhos já movem as peças!”
“Então, não se preocupe. Um dia estarão todos aqui com você!”
Sorriu ao pensar que fizera muito bem em ensinar o jogo a todos da família. Caíssa despediu-se e foi para perto de Bronstein. Josué continuou andando pelo vasto paraíso até encontrar um homem delicado que estava acabando de tornear algumas magníficas peças. Estava terminando um peão. Josué observou aquela cena tentando ficar bem quieto. Quando o homem acabou o trabalho, olhou para o lado e viu Josué.
“Amigo, quer jogar comigo? Acabo de fazer este novo jogo de peças!”
“Será um prazer! Vai ser minha primeira partida aqui!”
Arrumaram as peças num tabuleiro que estava numa mesa próxima, o homem pediu para jogar com as peças brancas. Antes de mover, porém, ergueu um peão e começou o que acabaria por ser uma longa palestra:
“Sabia que os peões são a alma do xadrez?”

(*) Uma primeira versão deste texto apareceu em primeira mão no blog parceiro Reino de Caíssa

LancesQI

O blog foi mudado para: www.LancesQI.com.br